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O novo ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto França.
O novo ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto França, tem bom trânsito político.| Foto: Reprodução/YouTube/TV Planeta América Latina

A nomeação de Carlos Alberto França para o Ministério das Relações Exteriores provocou desconfiança devido ao fato de ele não ter experiência de embaixador em outro país e de ter se destacado apenas como chefe do cerimonial do Palácio do Planalto. Mas, dentro do governo, aqueles que o conhecem garantem que o novo ministro do Itamaraty não é um quadro inexpressivo na diplomacia e será capaz de conduzir uma política externa que permita ao Brasil enfrentar a pandemia de Covid-19 – o principal motivo da saída do agora ex-ministro Ernesto Araújo. A expectativa é de que o novo chanceler adote uma diplomacia mais pragmática e menos ideológica que o antecessor, embora alinhada às diretrizes do governo Bolsonaro.

"Ele [França] não caiu de paraquedas, não era alguém de fora [da diplomacia], faz parte do Itamaraty há 30 anos. Ao contrário do que vem sendo dito por alguns, de uma forma um tanto maldosa, não é alguém sem expressividade. Só não foi embaixador no exterior, mas teve outras experiências tão importantes quanto", diz um interlocutor do alto escalão do Ministério das Relações Exteriores.

No governo, a avaliação é de que a escolha de França foi criticada não apenas pela inexperiência dele como embaixador em algum país, mas também pela ligação com o presidente Jair Bolsonaro.

De fato, os dois se tornaram próximos. Na atual gestão, França assumiu a chefia do cerimonial da Presidência da República com aval de Ernesto Araújo. Depois, assumiu a subchefia do gabinete pessoal de Bolsonaro, onde atuou como assessor-chefe da Assessoria Especial da Presidência.

O perfil de França agradou Bolsonaro. "Ele é uma pessoa muito próxima do presidente, com quem Bolsonaro gostava de almoçar e pedia opiniões", afirma um embaixador em missão no exterior que conhece o novo chanceler.

Segundo esse embaixador, profissionalmente o novo ministro das Relações Exteriores demonstra "equilíbrio" e "bom senso". "Ele não destoa... Não sai, digamos, do 'normal', da regra [dos procedimentos do Itamaraty]. Ele é muito atento a isso, um cara muito respeitoso, muito hábil no relacionamento, muito cuidadoso com as coisas. E isso, talvez, o levou a conquistar a confiança do presidente", afirma.

O novo chanceler, segundo um diplomata do alto escalão do Itamaraty que já o conhecia, tem uma característica "importante e essencial". "Tem habilidade no trato com pessoas, sabe ouvir, prestar atenção, dizer as coisas adequadas no momento certo. Enfim, tem sensibilidade política, algo importante no atual momento."

A confiança de Bolsonaro em seu trabalho foi o fator preponderante para ele assumir o Itamaraty, apesar de uma lista com cerca de dez nomes sugeridos para substituir Araújo. Um interlocutor do Planalto, que também conhece França, avalia que ele tem boas qualidades. "Igual ao ex-ministro, é alguém que o presidente possa ter, digamos, controle. Mas é habilidoso, coisa que o Ernesto não era", diz a fonte.

Amigos e colegas de França reconhecem que a figura do chanceler sempre será passível de ser "controlado" pelo presidente da República. E com o novo ministro, não será diferente. Mas eles acreditam que, embora tenda a submeter todas suas ações a Bolsonaro, França será habilidoso e maleável para tomar a iniciativa de apresentar "propostas novas" e "visões diferentes".

Política externa de França vai ser diferente da de Ernesto Araújo?

Diferentemente de Ernesto Araújo, que saiu do Itamaraty acusado pelo Centrão de aplicar uma diplomacia "ideológica", a expectativa dentro do governo é que a política externa defendida pelo novo ministro das Relações Exteriores não tenha exatamente o mesmo perfil. Isso não significa, entretanto, que ele mudará tudo. "Afinal, somos executores da política externa do presidente Jair Bolsonaro", diz um assessor da chancelaria.

As grandes linhas da diplomacia brasileira serão mantidas. Algumas ênfases, contudo, tendem a ser modificadas. "A expectativa é que se mantenha, com adaptações, as grandes linhas da política externa. O que, eventualmente, pode ser alterado, é o formato, o estilo", diz um diplomata do Itamaraty.

Segundo o embaixador em missão no exterior ouvido pela Gazeta do Povo, França é "homem do equilíbrio" e tende a ter uma linha de atuação diferente de Araújo. "Ele está muito longe de qualquer dogmatismo, posição mais radical, de qualquer visão ideológica muito pronunciada. Ele é um homem muito pragmático", diz.

À frente do Itamaraty, a expectativa de embaixadores é de que França adote uma política externa voltada para resolver problemas imediatos, mas que também conduza ações de longo prazo.

Um dos desafios é melhorar a interlocução internacional do Brasil para melhorar o combate à pandemia de Covid-19 – por meio da importação de insumos, remédios, etc. "Precisamos de medicamentos, vacinas, kits de intubação. Vamos procurar, mostrar, informar a Anvisa, autoridades importadoras; Vamos ver o que pode ser feito", sustenta um interlocutor do Itamaraty.

A melhoria do relacionamento com os EUA e a China também é vista como um desses desafios imediatos do novo ministro das Relações Exteriores. Ernesto Araújo era criticado fora do governo por não ter interlocução com os chineses (grandes produtores de insumos para a fabricação de vacinas contra o coronavírus) e com o governo de Joe Biden (o Brasil pretende comprar parte do excedente de vacinas dos EUA).

"Pode ter certeza absoluta de que a China, os EUA e quaisquer outros países terão o maior interesse em colaborar, aproximar, reaproximar e aprofundar as relações com o Brasil, que é um importante player nos organismos internacionais e multilaterais. Certamente o França fará isso e encontrará muita receptividade", diz um embaixador. "As grandes potências agem pelos seus interesses nacionais, e não como pessoas humanas: não ficam com mágoas, rancores, não querem revidar com atitudes."

E a melhoria do relacionamento com essas nações não deve se restringir apenas ao enfrentamento da pandemia. Interlocutores do governo dizem que uma das grandes preocupações é manter relações com todos os países e dar ênfases na área econômica e comercial com EUA, China, União Europeia e países da América do Sul.

Outra linha que França tende a adotar é a intensificação de visitas internacionais de Bolsonaro ao exterior e de chefes de Estado e de governo ao Brasil. "Acho que ele é uma pessoa que vai trabalhar muito em aumentar o número de visitas internacionais que possamos receber e que o presidente possa fazer a outros chefes de Estado", afirma um ministro de primeira-classe, o topo da carreira diplomática.

Bom trânsito político é diferencial do novo ministro das Relações Exteriores

O grande diferencial de Carlos Alberto França em relação a Ernesto Araújo é o trânsito político, dizem os interlocutores ouvidos. A experiência dele como chefe do Cerimonial da Presidência o ajudou a ter bom relacionamento com integrantes dos três poderes. A gestão Bolsonaro não foi a única em que o novo chanceler atuou no cerimonial. Ele também ocupou função semelhante nos governos dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff e Michel Temer.

"Ele tem bom convívio com autoridades do Legislativo, Judiciário e Executivo", afirma um diplomata do Itamaraty. A aposta é de que isso possa melhorar o relacionamento do governo com o Congresso, o Judiciário e com a imprensa.

"Ele saberá, sem dúvidas, estabelecer uma relação muito positiva, atenta. Acho que, além disso, França vai conseguir fazer uma coisa que o Itamaraty não sabe fazer direito, que é negociar na Esplanada", explica um embaixador. "Muitas vezes, o Itamaraty fica prejudicado porque somos bons para negociar para fora, mas quando se trata de negociar dentro do governo, defender as posições da Casa e propor soluções, nós não conseguimos nos articular muito bem."

Um exemplo destacado por interlocutores esperançosos com a articulação de França é a expectativa de reforma na carreira de diplomata. "Acho que ele vai querer fazer mudanças estruturais na carreira, em termos administrativos, rever um pouco a estrutura do Itamaraty, talvez ajustar algumas coisas", diz um diplomata. "Nós não conseguimos nos 'vender' direito e o Itamaraty acaba sendo mal interpretado nas defesas de vários interesses da carreira."

O primeiro teste político do novo chanceler será na Câmara dos Deputados. A Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Casa aprovou na quarta-feira (31) um convite para que França fale sobre as diretrizes da política externa no enfrentamento à pandemia de coronavírus.

O deputado federal Rubens Bueno (Cidadania-PR), primeiro vice-presidente da comissão, avalia que o convite será importante para que França possa explicar o que planeja em sua gestão diante da atual crise sanitária e para que apresente suas credenciais ao Parlamento. "Vamos torcer para que ele venha e apresente um projeto que coloque o Brasil com nível de respeito e responsabilidade", destaca.

Falta de experiência em embaixadas não é vista como problema

O fato de o ministro Carlos Alberto França nunca ter comandado uma embaixada brasileira no exterior não é visto como um empecilho pelos diplomatas ouvidos pela Gazeta do Povo.

Promovido ao posto de ministro de primeira-classe ao fim de 2019, ele atingiu o topo da carreira em serviço no Planalto, mas já serviu em outras missões fora do Brasil.

França passou pelas embaixadas brasileiras nos Estados Unidos, no Paraguai e na Bolívia. Nessas experiências, se dedicou a temas ligados na área comercial como energia e exploração do potencial hidrelétrico, especialmente na relação entre Brasil e Bolívia. Em Brasília, foi chefe da Divisão de Ciência e Tecnologia no Itamaraty.

Diplomatas reconhecem que toda experiência internacional é bem-vinda e o comando de uma embaixada em seu currículo seria um bom acréscimo, mas sustentam que isso não representa uma mácula na carreira. "Não ter essa experiência em uma instituição tão estruturada como o Itamaraty não impede que faça as coisas bem feitas", sustenta um embaixador.

A prova de que França conta com respeito e prestígio entre os demais embaixadores, sustenta um interlocutor do ministro do Itamaraty, é que seu secretário-geral – o "02" da pasta – será o atual embaixador do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA), Fernando Simas Magalhães.

Magalhães é muito respeitado entre os diplomatas e foi embaixador no Equador, chefe no Departamento de África, subsecretário-geral de Assuntos Políticos, e subsecretário-geral de Assuntos Políticos Multilaterais, Europa e América do Norte. Também serviu na delegação brasileira na Organização das Nações Unidas (ONU) e nas embaixadas brasileiras da Espanha, Rússia e dos Estados Unidos.

"O França é muito hábil, negociador, um diplomata bilateral e multilateral. Dará a necessária coesão para a nova equipe que se formará, alguns poderão continuar e outros sairão", diz um interlocutor. "Temos a expectativa de que essa nova gestão possa dar continuidade à anterior, claro, em novas circunstâncias. Pessoas não são iguais, cada um tem suas características, e isso será importante para o Itamaraty e o governo", acrescenta um interlocutor do governo.

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