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Ao defender na Casa Branca que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) sejam classificados como organizações terroristas, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) transformou o encontro com Donald Trump em uma nova frente de confronto político com o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A estratégia do senador busca explorar uma das áreas de maior desgaste do governo petista — a segurança pública — e reposicionar sua pré-campanha presidencial em torno do discurso de endurecimento contra o crime organizado.
O encontro com Donald Trump nesta terça-feira (26) deu mais liberdade de ação e permitiu ao senador retomar a iniciativa na campanha, na avaliação de aliados. Em entrevista após a reunião na Casa Branca, o parlamentar afirmou que foi aos EUA “fazer exatamente o contrário” do presidente Lula, acusando o petista de atuar para impedir que o PCC e o Comando Vermelho recebam essa classificação.
“Enquanto Lula vai de joelhos, rastejando, para implorar ao presidente americano Trump que não declare organizações criminosas, como o PCC e o CV, como terroristas, eu faço o contrário. Fui exatamente fazer esse pedido expresso a ele”, afirmou Flávio.
Lula disse no início de maio não ter falado com Trump sobre a classificação de facções como terroristas, mas como o encontro foi a portas fechadas não é possível saber como ele tratou o tema da segurança pública com Trump.
Pesquisa Datafolha divulgada em maio mostrou que a segurança pública passou a ser a principal área de desgaste de Lula. Segundo o levantamento, 16% dos entrevistados apontaram a segurança como o principal problema da atual gestão petista, à frente de saúde (15%), economia (13%) e combate à corrupção (13%).
O instituto ouviu 2.004 eleitores em 12 e 13 de maio, em entrevistas presenciais realizadas em todo o país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no TSE sob o número BR-00290/2026.
Aliados de Flávio defendem que o avanço das facções criminosas e a sensação de insegurança da população tendem a ocupar espaço central na disputa presidencial deste ano. Ao levar o tema à Casa Branca, Flávio também tenta associar sua imagem à agenda de segurança defendida pela direita conservadora internacional.
Durante o encontro, o senador afirmou a Trump que um eventual governo liderado por ele integraria o chamado “Escudo das Américas”, aliança internacional voltada ao combate ao crime organizado e formada por governos alinhados à direita, como Argentina, El Salvador e Paraguai. A movimentação aproxima o discurso do filho de Jair Bolsonaro de líderes como Javier Milei e Nayib Bukele.
Para aliados do senador, a defesa da classificação do PCC e do CV como organizações terroristas ajuda a ampliar o contraste com o governo Lula e reforça o discurso de endurecimento contra o crime organizado.
“O presidente Donald Trump convidou o próximo presidente do Brasil, Flávio Bolsonaro, para discutir pautas e projetos para a América Latina, principalmente quando se trata do Brasil”, afirmou o deputado federal Delegado Caveira (PL-PA) à Gazeta do Povo.
Na mesma linha, o deputado Evair Melo (Republicanos-ES) defendeu que o discurso de Flávio amplia o contraste político com o PT. “A nossa pauta de combate severo e rigoroso ao crime, reconhecimento do PCC e Comando Vermelho como ações terroristas, vai ser extremamente importante para o Brasil virar essa página de conivência com o crime”, disse.
Aliados comemoraram agenda de Flávio com Trump na Casa Branca
A repercussão do encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump foi imediatamente incorporada por aliados do PL. Parlamentares próximos ao senador passaram a tratar a reunião na Casa Branca como demonstração de prestígio internacional e fortalecimento da pré-candidatura presidencial.
Os senadores Izalci Lucas (PL-DF) e Carlos Portinho (PL-RJ) destacaram o simbolismo político da agenda nos Estados Unidos. “Trata-se de algo inédito que mostra reconhecimento internacional”, afirmou Izalci. “Não deixa de ser um sinal animador”, acrescentou Portinho.
Na Câmara, o líder da Oposição, Cabo Gilberto Silva (PB), avaliou que a reunião com Trump “deu um gás” na pré-campanha de Flávio. A mesma leitura foi feita pelo deputado Bibo Nunes (PL-RS), que vê a agenda internacional como um movimento capaz de fortalecer a mobilização da direita em torno da pré-candidatura do senador.
Durante a premiação dos 100 melhores parlamentares do Ranking dos Políticos, realizada na manhã desta quarta-feira (27), a repercussão da viagem aos Estados Unidos dominou parte das conversas entre parlamentares e dirigentes partidários em Brasília.
Para os aliados ouvidos pela Gazeta do Povo, o encontro de Flávio com Trump dividiu atenções com a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o fim da escala 6 por 1 no Congresso.
Após a reunião na Casa Branca, Flávio afirmou que o convite partiu do próprio governo norte-americano. “Essa reunião não foi intermediada por nenhum empresário duvidoso”, declarou, em referência às notícias de que o empresário Joesley Batista, da JBS, teria ajudado a intermediar o encontro entre Lula e Trump no início do mês.
Questionado sobre críticas do governo do PT de que a viagem serviria para desviar atenção das revelações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, Flávio negou que sua pré-campanha esteja em crise e afirmou não ter “nada a esconder”. O senador ainda desafiou o governo petista a apoiar a instalação da CPI do Banco Master e voltou a afirmar que sua candidatura representa “a única alternativa” ao atual governo.
Para o deputado federal General Girão (PL-RN), o encontro reforçou a imagem internacional de Flávio Bolsonaro e ampliou sua projeção como nome da direita. “Isso representa respeito ao Brasil, respeito ao que Bolsonaro fez. E ajuda, sim, a mostrar que Flávio tem tudo para ser um grande estadista”, afirmou.
Girão também avaliou que a pauta da segurança pública deve aprofundar a polarização política nos próximos meses. Segundo ele, o governo Lula falha em apresentar respostas concretas para o avanço da criminalidade e tenta responder politicamente ao desgaste na área com anúncios de investimentos federais em segurança pública.
Estratégia de Flávio mira percepção de insegurança da população
A estratégia de Flávio Bolsonaro após o encontro com Donald Trump busca justamente, com discurso de endurecimento contra facções criminosas, reconhecer um sentimento crescente de medo e desgaste social provocado pelo avanço do crime organizado em diferentes regiões do país.
Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha mostrou que 41,2% dos brasileiros afirmam conviver com facções criminosas ou milícias nos bairros onde vivem, o equivalente a cerca de 68,7 milhões de pessoas. O levantamento apontou ainda que 61,4% dos entrevistados acreditam que grupos criminosos interferem de forma forte ou moderada nas regras de convivência das comunidades, funcionando como uma espécie de poder paralelo.
Os dados revelam também impactos diretos sobre a rotina da população. Entre os entrevistados que afirmaram viver em áreas com presença de facções ou milícias, 81% disseram ter medo de ficar no meio de confrontos armados, 74,9% evitam frequentar determinados locais e 64,4% afirmaram ter receio de sofrer represálias ao denunciar crimes.
Para especialistas, esse ambiente ajuda a ampliar o peso político da segurança pública nas eleições. “O medo e a violência não apenas afetam a segurança, mas também reorganizam a vida cotidiana, corroem o consumo, limitam a mobilidade e fragilizam a sensação de normalidade”, afirmou Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ao comentar os resultados do estudo.
Na avaliação do analista político Arcênio Rodrigues, o tema deve ganhar ainda mais espaço no debate eleitoral nos próximos meses. “A segurança pública deve se consolidar como um dos principais temas das eleições de 2026, especialmente porque a população sente diariamente os efeitos da violência urbana e cobra respostas concretas do poder público”, afirmou.
A pesquisa “Medo do Crime e Eleições 2026: os gatilhos da insegurança” foi realizada pelo Instituto Datafolha, sob encomenda do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre os dias 9 e 10 de março de 2026. O levantamento ouviu 2.004 pessoas em 137 municípios de todas as regiões do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
Debate sobre terrorismo expõe divergência entre Lula e Flávio
A proposta de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas aprofundou uma divergência política e diplomática entre o governo Lula e Flávio Bolsonaro. Enquanto a direita tenta transformar o endurecimento contra facções em bandeira eleitoral, o Palácio do Planalto resiste à classificação por considerar que a medida pode abrir margem para ações mais agressivas dos EUA sob a justificativa de combate ao terrorismo.
No início de maio, Lula esteve na Casa Branca para uma reunião com Trump, e havia expectativa de que o tema entrasse na pauta bilateral. Após o encontro, porém, o presidente brasileiro afirmou que a classificação das facções como organizações terroristas não foi discutida.
Nos bastidores, integrantes do governo sustentam que o Brasil deve evitar qualquer movimento que permita interpretações sobre possível perda de soberania nacional ou autorização indireta para operações externas em território brasileiro. A preocupação do governo ganhou força após o avanço da ofensiva americana contra cartéis e grupos criminosos na América Latina.
Desde 2025, o governo Trump passou a tratar o narcotráfico como tema de segurança nacional e ampliou ações regionais de combate ao crime organizado. Os Estados Unidos intensificaram operações no Pacífico e no Caribe, auxiliaram países vizinhos em ações contra facções e passaram a discutir internamente a possibilidade de enquadrar grupos criminosos estrangeiros como organizações terroristas.
Em março, o jornal The New York Times informou que integrantes do governo norte-americano avaliavam incluir PCC e Comando Vermelho na lista de grupos terroristas estrangeiros. A possibilidade já vinha sendo discutida desde o ano anterior e ganhou força dentro do Departamento de Estado após pressão de aliados da direita brasileira junto a integrantes da Casa Branca.
O governo Lula, porém, sustenta que as facções não se enquadram juridicamente na definição de terrorismo prevista na legislação nacional. A Lei Antiterrorismo, sancionada em 2016, estabelece que atos terroristas precisam estar associados a motivação ideológica, política, religiosa ou discriminatória.
Para o Ministério da Justiça, PCC e Comando Vermelho atuam principalmente com objetivo econômico ligado ao tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outras atividades criminosas, sem intenção declarada de derrubar o Estado ou impor agenda política. Nos Estados Unidos, entretanto, a avaliação pode seguir critérios diferentes.
Autoridades americanas argumentam que o PCC possui atuação internacional, presença em dezenas de países e ligação com rotas do narcotráfico que afetam diretamente o território americano. Investigadores já identificaram integrantes da facção atuando em estados como Flórida, Nova York, Nova Jersey e Massachusetts.





