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8 de janeiro
Flávio Dino, da Justiça, e Gonçalves Dias, do GSI, além de outros órgãos do governo teriam sido avisados da possibilidade de ataques no 8 de janeiro.| Foto: Joedson Alves/Agencia Brasil

Os ministros Flávio Dino, da Justiça, e Gonçalves Dias, então comandante do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), foram avisados pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre a possibilidade de ações violentas nos atos de 8 de janeiro dois dias antes do protesto que culminou com a invasão e a depredação das sedes dos Três Poderes. Os alertas estão em documentos sigilosos obtidos pelo jornal Folha de São Paulo e que tiveram alguns trechos publicados em uma reportagem nesta sexta (28).

Os ministros alegam que não receberam os informes, embora a Abin afirme que mensagens também foram enviadas ao próprio telefone celular de Gonçalves Dias.

Os documentos obtidos pelo jornal – um compilado de mensagens distribuídas em grupos de WhatsApp – foram encaminhados pela Abin à Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI) do Congresso Nacional no dia 20 de janeiro, e apontam que outros 13 órgãos receberam os comunicados – entre eles a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, que tinha a atribuição de fazer a segurança dos prédios públicos no dia dos atos.

Segundo a Abin, os primeiros alertas foram enviados já no dia 2 de janeiro à Diretoria de Inteligência do Ministério da Justiça sobre a movimentação de manifestantes, seguido pela Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal a partir do dia 6, já mencionando a possibilidade de violência nos atos. Foi no mesmo dia em que Gonçalves Dias recebeu pelo menos três alertas no próprio celular (veja abaixo a cronologia das mensagens).

“A perspectiva de adesão às manifestações contra o resultado da eleição convocadas para Brasília para os dias 7, 8 e 9 jan. 2023 permanece baixa. Contudo, há risco de ações violentas contra edifícios públicos e autoridades”, dizia a primeira mensagem enviada ao ex-ministro no dia 6, às 19h40.

Outro trecho afirmava que “destaca-se a convocação por parte de organizadores de caravanas para o deslocamento de manifestantes com acesso a armas e a intenção manifesta de invadir o Congresso Nacional. Outros edifícios da Esplanada dos Ministérios poderiam ser alvo das ações violentas”.

Já no dia seguinte, véspera dos ataques, um novo informe enviado a Gonçalves Dias e ao Ministério da Justiça às 10h30 alertava para a chegada de 18 ônibus de outros estados ao acampamento montado em frente ao Quartel General do Exército para “participar das manifestações”, cita a Folha.

“Mantêm-se convocações para ações violentas e tentativas de ocupações de prédios públicos, principalmente na Esplanada dos Ministérios”, dizia trecho da mensagem seguido por outro informe que destacava que "caminhões tanque que transportam combustível não acessam a distribuidora de combustíveis anexa à refinaria (REVAP) de São José dos Campos-SP. [...] Há presença de manifestantes autointitulados ‘patriotas’ no local”.

Abin reforçou alertas na manhã de 8 de janeiro

Ainda segundo os documentos da Abin enviados à comissão do Congresso, a Abin reforçou os alertas a Gonçalves Dias logo cedo na manhã do dia 8 de janeiro, citando a chegada de “cerca de cem ônibus” e o “incremento significativo no número de barracas” no acampamento em frente ao QG do Exército.

O mesmo teor foi adotado por volta das 10h em uma mensagem a todas as autoridades que acompanhavam as atualizações, segundo reporta a Folha. O texto dizia que continuava havendo “convocações e incitações para deslocamento até a Esplanada dos Ministérios, ocupações de prédios públicos e ações violentas”.

Os documentos da Abin contestam a mensagem de áudio enviada pelo então secretário de Segurança Pública do DF em exercício naquele fim de semana, Fernando de Souza Oliveira, ao governador Ibaneis Rocha (MDB) de que estava “tudo tranquilo” no acampamento e que os manifestantes tinham “topado” caminhar em direção à Esplanada dos Ministérios de forma “pacífica, organizada e controlada” – a mensagem foi repassada pelo governador a Flávio Dino.

Apesar dos documentos da Abin afirmarem que as autoridades competentes foram alertadas da possibilidade de violência no dia 8 de janeiro, Dino dizia frequentemente que não tinha sido avisado. Em uma audiência na Câmara dos Deputados, no mês passado, reforçou que não recebeu nenhum alerta, e que a troca de informações era realizada através do WhatsApp.

“Inventaram que eu recebi um informe da Abin, que é tão secreto que ninguém nunca leu, nem eu mesmo. Por quê? Por uma razão objetiva: eu jamais o recebi”, disse em audiência na Câmara no mês passado.

Pouco depois dos atos de 8 de janeiro, Lula também criticou a falta de informações de inteligência e disse que “nenhuma dessas inteligências [GSI, Abin e Forças Armadas] serviu para avisar ao presidente da República que poderia ter acontecido isso”, em entrevista à GloboNews.

Cronologia dos alertas

Os documentos obtidos pela Folha mostram que receberam os alertas órgãos ligados ao Sisbin (Sistema Brasileiro de Inteligência) e o então ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Gonçalves Dias.

São eles o CIE (Centro de Inteligência do Exército), CIM (Centro de Inteligência da Marinha), AID/MD (Assessoria de Inteligência de Defesa do Ministério da Defesa), DINT/SEOPI (Diretoria de Inteligência da Secretaria de Operações Integradas do Ministério da Justiça), ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), MINFRA (Ministério da Infraestrutura) e Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).

Ainda teriam recebido os informes, segundo relata a Folha, os integrantes da CIISP/DF (Célula de Inteligência Integrada de Segurança Pública do Distrito Federal), composto pelo GSI (Gabinete de Segurança Institucional), PF (Polícia Federal), PRF (Polícia Rodoviária Federal), DINT/SEOPI, PM/DF (Polícia Militar do Distrito Federal), PC/DF (Polícia Civil do Distrito Federal) e SSI/DF (Subsecretaria de Inteligência do Distrito Federal).

Veja abaixo algumas das principais mensagens enviadas pela Abin alertando para os ataques:

  • 6/01, 19h40 - Perspectiva de adesão às manifestações contra o resultado da eleição em Brasília permanece baixa. Contudo, há risco de ações violentas contra edifícios públicos e autoridades. Destaca-se a convocação de caravanas para o deslocamento de manifestantes com acesso a armas e a intenção manifesta de invadir o Congresso Nacional.
  • 7/01, 10h30 - Há registro de chegada no QG do Exército de 18 ônibus de outros estados para participar de manifestações. Mantêm-se convocações para ações violentas e tentativas de ocupações de prédios públicos. Desde a madrugada de hoje, caminhões tanque que transportam combustível não acessam a distribuidora de combustíveis anexa à refinaria (REVAP) de São José dos Campos-SP. Há presença de manifestantes autointitulados "patriotas" no local.
  • 7/01, 12h - Conforme a ANTT, houve aumento do número de fretamentos de ônibus com destino a Brasília para este final de semana. Há um total de 105 ônibus, com cerca de 3.900 passageiros. Mantêm-se convocações para ações violentas.
  • 8/01, 08h53 - Cerca de 100 ônibus chegaram a Brasília para os atos previstos na Esplanada dos Ministérios.
  • 8/01, 10h - Em Brasília, continua chegada de manifestantes no QG do Exército, em fluxo menor que o registrado ontem. Houve incremento no número de barracas, com estruturas maiores. Permanecem convocações e incitações para deslocamento até a Esplanada dos Ministérios, ocupações de prédios públicos e ações violentas. Em votação, decidiram que a marcha só iniciará quando todas as caravanas chegarem.
  • 8/01, 12h05 - Deslocamento dos manifestantes para a Esplanada está previsto para as 13h00. Ânimo pacífico no momento, mas há relatos de pessoas que se dizem armadas.
  • 8/01, 13h - Identificado discurso radical de vândalo com perfil já conhecido e ânimo exaltado.
  • 8/01, 13h40 - Iniciado o deslocamento para a Esplanada. Há discursos inflamados com pessoas pintando o rosto com [sic] se fossem para um combate. Há entre manifestantes relatos de que as forças de segurança não irão confrontá-los.
  • 8/01, 14h30 - Frente da marcha alcançou a primeira barreira policial na via que passa ao lado da Catedral. Já há manifestantes em frente ao Congresso Nacional. Efetivos da PM encontram-se no local. Alguns manifestantes estão montando barracas na Esplanada dos Ministérios e artefatos potencialmente perigosos foram deixados no gramado.
  • 8/01, 14h45 - Em Brasília, marcha chegou em frente ao Congresso Nacional e manifestantes romperam a barreira policial. Grupo encontra-se na rampa do prédio

A íntegra das mensagens foi reproduzida em texto pela Folha também nesta sexta (28) e está disponível para consulta. A publicação, no entanto, não divulgou as imagens dos documentos.

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