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Resposta ao tarifaço

Lula mira soberania na reação a Trump, mas reciprocidade pode elevar custos ao Brasil

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Lula aposta na reciprocidade para responder às tarifas de Trump, enquanto setor produtivo alerta para os efeitos de uma escalada comercial. (Foto: Daniel Torok/Casa Branca/Wikimedia Commons)

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O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem apostado no discurso da soberania para reagir às tarifas impostas pelos Estados Unidos. A intenção é mostrar firmeza diante das ações de Donald Trump. Mas, em outra frente, Lula ainda tenta convencer o presidente dos EUA a renegociar a taxação. Exemplo disso foi o telefonema que o petista fez ao republicano, nesta sexta-feira (21), para contestar as tarifas decorrentes das investigações do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).

Lula salientou que as taxas afetam negativamente a economia de “ambos os países” e que manter a mesa de negociação aberta seria a “melhor escolha”. A ligação durou cerca de 1h20min e, segundo o Planalto, teve tom “amistoso e cordial”. Os Estados Unidos não fizeram comentários sobre o telefonema.

Com relação à primeira estratégia, o problema é que uma eventual retaliação também pode ter um custo ainda maior para o Brasil. Produtos e insumos importados dos Estados Unidos podem ficar mais caros, segundo alertas de setores como indústria e agronegócio. 

Desde quinta-feira (13), quando o governo Lula abriu formalmente o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica, entidades como as Federações das Indústrias de São Paulo e de Minas Gerais (Fiesp e Fiemg) e a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) passaram a fazer alertas para os riscos de uma escalada comercial. Para elas, a disputa pode transferir parte do custo para empresas, trabalhadores e consumidores brasileiros.

Ao comentar o acionamento da lei durante uma entrevista para os podcasts "Não Inviabilize" e "As Cunhãs", Lula voltou a elevar o tom ao dizer que vai “vencer os Estados Unidos na narrativa” e que o Brasil foi taxado baseado em uma mentira.

“Lamentavelmente eles estão construindo inverdades contra o Brasil. Nós entramos com a lei de reciprocidade para a gente mostrar que a gente também não é pouca coisa. Nós nos respeitamos”, afirmou o petista.

A decisão do governo pode abrir caminho para uma escalada comercial entre os dois países, já que uma eventual resposta brasileira pode provocar uma nova reação de Washington. 

Em nota, a Fiemg afirmou que “retaliar importações de insumos, máquinas, equipamentos e tecnologias utilizados pela própria indústria brasileira pode aumentar custos de produção, reduzir competitividade e fazer com que o país pague duas vezes pela mesma disputa”.

Estudo realizado pela entidade de Minas Gerais em 2025 estimou que, em um cenário hipotético de sobretaxa recíproca de 50% sobre as importações dos Estados Unidos, a perda para o PIB brasileiro poderia chegar a R$ 259 bilhões, equivalente a 2,21%.

O governo, por sua vez, afirma que a abertura do processo não significa a adoção imediata de novas tarifas. O Brasil notificou os Estados Unidos e solicitou consultas diplomáticas, etapa prevista antes de eventuais contramedidas.

O processo foi aberto em resposta a tarifas de 25% e 12,5% aplicadas pelos EUA a produtos brasileiros, que podem levar a alíquotas totais de até 37,5% em alguns casos.

Setor produtivo teme novo custo para a economia 

Entidades ligadas ao setor produtivo, especialmente da indústria e do agronegócio, têm alertado para os riscos de uma escalada tarifária. 

Uma eventual tarifa brasileira incidiria sobre produtos que entram no país. Dependendo da mercadoria, o custo adicional poderia ser absorvido pelo importador, reduzir a margem das empresas, ou ainda ser repassado ao longo da cadeia produtiva. E, no fim das contas, poderá ser embutido no preço cobrado do consumidor.

O efeito seria especialmente sensível no caso de máquinas, equipamentos, componentes e outros insumos utilizados pela indústria brasileira. Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo também alertaram que uma eventual reciprocidade exigiria um “ajuste fino” justamente para evitar aumento de custos e novos danos à economia brasileira. 

Para a advogada Patrícia Arantes, diretora-executiva da Sociedade Rural Brasileira (SRB), novas tarifas agravariam um problema já enfrentado pelas empresas brasileiras: o elevado custo de produzir e operar no país.

“Todo tipo de tarifa vai ter um impacto grande. A gente já tem um Custo Brasil muito alto. Tudo que eleva esse custo realmente tem um impacto grande para o brasileiro”, afirma. 

Na avaliação dela, empresas que não conseguirem absorver o custo adicional poderão repassar parte dele ao preço final dos produtos. “Querendo ou não, mais retaliação vai diminuir cada vez mais esse poder de compra”, diz. 

Para Patrícia, a reciprocidade tarifária não é a solução mais racional para o conflito. Ela defende uma estratégia baseada principalmente em negociação. 

Entidades empresariais também têm defendido que eventuais contramedidas sejam definidas depois de uma análise detalhada dos produtos atingidos. 

A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), por exemplo, informou que 90,5% das empresas consultadas preferem o aprofundamento da diplomacia com os Estados Unidos, enquanto apenas 3,2% apoiam represálias.

Entidades como a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) também manifestaram preocupação com as “medidas de confronto” anunciadas pelo governo Lula.

Relatora da lei da reciprocidade no Senado pede cautela 

A avaliação de que o governo deve evitar uma retaliação precipitada não vem apenas do setor empresarial.  A senadora Tereza Cristina (PP-MS), que foi relatora da Lei da Reciprocidade no Senado, considera que o mecanismo deve ser usado somente depois de esgotadas as alternativas de negociação.

Em publicação em suas redes sociais, ela defende que o Brasil não deveria acionar a lei antes de intensificar o diálogo com os Estados Unidos. Em entrevista para o Valor Econômico, Tereza Cristina argumentou que uma guerra tarifária pode levar os dois países a um cenário de “perde-perde”.

Segundo ela, o Brasil poderia responder às tarifas americanas, mas também sofreria as consequências de encarecer produtos importados dos Estados Unidos e de deteriorar ainda mais a relação comercial bilateral.

Reciprocidade pode provocar nova reação americana, avalia analista 

Para Renan Hein dos Santos, assessor de assuntos internacionais da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), o problema não termina com uma eventual resposta brasileira. 

Na avaliação dele, uma medida de reciprocidade pode abrir espaço para uma nova reação de Washington. 

A dificuldade, segundo Santos, é prever quais produtos poderiam ser atingidos por uma nova rodada de tarifas. Os Estados Unidos poderiam ampliar as alíquotas sobre mercadorias brasileiras que já foram taxadas. Também poderiam atingir produtos que ficaram fora das medidas anteriores. “É realmente muito difícil saber para que lado vai essa conversa”, afirma.

Ele diz, porém, que poucas pessoas do setor acreditam que uma resposta brasileira não seria seguida por alguma reação dos Estados Unidos. Ele aponta que o cenário é particularmente sensível para o agronegócio. 

“Uma guerra comercial aberta de escalada com os Estados Unidos, como a China fez, não é boa para o Brasil. É um cliente importante para vários produtos do agronegócio”, afirma. 

Santos avalia que a carne bovina poderia encontrar outros mercados com maior facilidade. O mesmo não ocorreria necessariamente com produtos como café e suco de laranja.

Relação com os EUA vai além do atual conflito 

A diretora-executiva da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Patrícia Arantes, chama atenção para outro possível efeito da escalada: o custo estratégico de deteriorar a relação comercial com os Estados Unidos.

Na avaliação dela, a atual crise não deveria apagar a importância de uma parceria construída ao longo de mais de dois séculos. 

Os Estados Unidos continuam sendo um mercado relevante para produtos brasileiros. Isso inclui setores de maior valor agregado. Patrícia cita, por exemplo, a presença de calçados artesanais produzidos no Brasil no mercado americano. 

Para Patrícia, a escalada tarifária pode criar um problema adicional para empresas que já enfrentam as consequências das medidas impostas pelos Estados Unidos. 

Uma empresa exportadora pode perder competitividade com a tarifa americana. Ao mesmo tempo, a deterioração da relação comercial pode reduzir ainda mais as possibilidades de negociação. 

“Quanto mais nós tornarmos um parceiro histórico, confiável e de alto valor agregado em um inimigo do comércio, mais o Brasil perde”, afirma. 

Na avaliação da advogada, o Brasil deveria buscar uma política estratégica para preservar e ampliar relações comerciais sólidas. A preocupação é que o país se torne ainda mais dependente de poucos mercados em um cenário de crescente instabilidade internacional. 

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