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| Foto: Marcos Corrêa/PR/Marcos Corrêa/PR

O site Terça Livre, que reúne ativistas conservadores e simpatizantes de Jair Bolsonaro, publicou na tarde de domingo (10), um texto que falsamente atribui à repórter do jornal O Estado de S. Paulo Constança Rezende a declaração “a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”, ao tratar da cobertura jornalística das movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz, ex-motorista do senador e filho do presidente.

Com base nas falsas informações publicadas pelo Terça Livre, grupos governistas promoveram no Twitter uma série de postagens nas quais acusam o Estado de “mentir” na cobertura do caso Flávio Bolsonaro.

Às 20h51min, o próprio presidente Jair Bolsonaro insuflou seus seguidores contra a imprensa ao publicar o seguinte texto no Twitter:

A suposta declaração de Constança Rezende, que aparece entre aspas no título do texto do Terça Livre, teria sido dada, segundo “denúncia” de um jornalista francês, em uma conversa gravada. Na gravação do diálogo, porém, Constança não fala em “intenção” de arruinar o governo ou o presidente.

Distorção

A conversa, em inglês, tem frases truncadas e com pausas. Apenas trechos selecionados foram divulgados. Em determinado momento, a repórter avalia que “o caso pode comprometer” e “está arruinando Bolsonaro”, mas não relaciona seu trabalho a nenhuma intenção nesse sentido.

O Terça Livre, com base na “denúncia” de Jawad Rhalib, que se apresenta como jornalista francês, também falsamente atribui à repórter a publicação da primeira reportagem sobre as investigações do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sobre a movimentação atípica de R$ 1,2 milhão nas contas de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro. O autor da primeira reportagem foi Fabio Serapião, também do Estado.

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“Desde que Constança iniciou a temporada de caça aos Bolsonaro no ‘Estadão’, emissoras como a Rede Globo e jornais como Folha de São Paulo seguiram o mesmo caminho”, diz o texto do Terça Livre. “Uma enxurrada de acusações em horário nobre, capas de revistas e nas primeiras páginas de jornais colocaram a integridade moral do filho do presidente em xeque.”

Estudante. No Twitter, o editor do Terça Livre, Allan dos Santos, acusou a jornalista do Estado de “confessar” a intenção de prejudicar o filho de Bolsonaro e o governo.

Constança Rezende não deu entrevista nem dialogou com o jornalista francês citado pelo Terça Livre. As frases da gravação foram retiradas de uma conversa que ela teve em 23 de janeiro com uma pessoa que se apresentou como Alex MacAllister, suposto estudante interessado em fazer um estudo comparativo entre os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Segundo o Estado, as informações reveladas pelo jornal sobre o caso Queiroz se baseiam em fatos e documentos oficiais. O Ministério Público do Rio de Janeiro investiga se o ex-motorista de Flávio Bolsonaro recebeu indevidamente depósitos de funcionários da Assembleia Legislativa do Rio.

OAB e Associação de Jornalismo Investigativo repudiam atitude de Bolsonaro

Nesta segunda-feira (11), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) emitiram nota conjunta em que afirmam que Bolsonaro mostra “descompromisso com a veracidade dos fatos” e usa “de sua posição de poder para tentar intimidar veículos de mídia e jornalistas”.

Leia a íntegra da nota:

“Na noite de domingo, o presidente Jair Bolsonaro fez um novo ataque público à imprensa, desta vez valendo-se de informações falsas. Isso mostra não apenas descompromisso com a veracidade dos fatos, o que em si já seria grave, mas também o uso de sua posição de poder para tentar intimidar veículos de mídia e jornalistas, uma atitude incompatível com seu discurso de defesa da liberdade de expressão. Quando um governante mobiliza parte significativa da população para agredir jornalistas e veículos, abala um dos pilares da democracia, a existência de uma imprensa livre e crítica.

A onda de ataques no domingo começou antes da manifestação do presidente. Grupos que apoiam Bolsonaro difundiram e amplificaram nas redes sociais declarações distorcidas da repórter Constança Rezende, de O Estado de S.Paulo, para alimentar a narrativa governista de que a imprensa mente quando se refere às investigações sobre as movimentações financeiras atípicas de Fabrício Queiroz, ex-motorista do senador Flávio Bolsonaro. Como é comum nesse tipo de ataque, a família de Constança também virou alvo. O grave nesse episódio é que o próprio presidente instigou esse comportamento, ao citar como indício de suposta conspiração que Constança é filha de um jornalista de O Globo.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) se unem neste momento no repúdio a qualquer tentativa de intimidação de jornalistas. Profissionais atacados por fazer seu trabalho terão sempre nosso apoio”.

Diretoria da Abraji

Felipe Santa Cruz - presidente do Conselho Federal da OAB

Pierpaolo Cruz Bottini - coordenador do Observatório de Liberdade de Imprensa do Conselho Federal da OAB”

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