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O presidente da CPI do Crime Organizado, senador Fabiano Contarato (PT-ES), cancelou a sessão desta quarta (1º) que ouviria o empresário Leonardo Augusto Palhares, apontado pela Polícia Federal como suspeito de operar o pagamento de propinas do banqueiro preso Daniel Vorcaro, do liquidado Banco Master, a dois servidores do Banco Central para que lhe repassassem informações privilegiadas da autarquia. Ele ainda era sócio-fundador de uma ong que tinha a filha do banqueiro – menor de idade – como embaixadora.
O depoimento, no formato de convocação, estava marcado para a sessão desta manhã por requerimento do senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da comissão. A sessão também ouviria o presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Ricardo Saadi, convidado a prestar esclarecimentos na modalidade de convite, que desobriga o comparecimento.
O motivo do cancelamento da sessão não foi divulgado. A Gazeta do Povo procurou o deputado através de seus assessores e aguarda retorno.
“A CPI do Crime Organizado tem um plano claro: investigar toda e qualquer conexão de interesses financeiros e estruturas de poder com o crime organizado, doa a quem doer. [...] Se há indícios, há dever de investigar. Se há crime, não existe blindagem”, afirmou Contarato em uma publicação nas redes sociais na véspera.
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Segundo a investigação da Polícia Federal sobre o esquema de fraudes financeiras supostamente cometidas por Vorcaro e seu Banco Master, Palhares é apontado como administrador da empresa Varajo Consultoria Empresarial, que pagava propina ao então diretor de fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, que também era chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), e a Belline Santana, chefe deste departamento – eles foram afastados de suas funções públicas no começo do mês passado durante a deflagração da terceira fase da operação Compliance Zero.
“Foram identificadas comunicações nas quais o investigado [Daniel Vorcaro] solicitava orientações estratégicas [a Souza e Santana] sobre a condução de reuniões institucionais, a elaboração de documentos e a abordagem de temas sensíveis perante autoridades regulatórias”, escreveu o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), no despacho que autorizou a operação contra os dois servidores.
No requerimento aprovado para a convocação, Vieira afirmou que as investigações apontaram a existência de “diversas outras pessoas jurídicas eram utilizadas como instrumentos operacionais da organização criminosa, funcionando como veículos para a formalização de contratos fictícios, movimentação de recursos, ocultação patrimonial e pagamento de despesas relacionadas às atividades ilícitas”.
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Palhares também é apontado como sócio-administrador a ong Fundação Solar, que tem a filha de Vorcaro, Stella Vorcaro, como embaixadora – apesar de ser menor de idade –, conforme revelado no começo do mês passado. A entidade, que tem uma conta bancária no Banco Master para o recebimento de doações, supostamente desenvolve ações de educação na África, mas sem citar expressamente em seu site quais países atua. Apenas nas redes sociais há citações de supostos projetos apoiados no ano passado na República Democrática do Congo.
A empresa que recebe doações para a Fundação Solar, a Sociedade Organizada Spread of Love and Respect, foi aberta no dia 10 de fevereiro de 2025 já em meio às dificuldades de liquidez do Banco Master. A Gazeta do Povo chegou a procurar a ong para explicar a relação com Vorcaro e o banco, mas não teve resposta.
Além de operar as propinas aos dois servidores e ser sócio da ong, Leonardo Augusto Palhares também fazia os pagamentos aos aliados de Daniel Vorcaro que formavam a “milícia digital” chamada de “A Turma”, um grupo de mensagens mantido pelo banqueiro em que ordenava ações de intimidação, coação e graves ameaças a desafetos.
Os pagamentos de R$ 1 milhão ao mês, segundo a apuração da Polícia Federal, eram realizados por outra empresa que Palhares era sócio, a Super Empreendimentos e Participações S.A. A investigação aponta que a sócia dele no negócio, Ana Cláudia Queiroz de Paiva, também “atuou na operacionalização de movimentações financeiras relacionadas às atividades desenvolvidas por integrantes do grupo investigado”.
“Enquanto o rombo financeiro produzido pelas operações investigadas repercutia no mercado e exigia atuação de mecanismos de garantia do sistema bancário, integrantes da organização criminosa continuavam a ocultar valores expressivos em estruturas patrimoniais mantidas em nome de terceiros”, completou Alessandro Vieira no requerimento para convocar Palhares.
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Convite a presidente do Coaf
Por outro lado, em relação a Ricardo Saadi, o motivo do comparecimento era prestar informações sobre as iniciativas do Coaf no combate à lavagem de dinheiro por organizações criminosas.
“Considerando o papel central do COAF na prevenção e detecção de operações suspeitas e sua atuação estratégica no rastreamento financeiro de facções criminosas, faz-se necessária a oitiva do presidente do Conselho, Sr. Ricardo Saadi, a fim de esclarecer as medidas adotadas, os fluxos de investigação e o fortalecimento dos mecanismos de inteligência financeira no combate ao crime organizado”, afirmou a justificativa do senador Jorge Kajuru (PSB-GO), semelhante aos requerimentos de Eduardo Girão (Novo-CE) e de Ângelo Coronel (PSD-BA).















