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Eleições 2026

Lula endurece o discurso eleitoral contra a ligação de Trump e a direita brasileira

Donald Trump, Eleições no Brasil
Alinhamento político entre Trump e família Bolsonaro ocorre desde o primeiro mandato dele na Casa Branca. (Foto: EPA/Michael Reynolds)

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e aliados endureceram suas falas nacionalistas e antiamericanas nos últimos dias, tendo ações de Donald Trump como alvo e a direita brasileira como associada do presidente americano. Analistas veem nisso a estratégia para reposicionar o debate eleitoral e recuperar ganhos políticos quando Trump impôs tarifas ao Brasil.

No último fim de semana, vozes da esquerda como o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) e ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, acusaram o pré-candidato Flávio Bolsonaro de supostamente oferecer "as riquezas e o futuro do povo brasileiro a uma potência estrangeira em troca de apoio". Eles criticavam uma fala do senador na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) de que o Brasil poderia vender minerais conhecidos como terras raras para os Estados Unidos.

Em discursos em São Paulo na semana passada e no 1º Fórum de Alto Nível Celac-África, em Bogotá (Colômbia), no dia 21, Lula criticou as intervenções de Trump na Venezuela, Cuba e Irã, acrescentando que as riquezas minerais da América Latina estão na mira dos Estados Unidos. “Estão querendo de novo nos explorar, agora com minerais críticos”, disse.

No mesmo período, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, líder histórico do PT, retomou o discurso de intervenção americana nas eleições brasileiras. No último dia 15, durante evento que celebrou seus 80 anos em São Paulo, Dirceu afirmou que uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na corrida ao Palácio do Planalto faria o Brasil ser “governado por Trump”.

Nos EUA, Flávio Bolsonaro rechaça interferência externa nas eleições

Analistas enxergam nessa movimentação do campo governista a tentativa de mobilizar a base eleitoral da esquerda, resgatar o discurso nacionalista que marcou a publicidade oficial desde a segunda metade do ano passado, além de buscar o apelo popular contra o que descreve como perigos de influência de maior potência econômica e militar no processo político brasileiro.

Flávio Bolsonaro também afirmou, durante discurso na conferência conservadora CPAC, realizada no Texas no sábado (28), que o Brasil não deve sofrer qualquer tipo de interferência estrangeira em seu processo eleitoral. Ao se dirigir ao público americano, ressaltou a importância da soberania nacional e defendeu que as eleições brasileiras sejam conduzidas só pelos brasileiros.

Na fala, Flávio fez referência direta ao que considera ter sido atuação indevida da administração de Joe Biden em 2022, sugerindo que houve influência política dos Estados Unidos no ambiente eleitoral brasileiro. Sem detalhar ações, o senador afirmou que esse tipo de postura não deve se repetir, reforçando o apelo para que o governo americano adote neutralidade.

Eventual apoio de Trump a Flávio Bolsonaro traz vantagens e riscos

O bloqueio, pelo governo brasileiro, da visita de Darren Beattie — assessor do presidente americano Donald Trump, que foi impedido de entrar no Brasil no dia 13 e visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — abriu uma nova frente de tensão entre Brasil e Estados Unidos, com especial foco na eventual atuação da Casa Branca nas eleições presidenciais.

O episódio também evidencia, segundo pesquisa de opinião (veja abaixo) e avaliações de analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, os riscos e oportunidades para a direita no país diante da movimentação de Trump. Esses possíveis desdobramentos estão condicionados aos tipos de gestos políticos que o americano venha a adotar.

Enquanto Lula reforçava o discurso nacionalista da pré-campanha à reeleição, o seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontava exagero nas reações do governo e ressaltava chances de parcerias com Trump para combater crime organizado e se contrapor a ditaduras. O pano de fundo é o peso do presidente americano nas eleições presidenciais brasileiras.

Visita barrada por Lula inaugura nova crise na relação entre os dois países

Desde a captura de Nicolás Maduro, ex-ditador da Venezuela, governos de esquerda na América Latina têm procurado evitar atritos com Washington. O Brasil, contudo, foi no rumo oposto, movido por um cálculo eleitoral de Lula e pela intenção de explorar o peso único e estratégico do país na região.

Beattie, assessor de Trump para temas ligados ao Brasil, planejou vir ao país para negócios e conversas. A visita a Bolsonaro na prisão foi até liberada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), mas depois o ministro recuou porque o Itamaraty apontou “ingerência externa em ano eleitoral”.

O episódio ganhou dimensão ainda mais tensa quando Lula decidiu revogar o visto de Beattie. O presidente disse publicamente que o americano não poderá entrar no Brasil enquanto o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e a família dele não recuperarem o visto de acesso ao território americano.

Impasse diplomático já foi incorporado pela corrida presidencial

A crise do veto de Lula ao assessor de Trump foi logo incorporada à disputa eleitoral. Flávio Bolsonaro classificou a reação do governo e do STF como “paranoia” sobre interferência externa e frisou que o diálogo bilateral pode fortalecer ações conjuntas contra o crime organizado e atrair investimentos.

Aliados do senador também avaliam que a aproximação entre a direita do Brasil e Trump pode reforçar o alinhamento do Ocidente contra as ditaduras e o narcotráfico. Washington quer classificar como grupos terroristas as facções PCC e Comando Vermelho, plano rechaçado pelo governo brasileiro. O argumento do governo é que essas facções não teriam motivação política.

Lula, ministros próximos e o Itamaraty apontam a investida contra facções e o episódio da visita de assessor de Trump a Bolsonaro como tentativa de interferência política. Para eles, tais movimentos promovem dúvidas sobre o processo judicial contra o ex-presidente e influenciam o debate eleitoral.

A associação de PCC e Comando Vermelho ao terrorismo abre perspectiva de sanções econômicas e operações internacionais contra facções do Brasil. Para contrapor a Trump, Lula tem consultado presidentes latino-americanos, como os de Colômbia e México.

Pesquisa mostra que apoio explícito de Trump a Flávio teria efeito limitado

Levantamento da pesquisa Quaest, realizada com 2.004 cidadãos em todo país e divulgada semana passada, apontou que 28% dos entrevistados ficariam ainda mais convictos de votar em Flávio Bolsonaro se ele fosse apoiado por Trump. Já 32% dizem que isso os levaria a preferir Lula.

Segundo a pesquisa, o eventual endosso de Trump fortalece a candidatura de Flávio sobretudo entre eleitores já alinhados à direita, mas pode gerar reação negativa nos demais grupos de eleitores, ampliando a rejeição ao candidato. Em suma: a interferência externa teria um impacto limitado ou mesmo negativo.

O levantamento da Quaest está registrado sob o número BR-02551/2026 no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As entrevistas foram realizadas no entre os dias 8 e 11 de março.

Ao UOL, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, disse ter ficado confuso com a suspensão da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), mas aposta no apoio de Trump a Flávio, sobretudo se o senador for eleito. Segundo ele, Trump “quer um governo de direita no Brasil” deve acenar ao projeto presidencial dos Bolsonaro.

Coordenador da pré-campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN) vê aproximação entre Trump e o candidato do PL apenas em casos de "convergência de interesses", minimizando a ideia de intervenção americana no processo eleitoral do Brasil. 

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Apoio explícito de Trump daria munição ao discurso de soberania

Analistas apostam que o exato impacto da participação do presidente americano nas eleições brasileiras depende do tipo de gesto político que adotar. Daniel Afonso Silva, professor de relações internacionais da USP, vê várias formas de atuação externa com efeitos distintos no cenário eleitoral.

Para Silva, pressões indiretas — como cooperação no combate ao crime organizado ou influência sobre setores econômicos — podem ter efeito favorável à direita. Já a manifestação explícita de apoio a candidatos tende a fortalecer reações nacionalistas e o discurso de defesa da soberania.

Silva acrescenta que medidas econômicas contra o país podem provocar consequências inesperadas, a exemplo do recente tarifaço, que fez Lula até recuperar apoio popular. Ele alerta que, devido ao peso político e econômico do Brasil na região, a tendência é que Washington adote cautela diante da disputa eleitoral brasileira.

“Um eventual confronto direto entre Trump e Lula poderia fortalecer o discurso nacionalista da esquerda, transformando a eleição brasileira no palco de um embate entre a soberania nacional e a influência estrangeira”, resume Silva. Essa já é, inclusive, uma das narrativas eleitorais de Lula.

Não por acaso, a visita frustrada de Beattie ao país ganhou mais tensão após se saber da intenção dele de se reunir com Kassio Nunes Marques, ministro do STF e próximo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O rumor respaldou a fala oficial contra tentativa de interlocução política externa.

Arthur Wittenberg, professor de relações institucionais do Ibmec-DF, avalia que qualquer sinal de interferência americana nas eleições deve ser pesado. “Apesar da reprovação em alta de Lula e do avanço de Flávio nas pesquisas, não se sabe até que ponto o apoio de Trump seria um ativo para a oposição”.

Segundo o professor, à primeira vista, o endosso dos EUA poderia dar chance ao discurso de soberania ameaçada. Por outro lado, os avanços de Flávio mostram insatisfação com o governo em alta e persistência do antipetismo. “Isso exige dele moderação no discurso e cautela no alinhamento com Trump, que pode até ajudar na base, mas limitar a expansão entre eleitores independentes”, diz.

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