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O ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), Carlos de Almeida Baptista Júnior, afirmou que o Brasil enfrenta uma deterioração gradual de sua capacidade militar e que a área de defesa vive um momento de alerta.
Em entrevista publicada nesta segunda-feira (16) pelo Estadão, o brigadeiro disse que o país entrou em “luz vermelha” diante das mudanças no cenário geopolítico internacional. Batista Júnior usou a expressão a mencionar a operação feita em território venezuelano, para captura do ditador Nicolás Maduro, os ataques ao Irã e os primeiros movimentos para uma nova guerra ao narcotráfico na América Latina. “[A luz vermelha significa] a difícil constatação de que nossas Forças Armadas não estão minimamente preparadas para os conflitos modernos. Que o grau de dissuasão militar está muito reduzido”, disse o ex-comandante da FAB.
Segundo ele, a capacidade militar brasileira não acompanha as necessidades estratégicas do país. “Nossa capacidade militar está incompatível com o bem maior que deve proteger: o Brasil”, afirmou o militar ao comentar o nível de investimentos no setor.
Baptista Júnior disse que a perda de capacidade de dissuasão ocorre há décadas e é resultado de uma combinação de restrições orçamentárias e falhas estruturais na organização das Forças Armadas.
Baptista Júnior afirma que Defesa precisa de reestruturação
Para o ex-chefe da Aeronáutica, o problema não se limita ao volume de recursos destinados à área militar. Ele defende mudanças institucionais no sistema de defesa brasileiro, incluindo a criação de um comando conjunto mais forte para coordenar as três forças — Marinha, Exército e Aeronáutica.
Na avaliação do brigadeiro, o atual modelo ainda preserva estruturas anteriores à criação do Ministério da Defesa, em 1999, o que limita a capacidade de coordenação estratégica.
A proposta defendida por ele prevê que um Estado-Maior conjunto tenha precedência hierárquica e concentre o planejamento operacional das Forças Armadas.
Falta de percepção de ameaças prejudica o Brasil
O militar também criticou o que chamou de falta de percepção de risco no país. Segundo ele, a classe política e a sociedade brasileira não tratam a defesa nacional como prioridade.
Para Baptista Júnior, a relativa estabilidade da América do Sul nas últimas décadas contribuiu para que o tema perdesse relevância no debate público. “A América do Sul tem sido caracterizada como uma região de paz prolongada, com exceções de conflitos fronteiriços bilaterais e esporádicos. No Brasil, nosso último conflito armado foi a Guerra da Tríplice Fronteira, ocorrida em meados do século 19. Tal fato desenvolveu em nossa população, inclusive em grande parte de nossos militares, uma baixa percepção de que o País poder ser ameaçado por outra nação ou atores não estatais ou transnacionais”, disse na entrevista.
Ele afirma, porém, que o ambiente internacional mudou nos últimos anos, citando conflitos recentes e transformações nas estratégias de segurança global como fatores que exigem maior atenção do Brasil.
Na entrevista, o brigadeiro também demonstrou preocupação com a possibilidade de ampliar o emprego das Forças Armadas no combate direto ao crime organizado. Embora defenda o enfrentamento ao narcotráfico, ele avalia que a função principal dos militares deve permanecer voltada à defesa externa. Segundo o ex-comandante da FAB, transformar militares em forças policiais pode gerar riscos institucionais, como corrupção e perda de foco na missão principal.
Ex-comandante comentou depoimento sobre tentativa de golpe
Baptista Júnior também comentou sua atuação como testemunha no processo que investigou a suposta tentativa de golpe após as eleições de 2022, que envolveu o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O militar afirmou que manteve o alto comando da Aeronáutica informado sobre as discussões ocorridas naquele período e reiterou que sua posição sempre foi de defesa da legalidade.
Segundo ele, o ponto mais preocupante naquele momento foi a tentativa de quebrar a unidade entre as três Forças Armadas, algo que classificou como extremamente grave para qualquer instituição militar. “O que mais me incomodou – e eu não vou falar da Marinha, pois estou falando de uma pessoa –, porque isso é tão sério, foi a tentativa de quebrar a unidade de pensamento das três Forças. Isso para mim foi o mais sério de todo esse processo”, disse ao relembrar os ataques que sofreu por meio de redes sociais.
Baptista Júnior critica a polarização política e diz que é preciso superar populismos
Durante a entrevista, o brigadeiro também comentou o cenário político brasileiro e disse que pretende votar em um candidato de direita nas eleições presidenciais de 2026.
Ele afirmou, porém, que não apoia nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nem o senador Flávio Bolsonaro, defendendo a busca por alternativas fora da polarização política. Sobre Flávio Bolsonaro, o ex-comandante acrescentou que acha que “ele não está preparado para ser presidente”, embora o considere “ponderado”. “Eu acho que o Flávio é o mais ponderado dos filhos do Jair Bolsonaro. Talvez, durante o governo dele, eu achasse que o que tinha mais potencial – não acho mais – era o Eduardo. Hoje eu acho Flávio o mais ponderado”, disse Baptista Júnior.
Na avaliação do ex-comandante da Aeronáutica, o país precisa superar o que chamou de disputa entre dois “populismos” para avançar institucionalmente. “Eu pessoalmente acho que o Brasil tem de se livrar desses populismos que estão parasitando nossa sociedade. Porque o populismo é antes de mais nada, o populista é egoísta. Não há interesse público, há só o interesse deles, o interesse político de manutenção de poder, de roubar”, completou.







