Publicidade
Assistencialismo

Bolsa Família dispara em julho com 3,9 milhões de cadastros unipessoais

Bolsa Família
Número de famílias de uma pessoa dispara em ano eleitoral enquanto governo diz que monitora municípios com distorções. (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Ouça este conteúdo

O número de beneficiários unipessoais do Bolsa Família chegou a 3,9 milhões em julho de 2026, alta de 344 mil desde janeiro e um novo avanço justamente em ano eleitoral, de acordo com um levantamento publicado nesta segunda-feira (24) pela Folha de S. Paulo. O total supera os 3,5 milhões contabilizados no início deste ano.

O crescimento interrompe uma trajetória de redução iniciada após o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) promover uma revisão dos cadastros considerados irregulares. O movimento chama atenção porque a concentração de beneficiários que declaram morar sozinhos havia sido associada, anteriormente, à divisão artificial de famílias para ampliar o acesso aos pagamentos.

Em nota, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) atribui a variação aos fluxos normais de entrada e saída do programa e afirma não identificar sinais de nova divisão artificial de cadastros.

A disparada dos cadastros unipessoais ganhou força no final do ano de 2022, quando foi criado um benefício mínimo de R$ 600 por família, independentemente do número de integrantes. Com o afrouxamento dos mecanismos de controle, pessoas que viviam juntas passaram, em alguns casos, a declarar residências separadas para receber mais de um benefício.

Em 2026, porém, o número voltou a subir e o total de famílias atendidas pelo programa também aumentou, passando de 18,8 milhões para 19,3 milhões entre janeiro e julho.

Especialistas consideram que parte do movimento pode ser explicada pela própria mudança demográfica, com mais pessoas vivendo sozinhas, mas também apontam sinais de que o processo de correção dos registros pode estar perdendo força. Os dados mostram que a situação varia significativamente entre as cidades brasileiras:

  • 128 municípios tiveram aumento superior a 100% nos cadastros unipessoais desde o fim de 2022;
  • 211 municípios registraram crescimento entre 50% e 100%;
  • 613 municípios tiveram alta entre 10% e 50%.

A alta é o primeiro movimento desse tipo desde o segundo semestre de 2024, quando outro aumento de cadastros unipessoais levou o MDS a reforçar a fiscalização. Naquele período, diante das eleições municipais, o ministério chegou a levantar suspeitas sobre possível uso eleitoral do Cadastro Único, sistema que dá acesso a quase 2 mil benefícios no país.

O governo federal financia boa parte dos programas sociais, enquanto as prefeituras são responsáveis pela operação do Cadastro Único e pela aplicação das regras de seleção dos beneficiários. O MDS afirma, entretanto, não ter identificado indícios de uso eleitoral do cadastro em 2026.

Internamente, a pasta monitora 306 municípios e três estados classificados como críticos, incluindo locais que não respondem a pedidos de informação, não compartilham dados de aposentados e pensionistas municipais ou apresentam elevada proporção de famílias unipessoais. Outros 45 municípios e cinco estados estão sob atenção, mas ainda não são considerados críticos.

O principal alerta está na proporção de famílias de uma pessoa dentro do próprio programa: em julho, elas representavam 19,9% dos beneficiários, acima da referência de 16% estabelecida em 2023 para orientar a revisão dos cadastros. Atualmente, 3.813 municípios estão acima desse limite, o maior número desde o início da divulgação dessa estatística, em setembro de 2023.

O cenário é ainda mais concentrado em 736 municípios, onde os unipessoais representam mais de 25% dos beneficiários, enquanto em 35 cidades a proporção chega a pelo menos 40%. O MDS ressalta que ultrapassar a referência não significa, isoladamente, que exista irregularidade.

"Para os casos em que a proporção de unipessoais supera 40%, está prevista a realização de estudos específicos para avaliar a adoção de parâmetros regionalizados", afirmou o ministério. Segundo a pasta, a divulgação dos dados municipais do Censo de 2022 poderá ajudar a estabelecer limites diferentes de acordo com as características demográficas de cada região.

Em julho, o MDS também discutiu com representantes dos Tribunais de Contas dos Estados um plano para ampliar o monitoramento dos cadastros. A estratégia prevê reforçar pedidos de informação às administrações locais e, quando necessário, abrir processos de acompanhamento sobre municípios com indicadores considerados fora do padrão.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.