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Viagens recentes para Brasília de aviões russos conhecidos por transportar autoridades de Moscou voltaram a levantar dúvidas e questionamentos. Elas acontecem cinco meses após a polêmica missão de um cargueiro russo, sancionado pelos Estados Unidos, na capital federal que até hoje não foi explicada pelo governo brasileiro.
Um dos novos aviões em questão é o Ilyushin Il-96-300, de matrícula RA-96023, do Esquadrão de Voos Especiais do Kremlin. Ele esteve em Brasilia entre os dias 29 e 30 de janeiro e chamou atenção de funcionários do aeroporto, influenciadores de redes sociais e órgãos de imprensa. A aeronave saiu de Moscou pela manhã, voou até Casablanca, no Marrocos, seguindo uma trajetória que evita o espaço aéreo europeu, fechado para aviões russos devido às sanções, e depois seguiu até Dacar, no Senegal, de onde agora voa sem escalas até Brasília. O histórico do voo pode ser acessado pelo site FlightRadar.
A Força Aérea Brasileira (FAB) afirmou que a aeronave fazia um voo de apoio a uma visita do primeiro-ministro da Rússia, Mikhail Mishustin, que deve ocorrer na próxima quinta-feira (5). Mishustin é alvo de sanções dos Estados Unidos. A recepção em grande escala dos russos no Brasil ocorre em um momento geopolítico em que os Estados Unidos pressionam países da América Latina para diminuir a influência da Rússia e da China no continente americano.
O pouso de um segundo avião russo foi registrado no dia 1º de fevereiro, às 18h. De matrícula RF-78809, trata-se de um IL-76MD que pertence às Forças Aeroespaciais Russas (VKS). Antes de chegar no destino, em Brasília, o avião pousou em Recife próximo ao horário do almoço, e decolou novamente por volta das 15h45. A aeronave também veio de Moscou e fez paradas na África, num trajeto similar ao anterior.
O clima de desconfiança e especulação sobre esses voos ocorre não só porque a Rússia está envolvida em uma guerra de anexação de territórios da Ucrânia, mas também pelo segredo envolvido na passagem de outra aeronave por Brasília no ano passado que pode esconder relações com Venezuela e Cuba.
A aeronave Ilyushin IL-76, um cargueiro estratégico que pertence à empresa Aviacon Zitotrans, que é alvo de sanções do governo dos Estados Unidos desde 2023 por ter realizado voos com cargas suspeitas para a Venezuela esteve no Brasil entre os dias 10 e 13 de agosto de 2025. Ela seguiu depois para destinos na Venezuela e em Cuba e o motivo de sua missão no Brasil nunca foi esclarecido pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Informações do site especializado em aviação AeroIn, aponta que mais quatro voos realizados por aeronaves da VKS estão previstos ao longo desta primeira semana de fevereiro, podendo totalizar seis voos distintos. O site aponta ainda que as aeronaves podem alternar entre os cargueiros Il-76, Il-96 e até, possivelmente, modelos mais raros em uso diplomático, como os Ilyushin Il-62 e o Tupolev Tu-154, ou até mesmo o gigante ucraniano Antonov An-124 Ruslan.
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Itamaraty prepara evento para receber comitiva russa
A vinda dos aviões russos ao Brasil se justifica, a princípio, pela realização de um evento para promover relações com a Rússia. O evento em preparação pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil é a 8ª Comissão Bilateral de Alto Nível Brasil–Rússia (CAN), que será realizada em Brasília no dia 05 de fevereiro (quinta-feira). O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, vai comandar o evento, pois Lula vai estar na Bahia.
De acordo com nota divulgada pelo Itamaraty, integram a delegação russa oito ministros, três vice-ministros, além de dirigentes de agências, sem especificá-las. Oficialmente, o governo afirma que um dos principais objetivos do evento é o "fortalecimento do comércio, seja pela dinamização do intercâmbio, seja pela diversificação de produtos". A nota do Itamaraty também destaca que serão discutidos temas afetos à cooperação em energia, agricultura, ciência, tecnologia e inovação, cultura, entre outros setores.
O evento deve debater a diversificação da pauta exportadora (indo além de fertilizantes e carnes) e o uso de moedas locais ou alternativas para transações - um dos pontos que mais incomoda os Estados Unidos.
Além disso, serão discutidas parcerias em tecnologia de defesa e o alinhamento de posições para a atuação no bloco BRICS (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos).




