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Panorama de Ponta Grossa, como eu via da janela de casa.
Panorama de Ponta Grossa, como eu via da janela de casa.| Foto: Acervo Paulo José da Costa


Corria o ano de 1960. Eu era um piazote quando minha família se mudou para a rua Fernandes Pinheiro, a rua da estação ferroviária, em Ponta Grossa. Na mudança eu levei a coleção de gibis, meus selos e um saco de brinquedos de guerra com que passava horas brincando em batalhas que eu mesmo criava em cima da cama. Usava pecinhas de jogos de ludo, com chapeuzinhos coloridos feitos com tampas de pastas de dente, cada exército com uma cor.

Passamos a morar no predinho de número 190 da rua, em cima do bar do Martins. A gente subia por uma escada que dava numa área comum com as portas para dois apartamentos. O nosso era o da frente para a rua, com quatro janelas amplas que se abriam para a praça e o pátio da estação.

Vista da praça da estação em Ponta Grossa, anos 1960.
Vista da praça da estação em Ponta Grossa, anos 1960.| Acervo Paulo José da Costa

Imaginem o deslumbre para aqueles olhos de criança! Das janelas daquele primeiro andar eu passei a admirar o bulício da região, o vai e vem dos autos de praça e passageiros, o pátio de manobras, o engate e o desengate das composições. E meus olhos subiam pela colina da cidade até chegar lá no alto, onde estava a simples, mas majestosa catedral, em estilo próximo ao românico, demolida sem nenhum respeito nos anos 1970 para dar lugar a alguma coisa sem alma e sem tradição, algo kitsch com ares de pavão.

Meus olhos de menino curioso começaram a vasculhar distâncias e grudaram na imagem daquela enorme locomotiva no pátio da ferrovia. Foi mágico, uma paixão imediata pelo monstro de ferro que expelia vapores em meio a sons incríveis. Era um intenso caldeirão de sons e eu ali, na janela, a tudo observar, ávido. Da janela para o espaço da praça enorme foi questão de dias. Minha mãe, sempre vigilante, viu que a praça era segura, havia um guardião, e eu logo me juntei a outros garotos das vizinhanças, a turma da rua da estação.

Praça de Ponta Grossa, anos 1960
A linda catedral, única no seu estilo, demolida nos anos 1970.| Acervo Paulo José da Costa

A praça! Os joguinhos de guerra da cama de eu-criança seriam agora realizados ao vivo em frente de casa, os buchinhos e o monumento sendo o forte e o castelo a serem conquistados. Agora, o guri lutaria como um Robin Hood, um índio comanche ou tarzan ou soldado da segunda guerra.

Os personagens dos seriados dos cinemas saltariam das telas para o gramado e eu seria o herói. Eu adorava encenar quedas de cima do monumento, dramaticamente, rolando pela grama e ficando imóvel. Eu juro, fazia aquilo até em câmara-lenta, sorvendo cada segundo. O cinema, num passe de mágica virava realidade em batalhas onde o cenário, os uniformes, os enredos, surgiam do nada, num átimo, frutos de nossas mentes, viajantes pelos mundos da imaginação. Os transeuntes chegavam a parar para assistir nossas pelejas.

Lá pelas quatro horas da tarde era chegada a hora do “trene”, numa área adiante da praça, bem em frente à estação. Anos depois, algum prefeito mandou construir um campo de esportes, cercado com grades, com horários e um guardador, tudo certinho, mas naqueles bons tempos bastavam duas pedras para um gol, um par ou ímpar para a escolha dos jogadores e, lógico, a bola.

Ponta Grossa, em 1960
Área em frente à estação, onde fazíamos as peladas.| Acervo Paulo José da Costa

Geralmente quem era dono da bola mandava no jogo, era o primeiro a selecionar o melhor pro time. E como eu era “ruim” ficava quase sempre por último na seleção e ganhava como prêmio o ingrato cargo de goleiro. Ser goleiro era castigo, bom mesmo era driblar, marcar e vibrar. E toma “fissaide” para cá e “corner” para lá, sem falar nos palavrões, onde “tongo” rivalizava com os “lazarento” ou “filho da puta”. E o vocabulário se enriquecia.

Não havia árbitro, lógico, todos éramos juízes, e quando não havia consenso com uma marcação, a decisão era no grito. Quem berrava mais alto fazia valer a regra… E para mim tudo terminava quando mamãe, pontualmente às seis, gritava da janela – Paulinhooooooo! E era hora de subir ou o chinelo cantava. Um bom banho, o jantar e dormir para ir no dia seguinte às sete da matina para o Ginásio Regente Feijó.

Alguns da turma da estação, 1960. Eu, com o cachorrinho Quimo.
Alguns da turma da estação, 1960. Eu, com o cachorrinho Quimo.| Acervo Paulo José da Costa

Eu fui realmente um privilegiado. Agradeço aos meus guias espirituais e à deusa Fortuna por terem me jogado aos dez anos de idade naquela praça em frente à estação ferroviária Roxo de Rodrigues, em Ponta Grossa. Hoje, simplesmente “Estação Saudade”. Passei de menino mimado a moleque. Eu e os amigos que fiz, uns 10 ou 12 sortudos como eu, tendo como ponto de partida a praça, fomos descobrir a cidade. Nada iria nos deter… Eu, o Hélio Abreu, o Cláudio Rugillo, o Martins, o Betinho, o Johnny Saad, o William Targa, o Omar Razouk, o João Alfredo, o João Santana Júnior, o Nelson Sokolowski, entre outros… Nem todos eram dados a aventuras, mas alguns foram realmente exploradores da gema.

Duas crianças em Ponta Grossa
Eu e meu irmão Mário Sérgio, em frente de casa, com a estação e a praça ao fundo, 1963.| Acervo Paulo José da Costa

Conquistada a praça, o próximo passo foi naturalmente a estação ferroviária. Nossas mães nem sonhavam que os filhos andavam pelos trilhos, driblando os funcionários da RVPSC. Como crianças não eram admitidas, por motivos óbvios, pulávamos os altos muros ou simplesmente dávamos um jeito de penetrar pelas diversas entradas. Uma vez lá dentro, era um explorar de vagões, andar a esmo pelos trilhos, chutar pedrinhas, observar os trabalhos dos ferroviários, ver as máquinas se aproximando e engatando nos vagões. A gente passeava entre eles e, às vezes, pulávamos de um lado para o outro pelo engate. E, quando uma locomotiva batia no comboio lá na frente, escutávamos o barulho característico dos acoplamentos sucessivos um a um, até chegar no nosso vagão. Os corações batiam mais forte em crescendo emocionante. Eu sempre fui mais prudente (ou medroso?) e nunca subi em nenhum em movimento e nem passei por debaixo deles. A coragem tinha um certo limite. Conto mais na próxima.

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