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O casal de Curitiba Julio e Silvia partiram em dezembro a bordo de um motorhome para uma viagem de volta ao mundo que irá durar cinco anos.
O casal de Curitiba Julio e Silvia partiram em dezembro a bordo de um motorhome para uma viagem de volta ao mundo que irá durar cinco anos.| Foto: Arquivo pessoal

De camiseta azul escura, Julio Botto, 70, ajusta o headset enquanto a conexão em vídeo e áudio se estabiliza. “Estamos sem wi-fi neste camping, então estou no 4G”, explica. Atrás dele aparecem dois bonés pendurados e uma cabine de motorista com dois bancos claros e largos. Julio conversa com a reportagem da Pinó a bordo de seu motorhome, estacionado no parque municipal San Martín, na cidade argentina de Córdoba, enquanto sua esposa, Silvia, 57, descansa na confortável cama na “popa” do veículo.

Em março, o casal entrou no terceiro mês de viagem, um projeto ambicioso e cuidadosamente planejado e detalhado no portal Vivendo 5 Continentes. O site é atualizado quase diariamente por Julio, um engenheiro aposentado que sempre gostou de viajar sobre duas rodas. Com seu grupo de amigos, ele já foi, entre tantos outros, ao Ushuaia e ao Alaska, dois destinos que agora ele faz acompanhado por Silvia sobre seis rodas. Em meados de janeiro, o casal chegou ao seu primeiro “macro-destino”, o ponto no extremo-sul do continente americano. O próximo é o Alasca. “A verdadeira viagem acontece no caminho. De motocicleta você quer chegar, então faz 600 quilômetros por dia, se preciso. De motorhome você curte as paradas, decide ficar mais um dia, ajusta os planos”, compara Julio.

A aventura começou no dia 2 de dezembro, quando o casal paranaense saiu de Curitiba a bordo da Zimiguilí, um motorhome de quase oito metros de comprimento, cuja carroceria está plotada com a logomarca e QR code do site Vivendo 5 Continentes. O portal reúne diário de bordo, registros fotográficos, acompanhamento do deslocamento, roteiros (previsto e realizado), além de reportagens e entrevistas dadas pelo casal desde a partida. “Somos adultos maduros, vivendo a melhor fase de nossas vidas”, lê-se no site.

Silvia e Julio estão juntos há 26 anos, e sempre gostaram de planejar suas viagens a quatro mãos. Mas foi em abril de 2020, no início da pandemia, que tiveram a ideia de fazer isto motorizados. “Tem muita gente dando a volta ao mundo. Alguns de avião, outros de carro. Mas até agora não conheci ninguém que esteja de motorhome e fazendo isso com a nossa idade”, avalia.

O motorhome de quase 8 metros tem cozinha interna e externa, quarto onde dorme o casal, banheiro com chuveiro e um segundo quarto, chamado de sala de jogos pelos viajantes.
O motorhome de quase 8 metros tem cozinha interna e externa, quarto onde dorme o casal, banheiro com chuveiro e um segundo quarto, chamado de sala de jogos pelos viajantes.| Arquivo pessoal

E talvez nem com a mesma dedicação. Até a partida, a rotina da casa (a física, no bairro Santo Inácio, em Curitiba) era assistir a duas horas diárias de vídeos no Youtube sobre motorhome, da manutenção a relatos de viagem. Estudaram suas reservas econômicas, sua renda de aluguel e seus valores de aposentadoria, para poderem projetar a soma que terão disponível por mês até o final da viagem.

O objetivo é viajar por cinco anos e conhecer entre 100 e 110 países, ausentando-se do motorhome apenas nas travessias aquáticas – balsas e navios levam o veículo enquanto o casal se desloca de avião e pernoita em hotéis. Ao final, estimam que terão rodado 300 mil quilômetros.

Para montar o veículo, pesquisaram minuciosamente dez montadoras. Decidiram-se pela Neway MotorHomes, de Novo Hamburgo (RS), que fez o projeto do zero, em uma cabine de alumínio que levou três meses para ser fabricada pela Mercedes-Benz. “Listamos uma série de especificidades que gostaríamos de ter. Uma delas foi um box confortável para tomar banho, e temos um chuveiro tão bom quanto o da nossa casa”, comenta.

Foi um longo ano até poderem pisar dentro do motorhome – onde, aliás, só se entra descalço. “Até na aduana e alfândega peço que tirem os sapatos antes de entrar aqui em casa”, diz. Em geral, os agentes respeitam a idiossincrasia.

O motorhome ficou pronto em outubro de 2021, e contém uma cozinha interna e externa, equipada com uma geladeira, pia com torneiras para água quente e fria, fogão de duas bocas, forno de convecção e micro-ondas. Aos fundos, o quarto do casal. Acima da cabine de direção, um segundo quarto, chamado jocosamente de sala de jogos. "É ali que jogamos tudo”, diverte-se Julio. A casa rodante conta ainda com máquina de lavar roupas e uma caixa d’água de 250 litros. Como tudo no projeto Vivendo 5 Continentes, há uma minúcia. Apenas uma das tomadas é 110V – a da cafeteira elétrica para preparar pelo menos um espresso por dia, o combustível dos viajantes.

Para testar a casa sobre rodas, fizeram uma viagem teste pelo Paraná e Santa Catarina. “Quebramos todas as taças, copos e pratos na primeira estrada com buracos”, relembra Julio, rindo. “Aí fomos até Campo Largo repor o que precisava e ajustar o acondicionamento da louça dentro dos armários. Agora tem porta-louça, porta-prato. Nada mais quebra”. Do lado de fora, a maior adversidade não promoveu nenhuma ruptura: uma rajada de vento na serra do Parque Nacional Quebrada del Condorito, na Argentina, a 2.200 metros de altitude. “Tive que reduzir a velocidade para 45 quilômetros para não escorregar na pista”, relembrou.

Não é como se o motorhome fosse leve. Muito menos pequeno. Mas os ventos potentes da serra argentina facilmente ultrapassam os 30 quilômetros por hora e há períodos em que o clima é tão desfavorável que as autoridades desaconselham que se tome a estrada. Nesses casos, os viajantes se sentem confortáveis para passar mais um dia na cidade em que estiverem. “As pessoas de cidades pequenas ficam muito curiosas quando nos veem chegando”, diz Julio. Também pudera: só de comprimento, a Zimiguilí tem 7,8 metros, e 3,3 metros de altura. É impossível que passem despercebidos. “Quando estacionamos na praça, batem na porta e oferecem suas casas para a gente ficar. Oferecem comida, internet, energia elétrica. Até agora só nos surpreendemos positivamente com a receptividade das pessoas”, diz, referindo-se aos argentinos.

O motorhome ficou pronto em outubro de 2021, pois a cabine de alumínio levou três meses para ser fabricada pela Mercedes-Benz.
O motorhome ficou pronto em outubro de 2021, pois a cabine de alumínio levou três meses para ser fabricada pela Mercedes-Benz.| Arquivo pessoal

O casal ainda está no primeiro da centena de países que vai visitar. Capitais e grandes cidades não são prioridades para o casal, que gosta de ver belezas naturais, de comer bem e de tranquilidade. Da América Latina, o casal não visitará apenas cinco países. Do outro lado do Atlântico, pequenos lugares como a ilha de Malta e Estônia constam no roteiro, bem como as gigantes Irã e Turcomenistão. A ordem e o itinerário sempre podem mudar, exceto uma questão: voltar a cada 18 meses ao Brasil para fazer um checkup médico. Durante todo esse período, um segundo objetivo está latente em Julio: “Se eu conseguir fazer com que um casal maduro se sinta encorajado a viajar, a fazer algo novo, a sair de casa… eu me darei por satisfeito”, finaliza.

Serviço
Portal Vivendo 5 Continentes, por Silvia e Julio Botto.
www.vivendo5continentes.com.br
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