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Transparência zero

Lula amplia sigilo sobre informações de interesse público e quebra promessa de campanha

Governo Lula nega mais pedidos de informação por sigilo do que Bolsonaro. (Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil)

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Apesar do discurso em defesa da transparência, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliou o uso do sigilo em 2025 na rejeição de pedidos da Lei de Acesso à Informação (LAI). Cobrado, reagiu de forma dura a críticas de organizações independentes.

Dados oficiais mostram que quase 40% dos indeferimentos foram justificados por sigilo, enquanto o Palácio do Planalto entrou em confronto público com a Transparência Internacional após questionamentos sobre a transparência em obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

A média de indeferimentos nos três primeiros anos do atual governo chegou a 32,2%, quase cinco pontos percentuais acima dos 27,3% registrados no mesmo período da gestão Jair Bolsonaro (PL), conforme levantamento obtido pelo Estado de S. Paulo.

Os números se agravaram em 2025. Apenas no último ano, foram 10.824 pedidos negados, o maior volume desde 2020. Além do aumento das recusas, houve piora nos indicadores de eficiência: o tempo médio de resposta subiu para 13,9 dias, o maior intervalo desde 2018, segundo os dados analisados pelo jornal. O dado contrasta com o discurso oficial de fortalecimento da transparência e racionalização dos processos administrativos.

Nos últimos meses, o governo Lula colocou sob sigilo informações relacionadas a gastos da Presidência da República, despesas e viagens da primeira-dama Janja da Silva, uso do cartão corporativo, deslocamentos oficiais e gastos associados a eventos internacionais, como a COP 30 — incluindo estruturas de alto padrão. Ao mesmo tempo, a Receita Federal ampliou a fiscalização sobre movimentações financeiras da população, com monitoramento mais rigoroso de transações via Pix e pagamentos por aproximação.

Para críticos, o contraste evidencia uma assimetria clara: o Estado amplia o controle sobre o cidadão enquanto restringe o acesso a informações sobre o uso de recursos públicos.

Parlamentares da oposição afirmam que o cenário representa um abandono explícito das promessas de campanha. Em 2022, Lula se comprometeu a encerrar a prática de sigilos excessivos e a restaurar a transparência como regra da administração pública. Três anos depois, deputados dizem que ocorreu o oposto.

“Desde que assumiu, Lula transformou a transparência em piada de mau gosto. Sigilo em dezenas de milhões no cartão corporativo, R$ 2,5 bilhões em honorários da AGU, voos da FAB com ministros do STF e Janja, além de 16 milhões de documentos do TransfereGov. É o governo mais opaco e arrogante da história recente”, afirmou o deputado de Santa Catarina Alex Brasil (PL).

O deputado federal Bibo Nunes (PL-RS) cita um episódio emblemático. “O MPF arquivou o inquérito que apurava o sigilo sobre despesas de Lula, Janja e visitas de familiares ao Planalto. O detalhe que escancara tudo é que a própria fundamentação do arquivamento foi classificada como sigilosa. O objeto investigado ficou oculto — e as razões para encerrar o caso também. Transparência zero”, afirmou.

CGU rebate críticas e aponta índices superiores aos governos anteriores

Em nota enviada à reportagem, a CGU sustenta que o governo Lula mantém alto nível de atendimento aos pedidos de acesso à informação e indicadores superiores aos observados em anos anteriores. Segundo o órgão, em 2025, 73,61% dos pedidos foram atendidos, com média próxima de 74% entre 2023 e 2025 — acima do histórico do governo anterior, que chegou ao ponto mais baixo de 58,98% em 2020 e não superou 72,5% em 2022.

A diferença entre os números está no critério de aferição. A CGU considera como “acesso concedido” todo pedido que recebeu algum tipo de resposta, incluindo acesso parcial, redirecionamento ou orientação ao cidadão. Já os levantamentos que apontam recorde de negativas analisam especificamente os indeferimentos formais, ou seja, a informação que o cidadão pediu foi negada pelo governo, sobretudo sob a justificativa de sigilo.

A Controladoria afirma que as negativas seguem critérios legais. “É dever dos órgãos públicos garantir o princípio da máxima transparência, mas também proteger informações cuja divulgação possa apresentar riscos à sociedade ou ao Estado, além de resguardar sigilos previstos em outras leis, como o sigilo fiscal e bancário”, informou.

Segundo a CGU, as negativas baseadas em sigilos previstos em legislação específica representaram, em média, 1,74% dos pedidos entre 2023 e 2024, percentual que subiu para 2,64% em 2025. O órgão atribui essa elevação a um fator atípico: 967 pedidos repetidos, feitos por um mesmo requerente, solicitando extratos do PIS/Pasep de diferentes cidadãos — informações protegidas por sigilo bancário. Sem esses pedidos, o índice cairia para 1,88%.

Já as negativas fundamentadas em hipóteses de sigilo previstas na própria LAI corresponderam, segundo a CGU, a 0,54% dos pedidos respondidos em 2025 — o segundo menor percentual da série histórica dos últimos dez anos. O órgão também destaca que, desde setembro de 2024, deixou de existir a presunção automática do “sigilo de 100 anos”, que passou a exigir justificativa específica. Entre junho e dezembro de 2025, apenas 83 pedidos — cerca de 0,1% do total — receberam esse tipo de classificação.

Em termos proporcionais, o uso do chamado “sigilo de 100 anos” no governo Lula é menor do que nos períodos finais do governo Jair Bolsonaro, quando a classificação centenária passou a ser aplicada de forma ampla e automática a pedidos envolvendo dados pessoais, inclusive em casos de interesse público evidente. A diferença, porém, está menos na quantidade absoluta e mais no contexto político: enquanto o governo atual reduziu a presunção automática do sigilo após a edição de norma da CGU em 2024, manteve a prática de restringir informações sensíveis e ampliou o embate institucional com órgãos de controle e organizações da sociedade civil. 

Especialistas veem uso político do sigilo e ataque ao controle social

Apesar do contraponto técnico apresentado pela CGU, especialistas em transparência afirmam que os números não podem ser analisados isoladamente. Cristiano Pavini, coordenador de projetos da Transparência Brasil, avalia que os dados brutos não encerram o debate. “Com base apenas nesses números, não é possível afirmar se há retrocesso automático, pois seria necessário analisar cada negativa. No entanto, a LGPD tem sido usada, inclusive neste governo, como pretexto para negar acesso a informações que deveriam ser públicas”, afirma.

O tom se agrava quando o foco se desloca da burocracia para a postura política do Executivo. A reação da Casa Civil a um relatório da Transparência Internacional, que apontou fragilidades na transparência do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), foi vista por analistas como um marco. Em nota oficial, o governo atacou a credibilidade da ONG, questionando sua metodologia e sugerindo motivações políticas.

Para Pavini, a resposta ultrapassou os limites institucionais. “A nota foi absurda. Atacaram o mensageiro, em vez de responder à mensagem. Questionar metodologia é legítimo, mas isso deve ocorrer de forma racional e propositiva. A reação intimidatória configura um ataque ao controle social”, disse.

Na mesma linha, Juan Carlos Arruda, diretor-geral do Ranking dos Políticos, afirma que o aumento das negativas não pode ser tratado como ajuste administrativo. “Quando um governo eleva de forma consistente as recusas e ampara quase 40% delas em alegações de sigilo, estamos diante de um movimento político consciente. A LAI foi criada para romper com a cultura do segredo estatal. O retorno do sigilo como regra disfarçada de exceção representa retrocesso institucional”, afirma.

Arruda avalia que o uso recorrente do sigilo revela uma escolha clara. “Transparência não é favor, é dever constitucional. O sigilo como escudo indica concentração de poder, redução do escrutínio e desconforto com a fiscalização. Governos seguros não temem a luz”, disse.

Sobre o embate com a Transparência Internacional, o diretor do Ranking dos Políticos alerta para riscos sistêmicos. “Atacar uma ONG de controle não é apenas erro político, é ataque à arquitetura democrática. O governo desloca o debate do mérito para a desqualificação moral. O recado à imprensa e à sociedade civil é claro: questionar terá custo. Isso gera autocensura, inibe denúncias e enfraquece os freios e contrapesos”, afirma.

Segundo ele, a hostilidade à fiscalização normaliza a opacidade e fragiliza o controle externo. “Um governo que reage com agressividade à crítica não está defendendo a democracia. Está testando seus limites.”

Oposição acusa blindagem política e cobra reação do Congresso

O líder da minoria na Câmara, deputado Gustavo Gayer (PL-GO), afirma que o cenário exige reação institucional. “Quando um governo entra em confronto direto com uma das principais organizações internacionais de controle, isso acende um alerta vermelho para qualquer democracia. Transparência não é favor do Estado, é obrigação legal. O que vemos é opacidade institucional e redução deliberada do controle social”, disse.

Gayer defende uma atuação mais incisiva do Congresso. “Temos instrumentos constitucionais, mas frequentemente há manobras para blindar autoridades quando chegamos perto da verdade. Defendo que todas as negativas por sigilo sejam auditadas, especialmente quando envolvem contratos, convênios e políticas públicas de grande impacto financeiro”, afirmou.

Na avaliação do parlamentar, o uso recorrente do sigilo é estratégia política. “Em programas bilionários como o PAC, restringir acesso a contratos, critérios e fluxos de recursos impede a fiscalização, aumenta o risco de desperdício e blinda agentes do Estado. Isso cria assimetria de informação e enfraquece o controle democrático”, disse.

A reportagem procurou o Palácio do Planalto e parlamentares da base governista para comentar as críticas e o embate com a Transparência Internacional. Até o fechamento deste texto, não houve resposta.

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