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Além das quebras de sigilo do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a oposição conseguiu aprovar na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS uma série de requerimentos que podem desgastar diretamente o governo petista. As medidas incluem convocações e acessos a dados bancários e fiscais de empresários, ex-integrantes do Ministério da Previdência e empresas do setor financeiro citados na investigação sobre o esquema bilionário de fraudes em descontos associativos de aposentados, o que amplia o alcance político da comissão e intensifica o embate entre o Planalto e a oposição.
Entre os alvos estão o ex-CEO do Banco Master Augusto Ferreira Lima; o ex-secretário-executivo do Ministério da Previdência Adroaldo da Cunha Portal; o empresário Gustavo Marques Gaspar; as empresárias Roberta Moreira Luchsinger e Danielle Miranda Fonteles; além da empresa CredCesta.
A oposição sustenta que as medidas são necessárias para rastrear o fluxo de recursos e esclarecer eventuais vínculos entre operadores do esquema e personagens com trânsito político em Brasília. Já governistas acusam a comissão de extrapolar o foco técnico da investigação para produzir desgaste político ao governo.
A aprovação dos requerimentos aconteceu após meses de ofensiva da base governista para tentar evitar que as investigações sobre as fraudes nos descontos irregulares do INSS impactassem diretamente o Palácio do Planalto. O governo tem maioria no colegiado e vinha barrando qualquer tipo de investida contra o Executivo. Agora, os deputados e senadores do PT pressionam para que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), anule a votação que aprovou as quebras de sigilo e os pedidos de convocação.
Segundo o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), o episódio representou um “golpismo contumaz” por parte da Mesa Diretora da CPMI. A avaliação entre governistas é de que, embora houvesse maioria numérica, o comando da comissão teria manobrado para favorecer a oposição na proclamação do resultado.
Para Randolfe, a mudança de tom da comissão é evidente: “Acabou a CPI, começou a eleição”. Nos bastidores, aliados do Planalto afirmam que o colegiado teria deixado de priorizar a apuração técnica das fraudes para assumir um viés político-eleitoral.
Apesar das críticas, a entrada do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça na relatoria de casos ligados às fraudes no INSS e ao Banco Master — antes sob condução do ministro Dias Toffoli — alterou o cenário no Congresso. Mendonça autorizou o compartilhamento de dados que deram novo fôlego aos trabalhos da comissão, que agora corre contra o tempo para concluir as apurações até o fim de março.
Antes mesmo do avanço na CPMI, Mendonça já havia autorizado, na esfera judicial, a quebra de sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva. A decisão atendeu a pedido da Polícia Federal (PF), que apontou “fundada suspeita” de repasse de cerca de R$ 300 mil ao filho do presidente por meio de um intermediário. Na avaliação do ministro, os elementos apresentados foram suficientes para justificar a medida cautelar e há a necessidade de aprofundamento das diligências.
Em nota assinada pelo advogado Guilherme Suguimori Santos, a defesa de Lulinha afirmou estar “absolutamente tranquila” quanto ao resultado da quebra de sigilo aprovada pela CPMI e também no âmbito do inquérito que tramita no STF. Segundo o advogado, foi protocolado pedido no STF para acesso à “suposta quebra de sigilo”, com a informação de que os documentos pertinentes serão fornecidos voluntariamente.
“Ele não teve nenhuma participação nas fraudes do INSS e não cometeu nenhum crime. Entendo que a quebra de sigilo é dispensável, pois não é necessário coagir quem desde o início demonstrou interesse inequívoco em contribuir”, ressaltou a defesa na nota.
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Augusto Ferreira Lima é apontado pela oposição como “banqueiro do PT”
Além de Lulinha, o ex-CEO do Banco Master e atual controlador do Banco Pleno, Augusto Ferreira Lima, tornou-se um dos principais alvos da CPMI do INSS. Assim como o Master, o Pleno foi liquidado pelo Banco Central (BC) no último dia 18. A comissão aprovou cinco requerimentos de convocação para que ele preste depoimento, além da quebra de seus sigilos bancário e fiscal no período de 2015 a 2025.
“Na condição de idealizador do produto CredCesta e figura central na trajetória operacional do Banco Master, o Sr. Augusto atuou diretamente na estruturação de modalidades de crédito consignado que hoje estão no cerne das investigações desta CPMI”, diz o requerimento assinado pelo senador Izalci Lucas (PL-DF).
Os requerimentos buscam rastrear a origem e o destino de recursos vinculados à concessão de crédito consignado a aposentados e pensionistas, modalidade que está no centro das investigações da Operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal. Durante a sessão da CPMI, o senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição, apontou a ligação de Lima com o PT.
“Nós estamos falando aqui da convocação do senhor Augusto Ferreira Lima, que é o banqueiro do PT”, afirmou em plenário, ao defender a aprovação dos requerimentos.
Lima é ligado a petistas da Bahia, como o ministro Rui Costa (Casa Civil) e o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA). A relação teve início em 2018, quando Wagner comandava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia, durante a gestão de Rui Costa.
O banqueiro venceu uma licitação de venda da Ebal (Empresa Baiana de Alimentos) e criou o CredCesta, um cartão de crédito consignado com juros muito abaixo do mercado e direcionado principalmente a funcionários públicos. Em entrevista à CNN Brasil, Jaques Wagner admitiu que conhece Augusto Lima como um contato profissional específico: “É evidente que eu o conheço, ele negociou comigo a venda da Cesta do Povo [rede de supermercados que pertencia ao governo da Bahia], mas se encerra aí”, disse.
A empresa CredCesta, dona do cartão de mesmo nome, foi incluída na lista de alvos da CPMI do INSS com a aprovação de requerimento de quebra de sigilos bancário e fiscal. “Vamos saber agora se ela é idônea, porque a gente está pedindo aqui e foi aprovado na votação simbólica a quebra desse sigilo”, declarou Rogério Marinho.
A reportagem solicitou posicionamento para a defesa de Augusto Ferreira Lima e buscou a assessoria da CredCesta. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.
Amiga de Lulinha, empresária tem quebra de sigilos bancário e fiscal aprovada pela CPMI
A empresária Roberta Moreira Luchsinger teve a quebra de seus sigilos bancário e fiscal aprovada pela CPMI do INSS após ser citada em depoimentos e em relatórios da Polícia Federal no âmbito da Operação Sem Desconto. O requerimento foi incluído no pacote de 87 medidas aprovadas em votação simbólica.
Segundo parlamentares da oposição, empresa ligada a Roberta teria recebido cinco repasses de R$ 300 mil atribuídos a Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como um dos operadores do esquema investigado. O nome da empresária também foi mencionado em sessão da CPMI por sua relação de amizade com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Durante o debate, o senador Rogério Marinho afirmou que a quebra de sigilo permitirá esclarecer suspeitas divulgadas publicamente. “Eu não estou afirmando, mas isso aqui vai permitir a gente saber se havia uma mesada, quem recebia e quem dava”, declarou.
Em dezembro do ano passado, Roberta esteve entre os alvos de uma das fases da Operação Sem Desconto. Neta do falecido ex-banqueiro suíço Peter Paul Arnold Luchsinger, a empresária ganhou visibilidade ao prometer uma doação de R$ 500 mil a Lula, quando o presidente foi alvo de bloqueio bancário na Operação Lava Jato.
Questionada sobre os requerimentos aprovados pela CPMI do INSS, a defesa de Roberta não se manifestou. Em dezembro, em nota enviada ao jornal O Estado de S. Paulo, os advogados de Roberta alegaram que a empresária “jamais teve qualquer relação com descontos do INSS”.
Ex-publicitária do PT também será investigada pela CPMI
A publicitária Danielle Miranda Fonteles também entrou na lista de alvos da CPMI do INSS. A comissão aprovou a quebra de seus sigilos bancário e fiscal, além do acesso a Relatórios de Inteligência Financeira (RIF), com o objetivo de rastrear movimentações atribuídas a ela no âmbito da Operação Sem Desconto.
Segundo o relatório apresentado pelo deputado Alfredo Gaspar (União-AL), relator do colegiado, Danielle é apontada como possível operadora de estruturas internacionais ligadas ao grupo investigado, com atuação em movimentações financeiras no exterior e intermediação de transações imobiliárias.
“A investigação da Polícia Federal identificou que ela foi beneficiária de montantes vultosos provenientes de um dos líderes do esquema, Antônio Carlos Camilo Antunes, sob a justificativa de uma transação imobiliária em Trancoso (BA), que as autoridades consideram inconsistente e possivelmente simulada”, diz o pedido apresentado pelo relator.
As autoridades apuram se essas operações teriam sido utilizadas para circulação e ocultação de recursos provenientes das fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. “Além disso, Danielle atuou na intermediação de compras de imóveis de alto padrão no exterior para o núcleo familiar da organização e geriu projetos internacionais com elevada probabilidade de servirem ao branqueamento dos recursos ilícitos desviados de aposentados do INSS”, concluiu Gaspar em seu requerimento.
A oposição sustenta que a análise detalhada das movimentações financeiras é necessária para identificar eventual rede de ocultação patrimonial. Dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam que Danielle Fonteles recebeu R$ 5 milhões do Careca do INSS entre novembro de 2023 e março de 2025. A informação foi revelada pela revista Veja.
A defesa da publicitária foi procurada pela reportagem, mas não havia enviado manifestação até o fechamento deste texto. O espaço permanece aberto.
Ex-assessores de vice-líder do governo estão sob investigação
Em outra frente, a CPMI do INSS aprovou a convocação do empresário Gustavo Marques Gaspar e do ex-secretário-executivo do Ministério da Previdência Adroaldo da Cunha Portal. Também foram aprovados pedidos de quebra de sigilo bancário e fiscal de Gaspar.
Ambos são citados em requerimentos que apontam para uma reunião realizada em 13 de março de 2023 nas dependências do ministério. Segundo os parlamentares que apresentaram os pedidos, Gaspar esteve no local acompanhado pelo Careca do INSS. O encontro teria ocorrido com Adroaldo Portal, à época secretário do Regime Geral de Previdência Social, mas não constou na agenda oficial da pasta — fato que levantou questionamentos sobre transparência e eventual conflito de interesses.
Gustavo Marques Gaspar é ex-assessor do senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo Lula no Senado. O parlamentar foi alvo de busca e apreensão em dezembro de 2025 e, em nota divulgada à época, disse que não há provas que o vinculem a práticas ilícitas ou ao recebimento de recursos irregulares. A reportagem não localizou a defesa de Gaspar. Ele teve prisão domiciliar concedida pelo ministro André Mendonça em 11 de fevereiro.
Também preso preventivamente em dezembro, Adroaldo Portal era considerado o número 2 do Ministério da Previdência do governo Lula antes de seu afastamento. Antes disso, ele também havia atuado como assessor de Weverton Rocha entre 2019 e 2023.
Em nota à revista Veja, em dezembro, Portal disse “repudiar, de forma categórica, qualquer tentativa de vinculação de seu nome a esquemas ilícitos ou práticas irregulares. Esclareceu que jamais participou, autorizou ou se beneficiou de qualquer conduta ilegal, seja no exercício de funções públicas, seja em sua vida privada”. A reportagem não localizou a defesa dele, mas o espaço segue aberto para eventuais novos esclarecimentos.











