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Empresário Carlos Wizard defende mudança na lei para que empresas possam vacinar os próprios funcionários contra a Covid-19 e desafogar o SUS.
Empresário Carlos Wizard defende mudança na lei para que empresas possam vacinar os próprios funcionários contra a Covid-19 e desafogar o SUS.| Foto: Marcelo Andrade/Arquivo Gazeta do Povo

O empresário Carlos Wizard é taxativo ao defender a compra de vacinas por empresas. "Eu prevejo que podem chegar a 5 mil óbitos por dia se essa lei não for alterada", afirma, em entrevista à Gazeta do Povo, sobre a Lei nº 14.125/21, que permite que empresas comprem imunizantes desde que sejam 100% entregues ao Sistema Único de Saúde (SUS).

A lei, naturalmente, não abriu as portas para que as empresas tenham interesse em comprar as vacinas. Afinal, mesmo os empresários mais bem sucedidos — e ricos — como Wizard, que detém um patrimônio superior a R$ 2 bilhões, não estão dispostos a abrir seus caixas para doar sem contrapartidas ou perspectivas de vacinar seus funcionários. Junto com o empresário Luciano Hang, dono das lojas Havan, ele é, hoje, um dos principais articuladores do setor privado a defender ajustes na lei.

Proprietário do Grupo Sforza, que atua em diferentes segmentos, como fast-food, com as redes Pizza Hut, KFC e Taco Bells; e de educação, com a escola de inglês Wise Up, em sociedade com o empresário Flávio Augusto da Silva, Wizard diz que um projeto de lei atualmente debatido na Câmara veio em boa hora para corrigir a atual legislação. "Que é uma lei inconstitucional, porque, de acordo com a Constituição brasileira, cada cidadão tem direito à saúde", afirma.

O empresário defende um debate sem ideologias sobre a compra de vacinas por empresas, se mostra a favor da abertura econômica com responsabilidade e avalia o cenário político para 2022 com a perspectiva de grandes empresários disputarem o pleito. Leia abaixo a entrevista completa, concedida por videoconferência à Gazeta do Povo:

O Congresso aprovou ainda no início de março o projeto de lei que veio a se tornar a Lei nº 14.125/21. Hoje, o senhor e o empresário Luciano Hang são dois dos principais líderes do setor privado a reivindicar mudanças na lei. O próprio Congresso, agora, discute a aprovação de um novo projeto para mudar as regras e, na prática, admite que falhou na elaboração da lei. O que houve, afinal?

Wizard: Sim, falhou. Eles aprovaram uma lei inconstitucional, porque, de acordo com a Constituição brasileira, cada cidadão tem direito à saúde. E quando é aprovado na Câmara e no Senado uma lei que impede a própria sociedade civil de oferecer saúde para a população, de fato, estamos diante de uma lei inconstitucional.

Ela está indo contra o próprio dever do Estado, ou seja, você não pode, em momento de guerra, porque estamos, de fato, em estado de guerra, ficarmos permitindo perder 2 mil, 3 mil, 4 mil vidas por dia. E nós não oferecermos à população aquilo que, hoje, comprovadamente, e falando no aspecto mundial, está sendo preconizado como a solução dessa crise sanitária. Ou seja, se nós entendermos que a forma mais eficaz, mais rápida e mais breve para parar com toda essa pandemia é a vacinação, temos que antecipar a solução, e não postergar.

E essa lei, lamentavelmente, o que fez foi postergar a possibilidade do empresário contribuir e doar apenas após 78 milhões de brasileiros [o número da população que compreende o grupo prioritário] serem atendidos. Você sabe que a lentidão da máquina pública é tradicional, é histórica, agora, se você for contabilizar quantos mortos serão sepultados até 78 milhões de brasileiros [serem vacinados], é insano. É uma lei inócua, não atende os interesses de ninguém, nem do Senado, do Congresso, nem dos empresários, da população. Ou seja, fizeram uma lei que não serve para nada.

Os empresários foram ouvidos na construção dessa primeira lei?

Wizard: Desde o início do ano, os empresários estão unidos para discutir e oferecer a vacina para os seus colaboradores. Eu tenho 50 mil colaboradores; Luciano [Hang] tem 20 mil; somente nós dois, estamos falando em 70 mil pessoas. São colaboradores, trabalhadores, cidadãos brasileiros. A partir do momento que eu doo essas vacinas, não quero vender, não quero comercializar uma só vacina, o SUS, obrigatoriamente, ele está isento de fazer essa imunização [de 70 mil]. Ou seja, já estou fazendo o que o próprio SUS deveria fazer. Então, retomando à tua pergunta, se nós estávamos fomentando [o debate], sim, desde o início do ano. Janeiro, fevereiro, março, já estamos em abril, então, para nós, de fato, é um absurdo.

Já li que seriam doadas 10 milhões de vacinas ao SUS, como, também, tomei conhecimento de que os senhores se articulam para comprar 10 milhões de vacinas. Afinal, quantas serão compradas e quantas doadas para o SUS?

Wizard: Luciano Hang e Carlos Wizard, e com milhares de outros empresários, estamos unidos para fazer uma doação de 10 milhões de vacinas para a população brasileira, sendo que 5 milhões vamos utilizar para os colaboradores próprios. E 5 milhões vamos entregar para o SUS.

Esse número é variável? Pode aumentar a depender de fatores condicionantes até o fim do ano?

Wizard: Não tenho previsibilidade, agora, de dizer que pode ou não pode, mesmo porque todo o trabalho que está sendo feito, agora, é para que haja ajuste nessa legislação. Você fala em ajuste em legislação e fica, também, sujeito a como ela será editada. É inconstitucional você pedir para que o empresariado faça uma doação em duplicidade. Você está fazendo sua doação, faça sua doação. Agora, por que eu, que cuido de fazer uma doação, tenho que ter a condição de fazer em dobro? Imagina só que você tira do teu bolso R$ 10 para dar a um pedinte, e daí ele diz: “R$ 10 eu não aceito, só aceito se for R$ 20”.

Além do projeto de lei em discussão na Câmara, que deve ser votado nos próximos dias, há necessidade de outras demandas por parte do setor empresarial para ajudar nessa força-tarefa de combate à pandemia?

Wizard: O que tem sido cogitado pelo ministro [da Economia] Paulo Guedes, e nós vemos com bons olhos, é de que os empresários que contribuírem para essa ação de doação tenham algum tipo de abatimento fiscal, de modo tal que sejam incentivados e sejam, digamos, encorajados a participar mais amplamente.

O senhor fez um recente périplo em Brasília. Visitou vários gabinetes do governo, Congresso e do Supremo [Tribunal Federal]. Da parte do Ministério da Saúde e do Parlamento, qual foi a receptividade?

Wizard: Após falar diretamente com o [presidente da Câmara] Arthur Lira, o [presidente do Senado] Rodrigo Pacheco, e falar com o próprio ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, outro com quem tivemos interlocução, [notamos que] são favoráveis e apoiam essa iniciativa [de mudar a lei]. No entanto, todos disseram a mesma coisa: nós não trabalhamos sozinhos.

Eu acredito que o Brasil é o único país no mundo que tem uma democracia onde existem 33 partidos políticos. E você sabe que, às vezes, dentro de um mesmo partido, eles não se entendem, não chegam a um consenso, a uma decisão comum. Quando traz uma pauta dessa grandeza para um Congresso com 24 partidos, 513 cabeças [deputados na Câmara], é óbvio que tem que ter muita negociação, articulação, disposição, embates e questionamentos diversos. Mas estamos em clima de guerra, ontem [31 de março], ainda, foram anunciadas 3,8 mil mortes, quase 4 mil mortes em um único dia. Gente, nem em guerra você vê tanta morte assim.

Eu espero, Luciano espera, nós, a sociedade brasileira esperamos, a celeridade para que, nesse momento, os congressistas, os parlamentares, possam deixar de lado suas questões ideológicas e partidárias e possam colocar a vida dos brasileiros como prioridade.

É simbólico o senhor falar em deixar questões ideológicas de lado, porque parlamentares da oposição já se posicionam contrariamente a esse projeto...

Wizard: Lamentavelmente, existem pessoas que valorizam mais as suas questões e posições ideológicas do que a vida. É exatamente isso que está causando esse gravíssimo número de óbitos diários que temos no Brasil. As pessoas esquecem que, se nada for feito, vão continuar tendo altos níveis de falecimento a cada dia. Eu prevejo que podem chegar a 5 mil óbitos por dia se essa lei não for alterada. A pergunta é: esse sangue vai estar nas mãos dos parlamentares?

O senhor acredita que parte da rejeição a essas articulações têm a ver com o fato de o senhor e Luciano Hang serem conhecidos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro?

Wizard: Eu lamento dizer que toda essa questão de pandemia, desde o início, um ano atrás que começou, tomou esse viés ideológico, partidário, viés político. E eu arrisco a dizer que, se amanhã, o presidente da República for na TV e dizer: "oh, se vocês tomarem uma Coca-Cola por dia, vocês vão estar imunizados contra a Covid-19". No dia seguinte, rapaz, metade da população vai deixar de beber coca, simplesmente porque o presidente da República assim disse.

O senhor disse há pouco sobre 5 mil óbitos por dia. Esse número é uma avaliação pessoal ou o senhor ouviu isso de alguém do governo?

Wizard: Essa é a previsão não somente da comunidade médica no Brasil, como de algumas fontes de Brasília, fontes não identificadas, que preveem que podemos chegar a 4 mil mortes, 5 mil mortes diárias, se não for alterada essa lei. Porque a lei impossibilita que a sociedade civil participe de forma solidária, concomitante, de forma paralela, simultânea ao empenho. Ou seja, nossa intenção é salvar vidas, mas se estivermos impedidos de assim fazer, qual que é o resultado? Lamentavelmente, será o acréscimo cada vez maior no número de óbitos. Não atende o interesse de ninguém.

Desde o ano passado, Bolsonaro defende que a vida é tão importante quanto o emprego. Voltamos a ver ele fazendo esse apelo nos últimos dias. No seu entendimento, o presidente tem uma boa visão do Brasil quando defende que, além da preservação da vida, os empregos também são importantes?

Wizard: Na visão do presidente da República, ele não vê as coisas de formas isoladas: ou vida ou a economia. Porque elas estão interligadas. Eu sou brasileiro, eu trabalho. Eu produzo, eu compro alimento. Eu compro alimento, eu alimento minha família. Ou seja, você não pode fazer um [sistema] binário, ou 0 ou 1, ou sim, ou não. As duas coisas estão interligadas.

Sinceramente, não acho que o presidente valoriza a economia mais do que a vida, ou a vida mais do que a economia, é um trabalho de interdependência. De nada adianta, também, fechar fábrica, fechar indústria, fechar comércio, fechar shopping, e deixar as pessoas morrendo em casa. Historicamente, quando analisa outras economias no mundo afora, não é o fato de fechar a [economia]. A Alemanha [por exemplo], não foram um, dois, três, quatro, cinco meses [de lockdown] que acabou com a pandemia, pelo contrário, a própria [Angela] Merkel [chanceler alemã] se desculpou perante a população de que, mesmo com todo aquele lockdown, as pessoas continuaram morrendo. Porque o sujeito tem que ir no mercado, tem que ir na farmácia, a vida continua. É uma situação de interdependência.

Vivemos um cenário de muita politização. Nesse ambiente, é notório como, vez ou outra, importantes empresários são lembrados como vice em uma chapa à Presidência da República, ou até como candidatos. A senhora Luiza Trajano é um dos nomes que apareceu. A pergunta aqui é: o setor empresarial está entrando na política? Isso acontecerá em 2022, é possível ver candidaturas com grandes empresários?

Wizard: Eu acredito que, quando estamos unidos em um país que está enfrentando sérias problemas de ordem institucional, empresários que têm uma visão política de país, de nação — e eles têm o senso de patriotismo —, se convidados, vão estar aptos, prontos e preparados para assumir responsabilidade, se isso for de interesse nacional.

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