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A colagem traz alguns líderes de estado e ilustra o texto sobre neutralidade na política
| Foto: Daniel Nardes/Gazeta do Povo

“Equilíbrio, discernimento, ponderação, razoabilidade, sensatez”. Em uma das semanas mais tensas do ano político brasileiro, em que o presidente da República enviou ao Senado um pedido de impeachment de um ministro do Supremo Tribunal Federal, o vice-governador do Paraná, Darci Piana, saiu do Fórum Nacional dos Governadores, em 23 de agosto, com esse discurso de paz, afirmando que “não há que se politizar o que não deve ser politizado”. No seu relato da reunião, Piana afirmou que “acompanhou” o encontro e não que participou da videoconferência. O vice-governador foi, praticamente, um ouvinte do fórum em que os governadores discutiram a crise institucional, debateram a “defesa da democracia” e decidiram convocar reuniões com Jair Bolsonaro, com o Supremo Tribunal Federal e com os presidentes da Câmara e do Senado.

Darci Piana representou o Paraná no encontro, que reuniu 22 governadores e três vices, porque o governador Carlos Massa Ratinho Junior optou por não participar. Apesar de o Fórum já estar previamente agendado, Ratinho Junior alegou conflitos de agenda para evitar a reunião. Enquanto os governadores debatiam a crise política do país, ele participava de ato de liberação de empreendimentos do Programa Casa Fácil, o programa habitacional do Governo do Paraná. Diante da pauta polêmica e, claramente, conflituosa com o governo federal, o governador optou por não participar do encontro, ao mesmo tempo em que não desprestigiou por completo seus colegas, enviando o vice.

Na bastante tensionada relação entre o presidente da República e os governadores, não se posicionar tem sido a escolha de Ratinho Junior. Foi assim no início da discussão de estratégias de enfrentamento à pandemia da Covid-19, quando Bolsonaro criticou duramente as medidas de restrição de circulação adotadas pelos governos estaduais e quando os governadores cobraram publicamente o governo federal acerca da demora na compra de vacinas. Foi assim até quando o presidente da República ingressou no Supremo Tribunal Federal contra o decreto de Ratinho Junior que instituiu toque de recolher no estado no período mais crítico de circulação do coronavírus no Paraná. Na recente discussão sobre o preço dos combustíveis, em que Bolsonaro vem culpando o ICMS cobrado nos estados pela elevação dos preços nas bombas, Ratinho Junior também evitou o debate.

As únicas vezes em que o governador do Paraná se uniu aos demais governadores na discussão com o Governo Federal foi para assinar carta questionando dados divulgados por Bolsonaro sobre repasses da União aos estados (quando o presidente fez entender que todos os repasses federais, inclusive as obrigações constitucionais, tratavam-se de auxílio aos estados) e para defender a manutenção do auxílio emergencial de R$ 600 para a população que perdeu renda com a pandemia.

Um dos governadores mais próximos ao presidente Jair Bolsonaro, Ratinho Junior colhe frutos desta sua neutralidade. O Paraná é um dos estados que mais tem recebido investimentos federais. Itaipu Binacional, de gestão da União, bancou a reforma do aeroporto de Foz do Iguaçu e está custeando a construção da segunda ponte ao Paraguai. Em uma visita ao presidente, conseguiu convencê-lo a determinar ao Ministério da Infraestrutura que abrisse mão do modelo de concessões rodoviárias que adotou no país todo para incorporar a proposta do Paraná para o novo pedágio no estado. Ao mesmo tempo, não abriu mão de suas medidas restritivas no enfrentamento à pandemia, apesar das críticas e da ação judicial do presidente, assim como recebeu o governador de São Paulo, João Doria, principal rival do presidente entre os governadores, e negociou a compra direta de doses de vacina produzidas no estado vizinho. No cenário de polarização política que o país atravessa, não se posicionar é uma posição.

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