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Deltan e Carlos Lima: ativismo nas redes sociais. | Cesar Machado/Gazeta do Povo/Arquivo
Deltan e Carlos Lima: ativismo nas redes sociais.| Foto: Cesar Machado/Gazeta do Povo/Arquivo

Os “textões” de Facebook e outras postagens dos procuradores da Lava Jato em redes sociais estão incomodando gente da esquerda à direita. E até mesmo causando atritos entre integrantes da operação.

Na quinta-feira (6), o delegado que coordena a Lava Jato na Polícia Federal do Paraná, Igor Romário de Paula, em entrevista coletiva para explicar o fim da força-tarefa exclusiva na PF, teve de negar afirmações do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima feitas no Facebook.

Dois dias antes, na terça-feira (4), a defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma reclamação formal contra Lima por suas opiniões “políticas” na internet. O procurador também se envolveu recentemente numa discussão pública com o sociólogo Demétrio Magnoli , que chamou o procurador de “agitador de Facebook”. Já a atuação nas redes sociais de outro procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, têm sido duramente criticada pelo jornalista Reinaldo Azevedo – visto como um representante da “nova direita” brasileira.

O contexto

Desde a deflagração da Lava Jato, há pouco mais de três anos, as opiniões dos procuradores da operação têm sido alvo de questionamentos. Mas dois fatores estão no contexto do recente acirramento das opiniões divergentes envolvendo a operação: a possibilidade de o presidente Michel Temer (PMDB) ser afastado do cargo para responder pelos supostos crimes que a Lava Jato lhe atribui e a sentença que o juiz Sergio Moro pode dar a qualquer momento no processo do tríplex que envolve Lula.

No Facebook, tanto Carlos Lima como Deltan Dallagnol fazem campanha aberta para que a Câmara afaste Temer do cargo e que, desse modo, a acusação contra ele possa ser apreciada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) – como determina a Constituição. Defendem ainda o conteúdo da denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra o presidente. E também procuram angariar apoio da população à operação, que afirmam estar ameaçada por forças políticas.

Procurador versus delegado

O discurso da ameaça à Lava Jato foi usado na quinta-feira (6) pelo procurador Carlos Lima para “explicar”, no Facebook, o fim da força-tarefa exclusiva da operação na PF de Curitiba. “Os políticos de todos os espectros, esquerda ou direita, PMDB, PSDB, PT, etc. estão na luta pela sobrevivência do seu mandato e do seu modo de fazer politica. A extinção da força-tarefa da Polícia Federal é só uma comprovação do que estamos dizendo há algum tempo”, disse Lima em uma postagem.

Em outra publicação, o procurador culpou o governo federal pelo fim do grupo: “Esse é o governo Temer. Indo onde nem mesmo o governo Dilma tentou”. E, na noite da quarta (5), horas antes de a PF anunciar o encerramento da força-tarefa exclusiva, Lima antecipou a extinção dela e disse que está faltando dinheiro na Polícia Federal.

O delegado-chefe da Lava Jato na PF do Paraná, Igor Romário de Paula, negou que haja falta de recursos e que tenha havido ingerência política na decisão de acabar com o grupo de trabalho exclusivo – que agora será integrado a uma delegacia especializada em combate à corrupção.Diplomaticamente, ele também rejeitou um eventual “mal-estar” com os procuradores do Ministério Público Federal.

Querem promover o “terror”?

Poucos dias antes, Carlos Lima já havia se envolvido numa discussão pública com o sociólogo Demétrio Magnoli, que se autodefine como um social-democrata à moda europeia. A atuação de integrantes da Lava Jato foi alvo de um artigo de Magnoli publicado na Folha de S.Paulo em 24 de junho.

No texto, o sociólogo alerta que “a Lava Jato perecerá se não for contido o espírito jacobino [revolucionário e extremista]” de seus membros. E, embora considere que “Temer é uma desgraça”, Magnoli afirma que a Lava Jato cometeu claras ilegalidades na “operação Joesley”. Ele conclui o artigo afirmando que a operação tem de combater a corrupção dentro da lei e que algo diferente a isso será o “terror”.

O procurador Carlos Lima usou sua conta no Facebook para rebater Magnoli: “A única motivação que encontro nesse artigo (...) é amedrontar as pessoas com ameaças sobre o caos que virá se não nos contentarmos com o pouco, com as migalhas de mudança que foram conseguidas até agora. (...) Direita e Esquerda nos querem reféns igualmente. Querem que tenhamos medo da liberdade. Querem que acreditemos que somente eles podem nos salvar”.

O sociólogo respondeu em outro artigo, publicado em 1.º de julho na Folha, no qual chamou o procurador de “agitador de Facebook” e “messiânico”, e afirmou ser típico das “guerrilhas virtuais” atribuir “motivações ocultas” a quem os critica.

Lima voltou ao Facebook: “Ter esperança tornou-se brega. Falar em melhorar o país é tachado de messiânico. Lutar por essa melhora passou a ser jacobino. Direita e esquerda falam em ‘tribunais revolucionários’, em ‘tribunais de exceção’, como se não fôssemos uma democracia – imperfeita, mas, ainda assim, uma democracia em que prevalece o estado de direito. A Lava Jato representa a esperança.” E, em artigo também publicado na Folha de S.Paulo , no último dia 4, afirmou que o “Brasil está atualmente submetido ao terrorismo do medo”.

Deltan como alvo

O jornalista Reinaldo Azevedo – que ao contrário de Magnoli tem assumido uma posição simpática a Temer – também criticou recentemente a Lava Jato em seu blog usando um termo utilizado pelo sociólogo: afirmou que as investigações promovem o “terror jacobino”.

E um dos alvos preferenciais de Azevedo tem sido o procurador Deltan Dallagnol, a quem acusa de ter um comportamento de militante político nas redes sociais incompatível com a função de integrante do Ministério Público. Dallagnol não respondeu diretamente às críticas de Azevedo nas redes sociais.

Lula versus Lima

Já a defesa do ex-presidente Lula incomodou-se com postagens de Carlos Lima nas redes sociais e ingressou com uma representação no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) contra o procurador da Lava Jato. Para os advogados de Lula, as publicações de Lima são “desrespeitosas e de nítido caráter político contra o ex-presidente e um desrespeito às atribuições inerentes ao cargo de procurador”.

Lima não se pronunciou sobre a representação. Mas Dallagnol, em seu Twitter, republicou postagens de pessoas que afirmavam que Lula estaria tentando censurar o procurador.

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