
Ouça este conteúdo
A esquerda brasileira está abraçando o socialismo da geração Z, ou "Socialismo Gen-Z", uma tendência internacional em alta que foi retratada em editorial recente da revista britânica The Economist. Diferente do socialismo já conhecido, os apoiadores desse movimento não visam ideais coletivistas ou a apropriação dos meios de produção. Eles são a geração do eu primeiro e querem que seus problemas sejam resolvidos às custas dos outros.
O socialismo TikTok, como também foi chamado, se baseia em propor políticas focadas no imediatismo de jovens que se revoltam com a alta dos preços dos alimentos, dos aluguéis e da saúde e veem como solução fazer os ricos pagarem por esses custos. A geração Z é a dos jovens nascidos entre os anos de 1997 e 2012.
Observado nos Estados Unidos e na Europa, o movimento tem políticos como o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, o líder do Partido Democrata canadense, Avi Lewis, e o francês Jean-Luc Mélenchon como seus principais expoentes. Apesar de a maioria não pertencer à geração Z, suas propostas esquerdistas dialogam com jovens dessa geração.
Em vez de soluções voltadas ao aumento da produtividade ou ao crescimento econômico, os políticos buscam soluções simplistas e, com frequência, impraticáveis. As pautas do “Socialismo Gen Z” costumam defender que o Estado intervenha para resolver problemas por meio do tabelamento de preços de alimentos e de aluguéis, aumento de impostos sobre os mais ricos e de novas formas de redistribuição de renda.
No Brasil, a tendência já encontra eco em pautas defendidas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mas também tem expoentes específicos em parlamentares como Erika Hilton (PSOL-SP), Camila Jara (PT-MS), Sâmia Bomfim (PSOL-RJ), Pedro Uczai (PT-SC) e Tabata Amaral (PSB-SP). Eles têm traduzido para a realidade brasileira as pautas do "Socialismo Gen-Z".
A proposta do fim da escala de trabalho 6x1 é vista por analistas ouvidos pela Gazeta do Povo como o principal exemplo. Trata-se de uma demanda que fala com uma geração que passou a questionar se jornadas longas de trabalho são compatíveis com qualidade de vida e perspectivas de futuro, segundo Alexandre Bandeira, professor de marketing, discurso político e planejamento de campanha da faculdade ESPM.
Outras propostas como a criação de aluguel social, controle do preço de alimentos e tributação de grandes fortunas também já foram apresentadas e se enquadram nos anseios do “Socialismo Gen Z”.
"Existe uma percepção crescente de uma geração que, apesar de ser mais escolarizada e qualificada do que a de seus pais, encontra mais dificuldades para alcançar conquistas materiais semelhantes, como adquirir um imóvel, acumular patrimônio ou criar filhos", explica o analista político Luan Sperandio.
Mas, em vez de conseguir isso por meio do liberalismo econômico, esses jovens clamam por intervenções estatais e soluções simplistas fadadas a agravar ainda mais o cenário econômico.
Controle dos preços já é tema de propostas no Brasil
A tentativa de limitar o reajuste de preços dos produtos da cesta básica é um dos principais exemplos do Socialismo Gen Z. Ela não leva em conta que o tabelamento faz a produção encolher e eleva ainda mais os preços.
No Congresso do Brasil, essa ideia foi proposta em um projeto da deputada Lenir de Assis (PT-PR), que diz querer “proteger o poder de compra da população e promover a segurança alimentar”.
Também surgiu do projeto do Programa Cestão do Povo, do deputado Leo Prates (PDT-BA), que quer garantir o acesso da população a produtos considerados essenciais a preços reduzidos, com gestão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Além desses, dois projetos há medidas similares em tramitação propostas por parlamentares do PSOL.
Menos trabalho e mais qualidade de vida?
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6x1, apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e encampada por Lula e seus aliados, tornou-se um dos principais temas da esquerda nas redes sociais, dialogando diretamente com uma parcela da geração Z, caracterizada por questionamentos sobre a relação entre trabalho, tempo livre e qualidade de vida.
"A redução da jornada de trabalho é uma pauta muito forte porque fala diretamente com a qualidade de vida. Ela toca numa questão profunda, que é a relação entre tempo, trabalho e dignidade", afirma o cientista político Elias Tavares.
Experiências internacionais com redução de jornada mostram resultados mistos. Em Portugal, a mudança elevou custos trabalhistas e foi acompanhada por queda no emprego em setores afetados. Na França, a semana de 35 horas gerou perda de competitividade e acabou sendo flexibilizada posteriormente. Já casos citados como bem-sucedidos, como Reino Unido e Islândia, ocorreram em programas voluntários, não por imposição legal.
Esquerda tenta ampliar a tributação sobre altas rendas
O principal elemento do Socialismo Gen Z é a defesa de maior tributação sobre renda e patrimônio dos mais ricos para financiar subsídios aos mais pobres.
Projetos apresentados no Brasil desde 2008 tentam regulamentar a cobrança do Imposto sobre Grandes Fortunas. Mais recentemente, o deputado Pedro Uczai (PT-SC) e a deputada Tabata Amaral (PSB-SP) apresentaram projetos com objetivos semelhantes.
O próprio governo federal encampou parte desse discurso ao aprovar a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para contribuintes de menor renda.
"O discurso sobre o andar de cima, sobre grandes fortunas e concentração de riqueza acaba dialogando com uma percepção de que o enriquecimento está associado aos grupos mais privilegiados da sociedade", explica o analista político Alexandre Bandeira.
Na contramão do anseio do Socialismo Gen Z, que buscar usar os impostos para financiar seus benefícios, a pauta tende a desestimular a prosperidade proporcionada pelo liberalismo econômico e incentivar a migração da riqueza para outros países.
Transporte gratuito e inteligência artificial pautam novas formas de proteção social
O governo Lula estuda a criação do que está sendo chamado de "SUS do Transporte": um sistema de financiamento do transporte público com aplicação da tarifa zero. Um marco legal sobre o tema já foi aprovado no Congresso, o que aproxima o Planalto do objetivo.
Também foi ampliado o programa Gás para Todos, que garante a gratuidade do botijão de gás para famílias de baixa renda.
A Lei 14.818/2024, proposta de Tabata Amaral, criou o programa Pé-de-Meia, que oferece incentivos para estudantes de baixa renda permanecerem no ensino médio. Assim, além de dar acesso à educação gratuita, o Estado repassa dinheiro diretamente para os jovens.
De olho na inteligência artificial, uma das principais preocupações de jovens mundo afora, a deputada Camila Jara (PT-MS) apresentou, ainda em 2023, uma proposta que cria um Fundo de Renda Básica para trabalhadores impactados pela inteligência artificial.
A ideia, em resumo, é fazer com que empresas paguem para utilizar essas tecnologias em larga escala. O tema é debatido em diversos países a partir da premissa de que a Inteligência Artificial teria um impacto relativamente maior que o de outras novas tecnologias sobre o mercado de trabalho. Mas a discussão ainda não resultou em nenhuma tendência clara.
Propostas que ampliam intervenção do Estado nos preços da moradia se multiplicam
A alta inflacionária, especialmente em relação aos preços da moradia, é apontada pela The Economist como um dos principais combustíveis das ideias do “Socialismo Gen Z” no exterior.
No Brasil, propostas de aluguel social e locação subsidiada vêm ganhando espaço. O deputado Carlos Zarattini (PT-SP) tenta incluir no Minha Casa, Minha Vida modalidades de locação e arrendamento social - onde o Estado paga o aluguel de famílias menos favorecidas.
Já a deputada Tabata Amaral propõe que o governo possa utilizar imóveis públicos ou privados para oferecer moradia a famílias que recebem até três salários mínimos. Nos imóveis privados, o custo seria coberto em parte pela família ocupante e o restante complementado com recursos públicos.
Por ora, a esquerda brasileira não apresentou projetos que tenham alguma chance de impor controles de preço máximo para aluguéis de imóveis, como vem sendo debatido no exterior. Mas o governo intensificou, a partir deste ano, a fiscalização contra sonegação de impostos sobre aluguéis, movimento que está elevando os preços da moradia.
Agenda do Socialismo Gen-Z à brasileira inclui saúde
O Brasil já possui um sistema público de saúde e a obrigação constitucional de destinação constante e engessada de verbas para o setor. No exterior, essa é uma das pautas clássicas do Socialismo Gen-Z: como a saúde é cara, os mais ricos devem pagar para que ela seja um benefício público.
Falando em "dignidade menstrual", a deputada Tabata Amaral conseguiu emplacar uma lei para garantir absorventes de graça para estudantes, mulheres em situação de rua, vulneráveis, presidiárias ou em unidades socioeducativas.
Angústias típicas da geração Z, como a saúde mental, acesso universal a tratamentos e ampliação de benefícios públicos para grupos específicos também estão na agenda da esquerda.
Esquerda no Brasil tenta transformar angústias dos jovens em agenda política
"A esquerda continua falando de redistribuição, proteção social e ampliação de direitos. A novidade é que agora isso aparece menos como um discurso ideológico amplo e mais como resposta a problemas específicos da vida cotidiana", segundo o analista Elias Tavares.
Na avaliação do cientista político, a esquerda aposta em responder a uma sensação crescente de frustração geracional.
"Uma parte dos jovens olha para o mercado de trabalho, para o preço da moradia, para a instabilidade econômica e para o avanço da tecnologia e conclui que o pacto de ascensão social prometido às gerações anteriores não está funcionando para eles", completou Tavares.
"Não é possível analisar isso apenas pela disputa entre direita e esquerda. Existe uma dimensão geracional importante. Estamos falando de uma geração que sente que o futuro ficou mais caro, mais distante e mais difícil de alcançar", observa o analista político Alexandre Bandeira.







