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Ano eleitoral

Captura de Maduro pelos EUA desgasta Lula e pode afetar eleições presidenciais no Brasil

Trump retira tarifa de 10%; Brasil segue com taxa adicional de 40%
Após recuo parcial dos EUA em tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, Lula volta reage diretamente contra ação americana na Venezuela. (Foto: EFE/Andre Borges)

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O ano da corrida presidencial no Brasil começa sob o impacto da captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, episódio que enfraquece o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por sair em defesa do ditador venezuelano e ignorar o fato de o regime chavista ser amplamente acusado de autoritarismo, fraudes e violações de direitos humanos. Os efeitos dessa crise podem afetar sua campanha pela reeleição.

Para especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o embate entre os discursos contra e a favor da operação militar americana na América do Sul pode transbordar a política externa e influenciar diretamente o ambiente eleitoral ao longo do ano. Não por acaso, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato a presidente e principal rival de Lula nas urnas, foi na linha oposta à do Palácio do Planalto e explorou as ligações históricas entre o petista e o chavismo.

Na América Latina e no plano político brasileiro, o efeito imediato foi o reforço da polarização, com líderes e governos de esquerda adotando postura crítica à ação americana, enquanto a direita passou a enfatizar os bons ventos trazidos pela queda da ditadura venezuelana e a sinalizar alinhamento com Washington. Nas redes sociais, parlamentares brasileiros da oposição apontaram contradições da esquerda e exigiram posições claras.

A captura de Maduro anunciada na madrugada do sábado (3) marcou ponto de virada na política de segurança americana, com disposição em empregar força, reinterpretando a Doutrina Monroe, do século 19, segundo a qual as Américas são área de influência de Washington. O ditador foi levado à Justiça de Nova York para responder por narcoterrorismo, após semanas de sanções e tensas e inéditas movimentações militares no Caribe.

O professor de Relações Internacionais Daniel Afonso da Silva, da USP, avalia que, por pragmatismo eleitoral, Lula pode virar a página mais rapidamente do que seu partido. Mas alerta: um posicionamento equivocado sobre a queda de Maduro tende a produzir efeitos duradouros nas eleições presidenciais e até de governadores. “Não dá simplesmente para condenar a queda de Maduro quando os venezuelanos espalhados por vários estados brasileiros aprovam e exaltam esse desfecho”, afirma.

Ao analisar o papel do Brasil, Silva é crítico da diplomacia do governo petista em relação à Venezuela. Para ele, há descompasso entre a visão técnica do Itamaraty e a orientação política da atual gestão. “Nenhum diplomata no primeiro escalão aceitava a situação venezuelana ou duvidava sobre a natureza do regime. O problema sempre esteve no núcleo duro do PT, historicamente leal ao chavismo e nostálgico dos tempos de Hugo Chávez”, diz.

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Lula pode tentar angariar apoio com discurso antiamericano

No plano eleitoral, Olavo Caiuby Bernardes, advogado especializado em Direito Internacional, avalia que o episódio pode produzir efeitos ambíguos. Assim como ocorreu no debate sobre o tarifaço americano a produtos brasileiros, ele aponta que haveria espaço para Lula tentar capitalizar apoio interno com discurso nacionalista, crítico à intervenção americana e à violação da soberania regional.

Esse movimento, contudo, dependerá do comportamento da oposição. Segundo ele, se não calibrar bem o tom e a estratégia, corre o risco de reforçar a narrativa do Palácio do Planalto e transformar um episódio desfavorável à diplomacia em ativo político para o petista - como ocorreu no caso do tarifaço de Trump aos produtos brasileiros.

Mas, em meio à ruptura institucional gerada pela operação, Bernardes não identifica qualquer risco de a pressão americana se voltar diretamente contra o Brasil, como ocorreu em seguida com a Colômbia.

Além disso, o professor cita a eventual disputa sobre quem ocupará o vácuo de poder em Caracas como principal incógnita aberta pela queda de Maduro. Para ele, a saída do ditador que “mergulhou a Venezuela no caos” representa um alívio para os venezuelanos, embora o meio empregado pelos EUA tenha ocasionado debates do ponto de vista jurídico.

Itamaraty tenta equilibrar condenação à captura e diálogo com os EUA

Para o Brasil, o episódio envia sinal claro sobre o novo cenário geopolítico e obrigou o governo a equilibrar reações delicadas. O Itamaraty garante que a situação na fronteira com a Venezuela segue tranquila, mas autoridades monitoram de perto a passagem terrestre em Roraima, principal entrada de venezuelanos.

A ação americana também colocou Lula em posição sensível, já que o petista condenou a operação como sendo violação da soberania venezuelana, ao mesmo tempo em que tenta manter canais de diálogo com Washington.

Especialistas advertem que a estratégia americana com foco em segurança, narcotráfico e contenção de influências externas pode ter implicações mais amplas para a atuação brasileira em temas de cooperação regional.

Lula criticou com veemência a ação do governo de Donald Trump na Venezuela e afirmou que os ataques “ultrapassam linha inaceitável” e representam “precedente extremamente perigoso” para a comunidade internacional.

A situação expôs ainda a postura ambígua de Lula em relação à guerra na Ucrânia, em que evita condenar Vladimir Putin e sugere responsabilidade compartilhada pelo conflito. Isso reflete a estratégia de fortalecer alianças no bloco dos BRICS enquanto rejeita a influência americana na América Latina. Esse duplo padrão tem gerado críticas tanto internas quanto externas sobre a coerência da política externa do Brasil.

O cientista político Ismael Almeida frisa que o regime de Maduro manteve-se por anos à vista do mundo por meio de repressão, fraude eleitoral e violações de direitos humanos documentadas por relatórios da ONU e investigações independentes, enquanto a comunidade internacional optou por omissão, relativismo e gestos diplomáticos nulos.

“Na prática, essa postura – na qual se encaixa bem com a de Lula – validou a ditadura, diante da falência de organismos multilaterais em produzir consequências”, diz.

Para Daniel Afonso da Silva, professor de Relações Internacionais da USP, os próximos dias ainda serão marcados por um confronto global intenso de narrativas em torno da captura de Maduro. Segundo ele, haverá “guerra de desinformação e de exortações ao constrangimento”, que tende a produzir uma “hipocrisia generalizada” ao deslocar o foco central da operação.

“O regime chavista é notadamente ilegal, imoral e injusto para a população venezuelana. Trump avisou desde o primeiro mandato, tentou negociar e foi sistematicamente ignorado por Maduro e, também, por países da região, sobretudo o Brasil. O desfecho extremo foi a operação de sábado”, afirma.

Na avaliação do professor, a transição política na Venezuela será lenta, gradual e ainda cercada de incertezas. Isso porque o país vive quadro de colapso institucional profundo, com múltiplas lideranças “autodeclaradas” no exílio e, ao mesmo tempo, com o retorno de atores políticos, econômicos e sociais que tentarão participar da reconstrução nacional.

Brasil e 4 países governados pela esquerda condenam operação dos EUA; Milei apoia ação de Trump

O Brasil e outros quatro países latino-americanos divulgaram no domingo (4) nota conjunta manifestando “profunda preocupação e rechaço” à ação dos EUA para remover Maduro do poder e afirmaram que o ataque viola princípios da Carta da ONU, fere a soberania e a integridade territorial da Venezuela e cria precedente perigoso para a paz, a segurança regional e a ordem internacional, além de colocar a população civil em risco.

Em contraste com a mensagem de governos de esquerda — Brasil, México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha —, a Argentina articula a formação de bloco regional de governos de direita, alinhado ao combate a regimes autoritários e à proximidade estratégica com os EUA.

Sob liderança do presidente argentino, Javier Milei, a ação rompe com o tradicional consenso diplomático da região e expõe divisão ideológica em torno da ação contra Maduro: defesa de direitos humanos versus afinidade com o chavismo.

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