• Carregando...
Ao transitar nas proximidades da Estação Central, os curitibanos passaram a se deparar com o olhar atento e singular do poeta Paulo Leminski.
Ao transitar nas proximidades da Estação Central, os curitibanos passaram a se deparar com o olhar atento e singular do poeta Paulo Leminski.| Foto: Leo Flores/Divulgação

Em meio a um dos pontos mais caóticos e simbólicos de Curitiba, um olhar sério, compenetrado, permanece na direção dos milhares de curitibanos que transitam entre o prédio histórico da Universidade Federal do Paraná, o tubo da Estação Central e o calçadão da XV de Novembro. Na parede de quase 70 metros de altura de um edifício localizado na esquina entre a Avenida Marechal Deodoro e a Travessa da Lapa, agora surge o rosto familiar para qualquer nativo, caracterizado pelo marcante bigode. O vigilante poeta é Paulo Leminski, bandeira da cultura paranaense.

Leminski já recebeu muitas homenagens. Seja como referência de obras posteriores, como tema de exposições, debates, pesquisas, feiras literárias e, até mesmo, como nome da pedreira que virou cartão postal da capital. O desenho monumental de mil metros quadrados, talvez, seja a homenagem que faltava ao escritor que vivia Curitiba como se fizesse parte do mobiliário urbano ou como se fosse um dos muitos ipês da cidade, com suas raízes fincadas entre as pedras portuguesas do calçamento de petit-pavé.

A capital era uma das inspirações do poeta, que nunca escondeu a relação extremamente afetiva que tinha com a cidade. Com seu estilo transgressor, inovador e ao mesmo tempo elegante, produziu algumas das principais obras da literatura paranaense. Reconhecido como um dos grandes poetas brasileiros do século XX, Leminski também era compositor e é autor de canções gravadas por cantores como Caetano Veloso, Ney Matogrosso e Ângela Maria. Essa coisa do Leminski de ser como ele realmente era, o levou além, de fato.

Da rua pro mundo

Quem assina o mural é Fernando Ferlin, ou melhor, Gardpam, como é mais conhecido – junção de seu apelido, Gardenal, com Pamela, nome de sua esposa. Foi junto dela que iniciou a carreira como artista de rua há aproximadamente 10 anos. “A arte entrou mais forte na minha vida depois de adulto, já tinha filho, era casado, e resolvi começar a pintar com minha esposa para ter algo para fazer nos horários livres. Então, a gente começou a pintar nas paredes a convite de um amigo nosso que já pintava”, relembra o artista.

Morador de Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, Gardpam já deixou sua marca em todo o Brasil e em outras nações. “Tenho grafites por 24 países e sou o primeiro grafiteiro a pintar em todos os estados brasileiros. Em todos os estados eu tenho pelo menos uma pintura”, conta.

Gardpam mal encerrou o atual projeto e já traça metas. Entre seus próximos objetivos está a intenção de pintar mais empenas, as fachadas laterais de grandes edifícios. O artista executou obras similares em prédios em São Paulo, Manaus, Florianópolis e Cascavel. “Em Curitiba é minha primeira empena, e espero que seja a primeira de muitas”, afirma. Mas esse não é o objetivo mais ambicioso de Gardpam. “Almejo pintar em todos os países do mundo”, revela.

Mural de Leminski
O painel que retrata Leminski no centro de Curitiba| Leo Flores/Divulgação

Desafios e inspirações

A peça que reverencia Paulo Leminski era apenas uma parte de uma grande ideia que circulava na mente de Gardpam. Há três anos, o artista colocou no papel um projeto de três empenas. Além do escritor curitibano, ele pretendia homenagear a escritora Helena Kolody e o muralista Poty Lazarotto. “Para mim são alguns dos principais representantes da cultura aqui do Paraná. Claro que tem muitos outros que eu gostaria de homenagear, mas resolvi começar por eles”, explica.

Gardpam queria uma obra que se tornasse referência na cidade e, acima de tudo, uma forma das pessoas se conectarem e se identificarem ainda mais com a cultura local. “A ideia era fomentar a cultura e a arte aqui na cidade, porque o grafite é muito repreendido em Curitiba. E também lembrar dos grandes artistas que já tivemos e que temos, para as pessoas terem uma arte para chamar de ‘nossa’. Esse é o nosso painel, do nosso Paulo Leminski”, detalha.

De início, o artista tentou fazer parte de um projeto de mecenato, mas não conseguiu passar. Em seguida, por conta própria, buscou os recursos para a execução e recebeu doações, dando início à pintura no início do ano passado. Porém, a obra foi embargada por falta de alvará. Ainda em fevereiro de 2022, Gardpam deu entrada no pedido junto à Prefeitura, que liberou a continuidade  apenas em fevereiro deste ano.

Além das questões burocráticas, o artista também enfrentou o desafio na busca por recursos. Além de doação de tintas, Gardpam recebeu apoio de amigos próximos, de empresas que doaram recursos e materiais, e até mesmo dos muitos curitibanos que, encantados com o que viam, deram suas contribuições.

Presente de aniversário

Os últimos traços do desenho que agora abrilhantam a parede lateral do edifício foram feitos justamente no dia 29 de março, que por uma feliz coincidência, é não apenas aniversário de Curitiba, mas também da mãe do grafiteiro. Para Gardpam, a situação caiu como uma luva para o mural que produziu.

“É um presentão mesmo para a cidade. A população abraçou a obra, estão tirando muitas fotos, me dando muito retorno. E eu realmente esperava isso, esse acolhimento pela população. Toda hora alguém tira uma foto, me marca, manda para mim. Quando estou lá embaixo as pessoas querem tirar foto comigo. Está todo mundo muito feliz e isso me deixou muito feliz também”, encerra.

0 COMENTÁRIO(S)
Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]