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Após anos de queda contínua nas pesquisas de opinião, a corrupção voltou a ganhar espaço entre as preocupações dos brasileiros, segundo levantamentos recentes de institutos como Genial/Quaest, Datafolha e AtlasIntel. Embora as sondagens não façam referência direta ao caso do Banco Master, a sucessão de episódios envolvendo suspeitas de irregularidades, decisões judiciais controversas e questionamentos institucionais ligados ao banco tem contribuído para reacender o debate público sobre corrupção em um ambiente marcado pelo esvaziamento da agenda anticorrupção.
Levantamento da Genial/Quaest divulgado neste mês mostra que o tema passou de 15% para 17% das menções espontâneas sobre os principais problemas do país, atrás de áreas como violência e problemas sociais, mas interrompendo um longo período de baixa atenção ao assunto no debate público.
A movimentação registrada pela Quaest ocorre após anos em que a corrupção atingiu patamares historicamente baixos. Dados do Datafolha analisados pela Gazeta do Povo indicam que, depois de alcançar níveis elevados no auge da Operação Lava Jato — quando chegou a ser citada por 34% dos entrevistados em 2015 —, a preocupação com o tema entrou em trajetória de queda contínua, atingindo índices entre 4% e 5% em 2021 e 2022, os menores da série histórica.
Nos últimos dois anos, no entanto, o tema voltou a aparecer de forma gradual nas pesquisas, ainda que com leituras distintas entre os institutos. Pelo Datafolha, a corrupção foi citada por 8% dos entrevistados em 2023 e por 8% em 2025.
Já levantamentos do AtlasIntel/Bloomberg apontaram picos significativamente mais elevados: em maio de 2025, 59,5% dos entrevistados classificaram a corrupção como o maior problema do país, percentual que subiu para 64,7% em pesquisa divulgada em dezembro do mesmo ano. Os levantamentos consideraram a corrupção como problema isolado, não comparando o tema com outros.
O contraste entre os institutos sugere uma retomada desigual da preocupação com o tema, com oscilações que variam conforme a metodologia e o momento político.
Ainda assim, o movimento coincide com um período marcado pelo esvaziamento da agenda anticorrupção no país, após o enfraquecimento de investigações, mudanças no entendimento jurídico sobre prisão em segunda instância, anulações de condenações e arquivamentos de processos envolvendo políticos e empresários — fatores que contribuíram para a frustração e o ceticismo de parte do eleitorado.
É nesse contexto que surgem novos episódios de suspeitas de irregularidades envolvendo autoridades públicas e o setor privado. O caso do Banco Master, que passou a ocupar o noticiário nos últimos meses, aparece como mais um elemento de pressão sobre o debate público e reacende discussões sobre corrupção em um ambiente ainda marcado por desconfiança em relação às instituições.
Para analistas políticos e especialistas em opinião pública, a combinação entre a retomada desigual do tema nas pesquisas e a sucessão de fatos recentes pode recolocar a corrupção no centro do discurso político. A avaliação é de que, embora a pauta ainda enfrente desgaste e resistência, ela pode voltar a ser explorada no debate eleitoral com vistas à eleição presidencial de 2026, a depender da evolução dos desdobramentos e da estratégia adotada pelos diferentes campos políticos.
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Do auge da Lava Jato ao esvaziamento do combate à corrupção
A Operação Lava Jato, deflagrada em março de 2014, levou a corrupção ao centro do debate público e alcançou seu auge entre 2015 e 2016, quando a pauta passou a figurar entre as principais preocupações dos brasileiros. No período, pesquisas do Datafolha mostravam índices superiores a 30% de citações espontâneas do tema, impulsionados por prisões de políticos e empresários, acordos de delação premiada e a recuperação de bilhões de reais desviados de estatais, como a Petrobras.
A partir de 2017, no entanto, a preocupação com a corrupção começou a recuar de forma gradual, acompanhando o enfraquecimento do discurso anticorrupção e o avanço de questionamentos institucionais sobre os métodos da operação. Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro declarou publicamente que “acabou com a Lava Jato” ao afirmar que não havia mais corrupção em seu governo, em um contexto de desgaste político da força-tarefa e de redução do apoio institucional às investigações.
O esvaziamento se intensificou a partir de decisões do Supremo Tribunal Federal que alteraram entendimentos jurídicos centrais para a operação. Em março de 2019, a Corte decidiu que crimes como corrupção e lavagem de dinheiro deveriam ser julgados pela Justiça Eleitoral se estivessem conexos com delitos de campanha (como o caixa 2, por exemplo), retirando da Justiça Federal grande parte dos processos da Lava Jato.
Em novembro do mesmo ano, por seis votos a cinco, o STF derrubou a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância, decisão que levou à libertação de réus e impactou diretamente o andamento de investigações.
Em 2021, o Supremo deu novos passos que aprofundaram o desmonte da operação. Em março, o ministro Edson Fachin anulou as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sob o argumento de incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba. Poucas semanas depois, a Segunda Turma do STF declarou a suspeição do ex-juiz Sergio Moro nos processos contra Lula, decisão confirmada pelo plenário em junho daquele ano.
Esse conjunto de decisões coincidiu com a queda contínua da preocupação dos brasileiros com a corrupção nas pesquisas de opinião. Segundo o Datafolha, o tema caiu para 7% em 2019, manteve-se nesse patamar em 2020 e atingiu mínimos históricos entre 2021 e 2022, com índices de 4% a 5%, consolidando um cenário de frustração e cansaço do eleitor com a pauta anticorrupção.
Na análise do cientista político Alexandre Bandeira, o enfraquecimento da Lava Jato e a anulação de condenações contribuíram para um sentimento difuso de desalento em relação ao combate à corrupção. Para ele, o eleitor passou a perceber que denúncias raramente resultam em punições duradouras.
“Isso cria uma sensação de que não adianta denunciar, pois o corrupto sempre vai se livrar. A sociedade aprende que é inócuo lutar contra a corrupção no campo político”, afirma.
Bandeira associa esse processo a fatores culturais e históricos, como a tolerância social ao clientelismo e à chamada “Lei de Gérson” (expressão popular brasileira que descreve a atitude de buscar vantagem em tudo), mas ressalta que decisões recentes do Judiciário reforçaram a percepção de que “fazer o mal compensa” no ambiente político.
Caso Master alimenta suspeitas e reacende debate sobre corrupção
O caso envolvendo o Banco Master ganhou projeção nacional não apenas pelo volume bilionário das suspeitas de fraude investigadas pela Polícia Federal, mas também por uma série de decisões judiciais e episódios institucionais que passaram a alimentar questionamentos sobre transparência e imparcialidade no tratamento do caso.
As investigações apontam esquemas que podem chegar a até R$ 17 bilhões, envolvendo carteiras fictícias de crédito, desvio de recursos e operações com o Banco de Brasília (BRB), o que levou o Banco Central a decretar a liquidação extrajudicial do Master em novembro de 2025.
A condução do caso no Supremo Tribunal Federal, sob relatoria do ministro Dias Toffoli, ampliou a repercussão. Após a prisão do controlador do banco, Daniel Vorcaro, a investigação foi deslocada para o STF sob o argumento de foro privilegiado de um parlamentar citado nos autos. Pouco depois, Toffoli determinou a imposição de sigilo máximo sobre o processo, restringindo o acesso a informações básicas, medida criticada por entidades como a Transparência Internacional por violar o princípio da publicidade dos atos processuais.
Além das decisões formais, episódios paralelos reforçaram a percepção pública de proximidade entre autoridades do Judiciário e personagens centrais do caso. Dias antes de assumir a relatoria, Toffoli participou de uma viagem ao Peru em jatinho particular na companhia de um advogado que defende investigados ligados ao Banco Master, fato que gerou questionamentos e críticas no meio jurídico.
Também chamou atenção a atuação do ministro Alexandre de Moraes em episódios relacionados ao banco. Reportagens indicaram que Moraes manteve contatos com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar da situação do Master e da tentativa de venda da instituição ao BRB. O ministro negou que tenha tratado do caso com Galípolo. Segundo ele, a reunião foi para tratar das sanções impostas à época pela Lei Magnitsky.
Paralelamente, veio a público a existência de um contrato milionário entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, no valor estimado de R$ 129 milhões, sem detalhamento público sobre os serviços prestados.
Mesmo sem imputação de crime ou irregularidade aos ministros, o conjunto de decisões, relações e episódios associados ao caso Master passou a ser interpretado por parte da opinião pública e do meio político como indicativo de um ambiente institucional em que falta transparência, contribuindo para reacender desconfianças em um momento de leve retomada da preocupação com a corrupção.
Para Bandeira, o caso Master colocou o STF no foco da opinião pública. “É uma situação inédita, já que é a primeira vez que o STF deixa de julgar casos de corrupção política, para ser julgado pela opinião pública por defender interesses de corruptos de dentro da Corte”, afirmou o cientista político.
Para o cientista político Paulo Kramer, há potencial para que o caso do Banco Master produza impacto político, mas isso não ocorre de forma automática. Segundo ele, escândalos só se convertem em desgaste efetivo quando são acompanhados de capacidade de mobilização e organização por parte da oposição.
“Existe uma condição objetiva, que é o escândalo em si, mas ela precisa ser acompanhada de condições subjetivas de mobilização, comunicação e organização para produzir efeito político”, afirma.
Na avaliação do cientista político, casos de compreensão mais simples e impacto direto no cotidiano — como o escândalo envolvendo descontos indevidos de aposentados e pensionistas do INSS — tendem a gerar mais indignação social do que esquemas financeiros complexos. “São episódios mais fáceis de entender e, por isso, mais capazes de mobilizar a opinião pública”, conclui.
Como a corrupção pode afetar as campanhas de Lula e Flávio
A retomada do debate sobre corrupção tende a expor fragilidades nos principais campos políticos que se projetam para a disputa presidencial. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) carrega o histórico do petrolão e das condenações anuladas no âmbito da Lava Jato; de outro, aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro enfrentam questionamentos ligados a investigações arquivadas, como o caso da rachadinha envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente.
No entorno de Lula, a estratégia tem sido sustentar o discurso de que as condenações foram anuladas por vícios processuais e que o ex-presidente teve seus direitos políticos restabelecidos por decisões judiciais. Já no campo da direita, o arquivamento do caso da rachadinha é apresentado como prova de inexistência de crime.
Para o cientista político Adriano Cerqueira, professor do Ibmec de Belo Horizonte, as complicações judiciais de ambos reduzem o poder de mobilização do discurso anticorrupção.
Segundo ele, menções a esse tipo de questão tendem a produzir mais ruído do que mudança efetiva de voto. “A corrupção sempre aparece no calendário eleitoral, mas não tem capacidade isolada de mover o ponteiro do voto como segurança, renda ou emprego”, avalia.
Ainda assim, Cerqueira considera que o tema pode reaparecer em 2026, embora de forma secundária, impulsionado por casos recentes como o do Banco Master e por críticas institucionais.
Metodologia
Genial Quaest: O levantamento foi encomendado pela Genial Investimentos e ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais entre os dias 8 e 11 de janeiro. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.
AtlasIntel/Bloomberg: O levantamento ouviu 4.399 brasileiros entre os dias 19 e 23 de maio de 2025, por questionário on-line. A margem de erro é de 1 ponto percentual, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
AtlasIntel/Bloomberg: O estudo desta quinta-feira realizou 18.154 entrevistas, entre os dias 10 e 15 de dezembro, com pessoas de todas as regiões do país. A margem de erro é de 1 ponto percentual, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%.
Datafolha (2025): Foram realizadas 2.002 entrevistas em todo o Brasil, distribuídas em 113 municípios. A margem de erro máxima para o total da amostra é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro do nível de confiança de 95%.
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