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Uma das empresas citadas pela Polícia Federal por supostamente pagar servidores do Banco Central para fornecerem informações privilegiadas a Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, tem seu proprietário como sócio de uma outra companhia que opera doações a uma organização não governamental na África que tem a filha do banqueiro como embaixadora.
Uma apuração publicada nesta sexta (6) pelo jornalista Cláudio Humberto em veículos de imprensa que reproduzem sua coluna aponta uma ligação entre o empresário Leonardo Augusto Palhares, da Varajo Consultoria Empresarial, com a organização não governamental Fundação Solar através da “Sociedade Organizada Spread of Love and Respect”, da qual ele aparece como sócio-administrador, e que tem a filha de Daniel Vorcaro, Stella Vorcaro, como embaixadora. Os dados foram confirmados pela Gazeta do Povo em registros públicos.
A própria ong utiliza uma conta no liquidado Banco Master para receber doações. A entidade e Stella Vorcaro não são investigados pela Polícia Federal nesta fase da apuração..
A Gazeta do Povo procurou a Fundação Solar para se pronunciar sobre a apuração e aguarda retorno.
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Segundo o relatório da Polícia Federal que levou à deflagração da terceira fase da operação Compliance Zero, na última quarta (4), dois servidores do Banco Central recebiam propina por serviços de “consultoria” prestados a Vorcaro através da Varajo Consultoria Empresarial, de propriedade de Palhares, formalmente citado na investigação.
Registros públicos apontam que ele é sócio-administrador da Sociedade Organizada Spread of Love and Respect, que recebe doações para a ong Fundação Solar desenvolver ações de educação na África, mas sem citar expressamente em quais países atua. Apenas nas redes sociais há citações de supostos projetos apoiados no ano passado na República Democrática do Congo.
A empresa foi aberta no dia 10 de fevereiro de 2025 já em meio às dificuldades de liquidez do Banco Master, e apenas dois meses depois de Daniel Vorcaro pedir algum tipo de ajuda ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao então diretor de Política Monetária do Banco Central, Gabriel Galípolo, que viria a se tornar presidente da autarquia em janeiro, em uma reunião no Palácio do Planalto fora da agenda oficial articulada pelo ex-ministro Guido Mantega, que prestava consultoria a ele.
Lula respondeu, em uma entrevista recente, que Vorcaro relatou “perseguição” de gente “interessada em derrubar ele”, e que determinou ao Banco Central uma investigação técnica. A apuração acabou descobrindo que dois servidores de carreira trabalhavam pelos interesses do banqueiro dentro da autoridade monetária, e foram afastados dos cargos na operação desta semana.
Palhares é, ainda, sócio da Super Empreendimentos e Participações S.A., outra empresa apontada pela Polícia Federal como operadora de pagamentos aos integrantes da “milícia privada” montada por Daniel Vorcaro para monitorar, ameaçar e coagir seus desafetos através do grupo de mensagens “A Turma”. A investigação aponta que a sócia dele no negócio, Ana Cláudia Queiroz de Paiva, também “atuou na operacionalização de movimentações financeiras relacionadas às atividades desenvolvidas por integrantes do grupo investigado”.
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Ong na África
Já a ong Fundação Solar afirma em seu site que trabalha para “fortalecer a educação em comunidades vulneráveis da África” e que nasceu da “iniciativa” de Stella Vorcaro.
“Uma jovem de 16 anos que, após atuar como voluntária no continente africano, decidiu fundar uma organização para levar recursos e oportunidades a quem mais precisa”, afirma a apresentação com uma imagem de Stella com uma criança no colo.
A imagem aparece junto da legenda “Stella Vorcaro estruturou a Fundação para atuar como elo entre doadores e projetos educacionais na África. Hoje, ela segue como nossa maior embaixadora”. “Buscamos formar parcerias estratégicas que impulsionem mudanças profundas e sustentáveis nas comunidades com as quais trabalhamos”, completou.
Embora a ong afirme que Stella Vorcaro estruturou a Fundação Solar, o registro público da Sociedade Organizada Spread of Love and Respect não a cita em seu quadro societário. A sede da empresa, na cidade de Belo Horizonte, está localizada em um complexo empresarial de alto padrão na Zona Sul.
Em seu site, a ong afirma atuar em seis pilares voltados à educação, saúde, tecnologia, formação de lideranças, cultura e infraestrutura. Há apenas um projeto apresentado, o “Messages of Love”, que diz prestar assistência material a “crianças de comunidades afetadas pela guerra civil” e que convida doadores a gravar mensagens de até 60 segundos direcionadas aos atendidos.












