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A federação formada entre os partidos União Brasil e Progressistas (PP) enfrenta sua primeira "rebelião interna" às vésperas do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que pode validar a aliança para as eleições de 2026.
O movimento foi iniciado pelo deputado federal Mendonça Filho (União-PE), que pediu oficialmente o cancelamento do registro da federação — chamada de União Progressista — alegando impasses políticos e divergências regionais.
Em ofício encaminhado ao presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, o parlamentar defende que a Executiva Nacional da sigla avalie, com urgência, a viabilidade da aliança.
“A federação sequer foi referendada pelo TSE e já agoniza em meio a entraves regionais, conflitos e indefinições em vários estados, inclusive em Pernambuco. Esse cenário prejudica a organização eleitoral, dificulta a formação de chapas competitivas e coloca em risco a própria estabilidade partidária”, afirmou.
O pedido ocorre às vésperas do julgamento no TSE que pode validar a federação, marcado para a próxima quinta-feira (26). Para ter efeito já em 2026, a aprovação precisa ocorrer até 4 de abril. O processo está sob relatoria da ministra Estela Aranha.
Na semana passada, o Ministério Público Eleitoral emitiu parecer favorável à criação da aliança. O vice-procurador Alexandre Espinosa avaliou que os requisitos formais foram cumpridos, embora tenha sugerido ajustes no estatuto.
O parecer também rejeitou o questionamento do partido Unidade Popular sobre possível confusão na identidade visual da federação.
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Impasse político em Pernambuco pressiona Federação
A divergência envolve diretamente o cenário eleitoral em Pernambuco. Aliado da governadora Raquel Lyra, Mendonça defende que a federação apoie a reeleição da chefe do Executivo estadual.
Antes de pedir o cancelamento da federação, o deputado solicitou um posicionamento das direções nacionais do União Brasil e do Progressistas sobre o impasse político no estado. O Progressistas é presidido nacionalmente pelo senador Ciro Nogueira.
De acordo com Mendonça, o próprio estatuto da federação prevê que divergências estaduais sejam resolvidas pelas instâncias nacionais. O artigo 27 do documento estabelece que impasses regionais devem ser submetidos à deliberação das direções nacionais.
“Se há divisão no âmbito estadual, nada mais adequado do que cumprir o estatuto e submeter a decisão à direção nacional. Isso dará clareza política e estratégica à atuação da federação em Pernambuco e permitirá melhor organização do processo eleitoral no estado”, afirmou.
"Rebelião interna" ganha corpo em outros estados
A Gazeta do Povo apurou que a contestação sobre a federação não se limita a Pernambuco. Além de Mendonça Filho, o senador Laércio Oliveira (PP-SE) afirmou que a federação “não deveria existir” e criticou a falta de clareza da proposta.
“Eu não sei se é uma federação, se é um sindicato ou se é uma associação. Está muito confusa a situação. Acho que o casamento já vai começar ruim, isso se começar”, disse o parlamentar.
Oliveira ainda apontou indefinições sobre o posicionamento nacional da federação, especialmente em relação à disputa presidencial de 2026.
Na mesma linha, o deputado federal Dr. Luiz Ovando (PP-MS) também expôs resistência à aliança. Segundo ele, desde o início houve dúvidas sobre os benefícios da federação para os partidos. “Não me convenci do real valor benéfico para o PP e, em alguns casos, naturalmente, para o União”, disse.
Ovando relatou que há conflitos em diferentes estados e citou problemas no Paraná e no Mato Grosso do Sul, além de disputas mais intensas no Nordeste. “Há alguns estados em que os dois partidos são praticamente oposição entre eles, principalmente no Nordeste”, declarou.
No Mato Grosso do Sul, o deputado afirma que a federação também levanta dúvidas, ainda que o cenário local seja menos conflituoso do que em outros estados. Segundo ele, o Progressistas tem maior presença política que o União Brasil no estado e mantém uma atuação considerada estável sob a liderança da senadora Tereza Cristina.
Apesar disso, Ovando avalia que a aliança pode gerar desequilíbrios e não trazer ganhos concretos, reforçando a percepção de que, mesmo onde há menor tensão, a federação não é vista como vantajosa por parte das lideranças locais.
Diante dos possíveis conflitos de interesse entre os partidos, Ovando defendeu o fim da federação e criticou os argumentos que sustentam a aliança. “Quando a gente debate, sempre aparece a questão de menos candidatos e mais dinheiro. Essas variáveis não me seduzem”, disse.
Nos bastidores, a indefinição preocupa lideranças das duas siglas, especialmente com a proximidade da janela partidária e das articulações para 2026.
A federação, que obrigaria União Brasil e Progressistas a atuarem de forma conjunta por quatro anos, ainda não tem consenso interno consolidado.
Procurada, a assessoria do União Brasil informou que não haverá manifestação sobre o assunto. A Gazeta do Povo também procurou a assessoria do senador Ciro Nogueira (PP-PI), mas não obteve retorno.
Até o momento, parlamentares e dirigentes da federação ainda não apresentaram uma posição unificada diante das divergências expostas publicamente.
Analista explica cálculo eleitoral e risco de deserções
Para o analista político Alexandre Bandeira, a crise entre os dois partidos expõe uma contradição do modelo de federações. Segundo ele, embora a nova formação aumente o acesso ao fundo partidário, pode reduzir o desempenho eleitoral de partidos grandes.
“A matemática eleitoral, individualmente, poderia garantir mais parlamentares do que federados, embora a federação amplie os recursos disponíveis”, avalia.
Bandeira aponta que o principal interesse das direções partidárias está no aumento do fundo eleitoral, e não necessariamente no desempenho político das siglas.
Com a proximidade da decisão do TSE e o fechamento da janela partidária, o analista prevê movimentações estratégicas. “Os parlamentares farão as contas e podem migrar para partidos mais seguros eleitoralmente, o que pode provocar rearranjos antes da definição das chapas.”
Maior força política em jogo
A criação da federação entre União Brasil e Progressistas foi articulada diretamente pelas cúpulas nacionais das duas siglas — lideradas por Ciro Nogueira e Antônio Rueda - com foco na formação de uma “superfederação” capaz de concentrar poder político, ampliar bancadas e maximizar o acesso ao fundo eleitoral.
Se validada, a federação pode se tornar a maior força política do país. A aliança reuniria:
- 103 deputados federais;
- 12 senadores;
- cerca de 1,3 mil prefeitos.
Os partidos projetam acesso a aproximadamente R$ 900 milhões do fundo eleitoral.
O desenho, no entanto, avançou com pouco espaço para negociação com diretórios estaduais, que são justamente onde se concentram as disputas locais por alianças e candidaturas.
Esse modelo mais centralizado já começou a produzir efeitos práticos. Nos bastidores de Brasília, há movimentação de parlamentares que avaliam deixar as siglas diante da incerteza sobre a federação e do receio de perder espaço político em seus estados.
Partidos como PL e Republicanos passaram a mirar quadros do União Brasil na Câmara, aproveitando o período da janela partidária para atrair nomes insatisfeitos e reorganizar suas bancadas.










