Arte

Conheça a história da premiada obra “Água pro morro”, de Erbo Stenzel

Yuri Casari, especial para a Pinó
05/12/2023 12:18
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Escultura Água pro Morro de Erbo Stenzel, localizada no meio de uma fonte d’água na Praça Borges de Macedo.

Erbo Stenzel é um dos grandes nomes da arte do estado do Paraná. Bebendo na fonte de artistas como Lange de Morretes e João Turin (ambos já homenageados nas páginas de Pinó), Stenzel fez sua formação na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, onde viveu por cerca de uma década. Em sua volta à Curitiba, após a morte de Turin, montou um ateliê na Rua Nilo Peçanha e seguiu produzindo bustos e estátuas diversas, muitas delas espalhadas pelas ruas da capital. Uma de suas obras mais conhecidas está na Praça 19 de Dezembro, o mural de granito que conta parte da história do Paraná, feito em parceria com o carioca Humberto Cozzo. O “Homem nu”, símbolo daquele logradouro, também é muitas vezes creditado a Stenzel, embora ele mesmo tenha rechaçado a autoria em outras ocasiões.
Premiado no Salão Nacional de Belas Artes pela escultura, Erbo Stenzel se inspirou em Anita Cardoso Neves, com quem teve um romance na década de 1940.
Premiado no Salão Nacional de Belas Artes pela escultura, Erbo Stenzel se inspirou em Anita Cardoso Neves, com quem teve um romance na década de 1940.
Entre as muitas peças públicas e fundidas a bronze do escultor está uma obra de suma importância em sua carreira e que diariamente é observada por milhares de curitibanos: a escultura “Água pro morro”. Localizada no meio de uma fonte d’água na Praça Borges de Macedo, de frente para o Mercado das Flores e de costas para o Paço Municipal, a obra original foi esculpida em 1944, período em que o curitibano encontrava-se em terras cariocas. A peça que está na praça é uma reprodução, instalada no local em 1996, como parte do projeto “Cores da Cidade”, que na época buscou revitalizar a região. Também existe outra reprodução da mesma obra no Jardim das Esculturas, no Museu Oscar Niemeyer.
A imagem representa uma mulher negra, de pés descalços, com a perna esquerda à frente, dando movimento à estática obra. No alto de sua cabeça, adornada por um turbante, a moça carrega uma lata e, com a mão direita flexionada para cima, busca o equilíbrio para seguir sua caminhada. Como o nome indica, ela está levando água morro acima. Com a mão esquerda, segura levemente seu vestido. A escultura impressiona por seu realismo, detalhes e texturas. Um aspecto de particular relevância é que esta peça valeu para Stenzel uma medalha de prata durante o 50º Salão Nacional de Belas Artes, em 1944.
O conceito por trás da peça esconde diferentes interpretações. Há quem possa dizer que era apenas uma reprodução de alguma cena cotidiana do Rio de Janeiro dos anos 1940. Outros podem entender como um pedido, de que a água, uma alegoria para a liberdade, também deveria ser levada ao morro. Enfim, simbolismos à parte, uma coisa é certa. A musa inspiradora para aquela escultura foi a carioca Emerenciana Cardoso Neves, ou simplesmente Anita.

O romance e o esquecimento

A obra de autoria de Erbo Stenzel está presente em dois locais de Curitiba. À esquerda, a obra na Praça Borges de Macedo; à direita, a obra no Jardim das Esculturas do Museu Oscar Niemeyer.
A obra de autoria de Erbo Stenzel está presente em dois locais de Curitiba. À esquerda, a obra na Praça Borges de Macedo; à direita, a obra no Jardim das Esculturas do Museu Oscar Niemeyer.
Em seu período na Escola Nacional de Belas Artes, Stenzel conheceu Emerenciana, que adotava o nome artístico de Anita. Quando foi objeto da arte de Stenzel, Anita já trabalhava na entidade. Há registros de que atuava como auxiliar de disciplina desde 1941, função que exerceu por mais de duas décadas. Artista multidisciplinar, estudou desenho, compôs enredos de escola de samba e se tornou uma escultora. Participou de várias edições do Salão Nacional de Belas Artes, como em 1970, quando apresentou a escultura “Mestiça”, da qual pouco se tem registro. O programa oficial do evento pontua que ela foi laureada com “menção honrosa”, mas outras fontes indicam que Anita teria recebido medalha de bronze na ocasião.
Naquela década de 1940, os dois tiveram um romance. Não se sabe exatamente a extensão dessa relação, mas a paixão entre os dois perdurou mesmo após o retorno do artista paranaense à sua terra natal. Segundo a pesquisadora Didonet Thomaz, eles trocavam correspondências “picantes”. De qualquer forma, a vida dos dois seguiu caminhos opostos. Stenzel se manteve como um dos nomes mais celebrados da arte paranaense até falecer em 1980, enquanto Anita, embora de participação relevante na arte carioca e brasileira, tem pouco de sua história conhecida.
As informações sobre sua vida são esparsas. Recentemente, uma pesquisa da artista plástica mineira radicada em Curitiba, Eliana Brasil, deu novos subsídios para aqueles que queriam saber quem estava representada em “Água pro morro”. A história reverberou e gerou um movimento para que a obra receba a devida identificação de nome, autoria e contexto, dando à Anita o reconhecimento necessário, ainda que tardio. Atualmente, tramita na Câmara Municipal de Curitiba um Projeto de Lei, para que a fonte receba a denominação de Emerenciana Cardoso Neves. A proposta foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Casa em maio deste ano, mas ainda não foi levada à votação.