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Oposição sem PT: partidos isolam petistas e buscam hegemonia na esquerda

Desde sua fundação, partido de Lula é principal força da esquerda nacional. Derrota para Bolsonaro e movimentos de outras siglas apontam possibilidade de novos rumos

  • Brasília
  • Olavo Soares
 | THIAGO GADELHA/AFP
THIAGO GADELHA/AFP
 
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O PT chegou ao segundo turno da eleição presidencial, formou a maior bancada da Câmara dos Deputados e elegeu quatro governadores em 2018. No entanto, o prestígio do partido saiu arranhado da disputa eleitoral - e não apenas entre os que já atacavam a legenda, mas também entre membros da esquerda. O presidenciável Ciro Gomes (PDT) e seu irmão, o senador eleito Cid Gomes (PDT-CE), estiveram entre os maiores críticos do partido. A frase “o Lula tá preso, babaca!”, dita por Cid às vésperas do segundo turno, entrou sem escalas para o folclore da política nacional.

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A contestação ao PT dentro da própria esquerda viveu um episódio importante no final do ano passado, quando PDT, PSB e PCdoB anunciaram a criação de um bloco na Câmara para que seus deputados atuassem em conjunto a partir de 2019, na oposição ao governo de Jair Bolsonaro. A exclusão do PT do grupo não foi obra do acaso - o entendimento de algumas lideranças das três legendas era de que a sigla do ex-presidente Lula não sabe trabalhar em conjunto e se esforça para sempre estar com o protagonismo das ações.

O cientista político David Fleischer, professor da Universidade de Brasília (UnB), acredita que o bloco nasce com o objetivo de fortalecer o projeto presidencial de Ciro Gomes para 2022, já anunciado pelo PDT. “O Ciro é o mestre disso daí [bloco entre os partidos]. Ele tem uma mágoa muito grande com o PT. E, agora, quer assumir a liderança da oposição”, disse.

Por conta dessa busca pelo protagonismo na contestação a Bolsonaro, Fleischer considera a movimentação atual a maior ameaça que o PT já sofreu por parte da esquerda desde a fundação do partido. “Os partidos [do bloco] vão se esforçar para atraírem todos os outros possíveis líderes de oposição a Bolsonaro, e sem incluir o PT”, apontou o professor.

Hegemonia histórica

O PT nasceu em 1980, na esteira da redemocratização do país, como uma soma entre o sindicalismo de Lula e segmentos progressistas da intelectualidade. Ao longo dos seus quase 40 anos, sempre deteve - e com relativa tranquilidade - a hegemonia na esquerda nacional, ainda que outras siglas no mesmo campo ideológico tenham contado com líderes políticos de relevo, como Leonel Brizola (PDT) e Miguel Arraes (PSB). O partido lançou candidatos próprios em todas as eleições presidenciais desde a redemocratização e venceu quatro disputas, com Lula em 2002 e 2006 e Dilma Rousseff em 2010 e 2014.

A fundação do PSOL, ao longo do primeiro mandato de Lula, foi um dos maiores momentos de afastamento entre o PT e a esquerda. O partido foi criado por parlamentares que foram expulsos do PT por discordarem de políticas implementadas por Lula. Entre os fundadores, a então senadora Heloísa Helena (AL), que em 2006 foi candidata à Presidência e obteve o terceiro lugar na disputa, o melhor desempenho do partido até os dias atuais.

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Nos últimos anos, porém, PT e PSOL têm se aproximado. Lideranças do PSOL estiveram na linha de frente na oposição ao impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, contestaram a prisão de Lula no primeiro semestre e, na corrida eleitoral de 2018 o partido anunciou apoio a Fernando Haddad (PT) logo no dia seguinte ao primeiro turno. O presidenciável do PSOL, Guilherme Boulos, participou de comícios e outros atos de rua ao lado do petista, assim como outros nomes da legenda, como os deputados federais Jean Wyllys e Chico Alencar, ambos do Rio de Janeiro.

O presidente do PSOL, Juliano Medeiros, criticou a formação do bloco entre PDT, PCdoB e PSB. Em seu perfil no Twitter, Medeiros questionou: “não seria mais eficiente um bloco com toda a oposição, apoiando um nome unitário para a presidência da Câmara dos Deputados?”.

Em entrevista à Gazeta do Povo, Medeiros disse que seu posicionamento se justifica pela defesa de uma “ação conjunta de toda a oposição a Bolsonaro”. “Para nós, a prioridade é garantir a maior articulação de forças contra Bolsonaro. E isso, do nosso ponto de vista, é mais bem feito com todo mundo junto. É direito desses partidos, claro, tomar essa iniciativa. Só achamos que seria mais produtivo ter uma ação de todo mundo”, apontou.

Também em seu perfil no Twitter, Medeiros dissera que “o PSOL não fará bloco com o PT” e criticou a ideia de uma “oposição light”. Em relação à aliança com o partido do ex-presidente Lula, Medeiros disse que a negativa é justamente pela perspectiva de uma atuação integrada. “Se nós queremos que os partidos ajam em conjunto, não formaremos bloco com uma única sigla”, destacou. Já quanto à “oposição light”, o presidente do PSOL disse que usou o termo como referência à ideia de “oposição propositiva”, ideia apresentada por alguns membros do bloco PDT-PCdoB-PSB.

“Não sei que tipo de propostas que eles [integrantes do bloco] podem apresentar que poderiam ser incorporadas por um governo de extrema-direita. Nós não vamos fazer uma oposição propositiva, vamos fazer uma oposição de defesa dos direitos do povo. Não vamos propor nada para o governo Bolsonaro, pelo contrário”, disse Medeiros.

PSB

Outro momento de abalo na relação entre o PT e a esquerda se deu na transição entre 2013 e 2014, quando o então governador de Pernambuco, Eduardo Campos, se lançou candidato à Presidência pelo PSB. Campos havia sido ministro no primeiro mandato de Lula e era próximo do ex-presidente. Mas bancou a candidatura, com pesadas críticas à então presidente Dilma Rousseff, e deu mais um passo dentro do campo progressista quando atraiu a ex-senadora Marina Silva para sua chapa. Campos morreu em agosto, antes da eleição, e Marina acabou sendo a candidata pelo PSB.

“Eduardo Campos se lançou candidato em 2014 pensando em 2018. Ele seria, realmente, uma grande ameaça ao PT”, avaliou o professor Fleischer.

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O PSB, que se coligou com o PT em 2010, acabaria também por se distanciar do partido do ex-presidente Lula em 2018. A sigla considerou lançar uma candidatura própria, com o ex-ministro Joaquim Barbosa, e se aproximou de Ciro Gomes, mas acabou optando pela neutralidade. Alguns dos seus membros apoiaram Ciro, outros votaram em Fernando Haddad e o governador de São Paulo, Márcio França, esteve ao lado de Geraldo Alckmin (PSDB).

Com 32 deputados, o PSB terá a maior bancada do novo bloco. O PDT vem em segundo lugar, com 28 parlamentares, e o PCdoB contará com nove.

Pragmatismo

Deputados que conversaram com a Gazeta do Povo sobre o novo bloco buscaram minimizar o impacto político da aliança entre as legendas, que exclui o PT.

A senadora Lídice da Mata (PSB-BA), que a partir de 2019 voltará a exercer mandato na Câmara, disse que a união nasce “a partir da necessidade de ocupação de espaço administrativo e político”. Como a Casa está prestes a eleger uma nova composição da sua mesa diretora, incluindo um novo presidente, a somatória de forças ajudaria os partidos a garantirem ao menos uma vaga nas posições de comando. Líder do PDT, André Figueiredo (CE) acrescenta que o bloco planeja “votar em conjunto” num nome para a presidência da Câmara, mas sem indicar um candidato.

O petista Carlos Zarattini (SP) também evitou alimentar a ideia de que o novo bloco representaria um enfraquecimento do PT. “Os partidos estão tentando somar os deputados para, na hora de dividir comissões e cargos na mesa, terem alguma vantagem. Não é nem uma questão política. Politicamente, o PCdoB esteve unido com o PT em todos os estados. Então é um movimento mais pragmático”, disse.

O parlamentar reforçou não acreditar que a hegemonia do PT dentro da esquerda esteja sob riscos. “Qual é a referência principal, hoje, da esquerda? Não é o Ciro Gomes, não é o PCdoB ou o PSB. É o PT. O posicionamento do PT é muito crítico. Na própria Câmara, é quem mais resiste, quem mais batalha. Então não é uma questão de que a gente quer ser mais do que os outros. É a realidade, é só olhar”, destacou.

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