
Ouça este conteúdo
Pouco mais de um dia após o governo brasileiro negar os vistos de entrada de dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos, o presidente Luís Inácio Lula da Silva publicou um artigo no Washigton Post com críticas fortes a Donald Trump.
Apesar de o próprio Washington Post ter revelado em primeira mão que a missão visava investigar e questionar a confiabilidade do sistema eletrônico de votação brasileiro, o artigo de Lula não cita o caso dos vistos.
O presidente focou a argumentação na recente imposição de novas tarifas comerciais e em divergências geopolíticas.
Tarifaço como “erro estratégico”
No dia 22 de julho, entrou em vigor uma taxação de 25% sobre importações. No dia seguinte, outra sobretaxa de 12,5% também foi anunciada.
Lula disse no artigo as ações norte-americanas colocam Brasil e Turquia entre os países mais tarifados pelos EUA com exceção da China. “Isso ocorre apesar do superávit comercial bilateral dos EUA com o Brasil em bens e serviços, que totalizou US$ 428 bilhões ao longo de 15 anos consecutivos”, escreveu.
Na visão do brasileiro, isso gera distorções em cadeias globais de suprimentos integradas.
“Além de injustas, as novas tarifas representam um erro estratégico: prejudicarão a economia dos EUA e a parceria entre os Estados Unidos e o Brasil. Diversos setores industriais americanos dependem de insumos brasileiros. Alimentos, calçados, têxteis, móveis, autopeças e muitos outros produtos ficarão mais caros para os consumidores americanos”, argumentou.
“Ninguém vai nos derrotar com mentiras”
Lula também relembrou a primeira imposição de tarifas, no ano passado, em 50%, dando a entender que motivos de divergência político-ideológica provocaram o tarifaço:
“O primeiro parágrafo (da carta que justificava o caso) mencionava o ex-presidente Jair Bolsonaro — que foi condenado no ano passado por tentativa de golpe de Estado no Brasil e está atualmente em prisão domiciliar — deixando explícita a motivação política por trás da medida”, relembrou.
Ele também fez uma provocação, destacada como título do artigo: “Ninguém vai nos derrotar com mentiras”. A frase foi uma cutucada a Marco Rubio, secretário de Estado de Trump:
“As tentativas de impor restrições ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não irão prevalecer. Nunca antes um secretário de Estado dos EUA declarou que o Brasil não é amigo dos Estados Unidos. Ninguém nos derrotará com mentiras”, escreveu Lula.
O que o artigo de Lula diz sobre crime organizado
Lula também defende que o caminho para superar os problemas do continente americano passa pela união de forças em iniciativas concretas de investimento, comércio e combate ao crime organizado. Ele classifica essa cooperação como uma prioridade indispensável para o hemisfério.
“Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é a guerra contra a fome, a pobreza e a desigualdade. E as únicas armas que devemos usar são o investimento, a transferência de tecnologia e o comércio justo e equilibrado”.
A menção é uma clara referência à decisão do governo de Donald Trump classificar as maiores facções do narcotráfico brasileiro como organizações terroristas estrangeiras.
Na oportunidade, o presidente brasileiro criticou publicamente a decisão por argumentar que tais grupos buscam o lucro financeiro em vez de mudanças políticas. Críticos chegaram a dizer que a classificação representa uma “ameaça à soberania” e risco de “intervenção militar” no país.
Desfecho do artigo de Lula
O chefe do Executivo brasileiro também defendeu que a América Latina não necessita de demonstrações de força militar ou de medidas de cunho protecionista, mas sim de parceiros comerciais.
Embora evite debater diretamente a polêmica dos vistos e da suposta “missão eleitoral” detalhadas pelo próprio Washington Post dias antes, Lula encerra o artigo com tom que parece se conectar ao caso:
“Estamos prontos para continuar o diálogo aberto e construtivo, como exige a relação entre dois países como o Brasil e os Estados Unidos. Mas o destino do Brasil cabe somente aos brasileiros determinarem — sem interferência estrangeira ou subserviência”.






