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Veto aos EUA

Lula reforça alinhamento com a China e costura saída para convite de Trump sobre Conselho da Paz

Lula Xi Jinping Trump Gaza
Presidente Lula tratou com o presidente da China, Xi Jinping, sobre o convite feito por Donald Trump sobre Conselho de Paz de Gaza (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discute com seus assessores e lideranças internacionais como recusar o convite feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para o Conselho de Paz de Gaza sem causar atrito com Washington. O posicionamento fortalece os laços de Lula com o líder chinês Xi Jinping, que articula uma defesa internacional de instituições já existentes, como a ONU.

O Conselho da Paz é uma iniciativa criada por Trump não apenas para resolver a situação de Gaza, mas para atuar também em outros conflitos internacionais. O presidente americano vem sendo criticado por defender que o conselho pode até substituir as Nações Unidas.

A China e a Rússia dizem oficialmente estudar a proposta, mas têm interesse direto que a ONU não seja substituída por um organismo liderado por Trump. Isso porque Pequim e Moscou têm poder de veto no Conselho de Segurança da ONU. A França, outro país que tem poder de veto por ser membro permanente do órgão, já declarou que não participará do Conselho da Paz.

A maioria dos países não aceitou prontamente o convite de Trump, mas reluta em enfatizar uma negativa para não ter o mesmo destino da França, nação que os Estados Unidos já ameaçaram com novas tarifas comerciais, e do - que teve o convite retirado por Trump quando seu primeiro-ministro, Mark Carney, demonstrou ressalvas sobre a iniciativa.

Fugindo a esse padrão de cautela, o chinês Xi Jinping instigou Lula em um telefonema no último dia 23 a se opor ao conselho de Trump, prometendo ao brasileiro maior apoio e pedindo que os dois países atuem de forma coordenada na preservação do papel central da Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo comunicados divulgados pela mídia estatal chinesa, Jinping afirmou que os dois países devem se manter “do lado certo da história” e atuar como forças construtivas para a estabilidade e a governança globais, com atenção especial à defesa dos interesses do Sul Global (jargão usado para designar países em desenvolvimento).

Não seria a primeira vez que Lula atuaria como porta-voz de Jinping. Desde 2023, Lula vem ressoando publicamente o ponto de vista chinês de que o dólar deve ser desbancado do posto de moeda de comércio global - mesmo em ocasiões em que nem a China opta pelo confronto diplomático com os Estados Unidos.

Mas, em relação ao Conselho da Paz, Lula tem agido com mais cautela e moderado as críticas. O petista conversou com Trump nesta segunda-feira (26) por telefone e, segundo o Palácio do Planalto, o petista deve se encontrar com o norte-americano durante uma visita a Washington, prevista para fevereiro. Até lá, a expectativa é de que o petista mantenha a articulação para tentar declinar do convite sem abrir um impasse diplomático com os EUA.

"Ao comentar o convite formulado ao Brasil para que participe do Conselho da Paz, Lula propôs que o órgão apresentado pelos Estados Unidos se limite à questão de Gaza e preveja assento para a Palestina. Nesse contexto, reiterou a importância de uma reforma abrangente da Organização das Nações Unidas, que inclua a ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança", disse o governo brasileiro por meio de nota.

Lula também conversou com Macron nesta terça-feira (27) e os dois criticaram o Conselho da Paz proposto por Trump. Eles defenderam o fortalecimento da Organização das Nações Unidas e o respeito aos mandatos do Conselho de Segurança e à Carta da ONU. Segundo o Palácio do Planalto, a conversa durou cerca de uma hora e incluiu avaliações sobre a agenda internacional e os riscos de iniciativas unilaterais em temas de paz e segurança global.

Na ligação, Lula e Macron também condenaram a ação militar dos Estados Unidos que resultou na prisão do ditador venezuelano Nicolás Maduro, classificando o uso da força como uma violação do direito internacional. Além disso, o presidente brasileiro reiterou os benefícios do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, apesar da resistência francesa, e destacou o interesse em ampliar a cooperação bilateral entre Brasil e França nas áreas de defesa, ciência, tecnologia e energia, com a meta de concluir novos acordos ainda no primeiro semestre de 2026.

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Diplomacia brasileira vinha optando por visão multilateral e de apoio à ONU

Segundo o professor Rafael Pons Reis, doutor em Sociologia Política e docente do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Internacional Uninter, a defesa explícita da centralidade da ONU feita por Xi Jinping converge com a tradição diplomática brasileira.

“Para países como o Brasil, o multilateralismo não é apenas um valor normativo, mas um instrumento de proteção contra soluções unilaterais impostas pelas grandes potências”, diz.

Apesar disso, Lula nunca criticou enfaticamente o ditador russo Vladimir Putin por ter bombardeado e iniciado uma invasão militar de larga escala na Ucrânia, em 2022, ao invés de trabalhar pela resolução de controvérsias na ONU. O petista chegou a dizer que a Ucrânia também era culpada por ter sido invadida, embora Kyiv nunca tenha atacado Moscou.

Segundo o internacionalista Rafael Moredo, coordenador de políticas públicas do Livres, movimento político que defende liberalismo econômico e direitos individuais, a articulação chinesa combina princípio e interesse. “Ao defender a ONU, Pequim envia um recado geopolítico, mas também fortalece coalizões em um momento de tensão com Washington. O Brasil é um interlocutor-chave nessa equação”, avalia.

Lula aciona Brics e aliados antes de responder a Trump

Lula não conversou apenas com Xi Jinping. Na quinta-feira (22), praticamente toda a agenda presidencial foi dedicada a telefonemas com lideranças internacionais, como parte de uma estratégia do Palácio do Planalto para ampliar o lastro diplomático antes de qualquer posicionamento definitivo. Logo pela manhã, Lula conversou com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, atual presidente do Brics (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos).

Cabe à Índia convocar uma eventual reunião extraordinária do bloco caso os países do Sul Global decidam articular uma posição conjunta diante da iniciativa americana. Segundo o governo brasileiro, Lula e Modi trataram da situação em Gaza e reafirmaram a necessidade de uma reforma abrangente da ONU e de seu Conselho de Segurança.

A reforma do Conselho de Segurança não é uma pauta apenas dos Brics, mas também de nações pequenas e médias do Ocidente. Um dos mais vocais é o presidente Alexander Stubb, da Finlândia, que defende que o número de membros permanentes do Conselho de Segurança seja ampliado e o poder de veto das potências abolido. Lula em geral advoga pela entrada do Brasil no órgão como representante da América do Sul.

O presidente brasileiro também conversou com o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, sobre as perspectivas de reconstrução da Faixa de Gaza e o compromisso histórico do Brasil com uma solução negociada para o conflito no Oriente Médio. Um dia antes, o tema já havia sido discutido com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

Para o professor Rafael Pons Reis, Lula tem se mostrado contrário à proposta de Trump por enfraquecer o modelo multilateral da ONU. “O Conselho de Paz proposto por Trump tende a enfraquecer o sistema multilateral ao criar uma espécie de ONU paralela, deslocando decisões sensíveis para um arranjo informal liderado pelos Estados Unidos”, afirma.

A posição do presidente brasileiro ganhou contornos mais claros após críticas públicas à iniciativa americana. “Ao invés de a gente corrigir a ONU, que a gente reivindica desde que eu fui presidente em 2003, o que está acontecendo? O presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU e que ele sozinho é o dono”, disse Lula, ao comentar a proposta do chamado Conselho de Paz.

Recusa ao conselho de Gaza expõe dilema da política externa

Nos bastidores do Palácio do Planalto, a avaliação é de que a decisão sobre o Conselho de Paz proposto por Donald Trump vai além de um gesto pontual e expõe um dilema estrutural da política externa brasileira. Aceitar o convite poderia gerar desgaste político interno e comprometer o discurso histórico de defesa do multilateralismo. Recusá-lo, por outro lado, envolve riscos diplomáticos e pode aprofundar tensões com Washington em um cenário internacional já marcado pela rivalidade entre grandes potências.

Para o professor Rafael Pons Reis, a dificuldade enfrentada por Lula é típica de potências médias em um sistema internacional cada vez mais fragmentado. “O Brasil depende do multilateralismo porque ele amplia a capacidade de negociação e protege contra decisões unilaterais das grandes potências. Ao mesmo tempo, quando esse sistema é pressionado ou contornado, como no caso do Conselho de Paz, o país fica diante de escolhas que sempre carregam custos”, afirma.

Segundo o especialista, a iniciativa americana cria uma armadilha diplomática. “Recusar o conselho pode ser interpretado como desalinhamento em relação aos Estados Unidos; aceitá-lo significaria endossar uma espécie de "ONU paralela", em contradição com a tradição diplomática brasileira. É um dilema real, não apenas retórico”, diz.

De acordo com o internacionalista Rafael Moredo, o principal risco não está apenas na decisão final, mas na narrativa construída em torno dela. “O custo maior surge se a recusa for percebida como oposição ideológica aos EUA. Por isso, o governo tenta enquadrar a decisão como defesa de legitimidade, regras claras e compatibilidade com a ONU”, avalia.

Moredo ressalta que o Brasil busca preservar espaço de manobra entre Washington e Pequim. “A China pesa muito no cálculo econômico e geopolítico, mas os Estados Unidos continuam centrais em áreas estratégicas. O desafio da política externa brasileira hoje é evitar o alinhamento automático a qualquer um dos polos e não ser capturado pela rivalidade sino-americana”, afirma.

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