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A trajetória do artista Tiomkim passa pelo rádio e pelo audiovisual.
| Foto: Felipe de Lima Mayerle

O multiartista gaúcho Tiomkim está com pressa. Aos 68 anos, voltou à ativa depois de uma parada forçada, para tratar insuficiência renal. Avisa que tem de gravar o programa de rádio “Cinemaskope”, pela Educativa FM. O tema é a atriz e cantora Rhonda Fleming, morta em outubro passado, aos 97. Aproveita a deixa para contar que a “rainha do technicolor” esteve em Jacarezinho, no Norte do Paraná, em 1963. Coisa e tal, ajeita a máscara e se prepara para a bateria de perguntas. O assunto, afinal, é Tiomkim.

Ainda que circule no meio cultural curitibano há quase 40 anos, Tiom não costuma ocupar o centro da cena. É figura de bastidores, nos quais exerce múltiplas funções – de videomaker a produtor, de arquivista a colecionador. Onipresente, onipotente e onisciente, a cidade lhe devia um retrato, vácuo que o cineasta Estevan Silvera se dispôs a ocupar. Ano que vem fica pronto o documentário Toda uma vida: as memórias de Tiomkim.

O título promete o que não pode cumprir. Toda uma vida... será uma demão de tinta na história de um sujeito “salvo pela arte”. O clichê nada tem de conversa fiada. “Estou descobrindo um Tiom que não conhecia”, confidencia o cineasta, que convive com o personagem há 30 anos e realizou com ele seu primeiro sucesso – Rainha de Papel, sobre a artesã Efigênia. Riem juntos do episódio. “Eu não queria fazer. Tinha de levantar de madrugada para encontrá-la na Feira do Largo da Ordem”. É o único momento em que Tiom admite que dorme.

Ao ouvir suas recordações, dá para supor as sombras dessa caverna. Osval Dias de Siqueira Filho – seu nome de pia – teve como pai um oficial da Marinha, músico de big band, aficionado por cinema. Se não podia levar o rebento a uma sessão, contava-lhe os estranhos códigos que uniam Rock Hudson e Doris Day. Era o bastante para atiçar as lombrigas de ambos. Até que uma tragédia amorosa rachou todos os cristais. Viu-se virado do avesso, entregue às ruas e aos malditos – uma nau de desesperados que desembarcaria nos seus vídeos, tempos depois.

No início dos anos 1980, um Osval Filho cansado de guerra chega a Curitiba, disposto a colar os pedaços. Foi quando conheceu aqueles que chama de homens da sua vida. O primeiro, como quem chega do nada, foi o cineasta Fernando Severo – com o qual descobriu que podia fazer o que quisesse com uma câmera na mão. O segundo, o jornalista Aramis Millarch, que à revelia da fama de galo de briga, fez-se amigo e o levou para o Museu da Imagem e do Som. O terceiro – o enfant terrible Edílson Viriato, artista cuja ferocidade se pôs a documentar.

A essa altura, Osval decidiu se autoproclamar “Tiomkim”, uma invencionice de mestre. O nome é à prova de equívocos. Todos sabem de quem se trata. Poucos se lembram do assustado Osval; e quase ninguém atina de que durante um tempo ele adotou um outro heterônimo, Linda May – uma comentarista travestida, saída da Era do Rádio. A starlet escrevia no jornal Impacto. Saracoteou por pelo menos dois curtas e promete ser uma das sequências mais divertidas de Toda uma vida... “O Dalton Trevisan lia minha coluna”, diz, no ouvido.

Linda May teve vida curta, mas ocupa uma posição estratégica nessa biografia. É por meio dela que o entrevistado se livra do rótulo de faz-tudo e se revela hábil na performance, no humor – além de um voyeur dedicado. De longe, Tiom tudo vê. Na pele de Linda, conta o que enxerga. “Ela é marginal”, resume Estevan, sobre a maluquete raffinée saída da mente de alguém que ama divas como Rhonda Fleming.

A propósito, a produção visual de Linda May era assinada pelo vizinho do andar de cima de Tiom – ninguém menos do que o carnavalesco Ney Souzah. Diz muito. Depois da solidão de Porto Alegre, Osval nunca mais ficou sozinho. Sua vida foi sempre “ele e os outros”. Essa bem que podia ser a tradução do nome “Tiomkim”.

JOSÉ CARLOS FERNANDES é jornalista e professor universitário. Pesquisa a vida extraordinária de pessoas e lugares comuns.

jcfernandes@gazetadopovo.com.br

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