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Após um primeiro ano marcado por embates tanto da oposição quanto do PT com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), as duas principais forças políticas da Casa mudaram seus líderes para a retomada dos trabalhos em 2026, ano eleitoral. A agenda do Legislativo começou nesta segunda-feira (2). Já a troca de líderes é tratada nos bastidores como uma tentativa de recompor o ambiente interno e reduzir a tensão que cercou a gestão do paraibano em 2025.
A avaliação entre líderes partidários é de que o clima de confrontos públicos, obstruções regimentais e disputas por pautas sensíveis elevou o custo político da arbitragem feita pela presidência da Casa. Em 2026, com o calendário eleitoral encurtado e a pressão para entregar resultados, Motta entra no novo ano legislativo tentando reorganizar a largada e pretende evitar que a Câmara repita o ambiente de crise do ano anterior.
Na oposição, a mudança ocorre no comando do bloco liderado pelo PL. Sai o deputado Luciano Zucco (PL-RS) e assume Cabo Gilberto Silva (PL-PB), conterrâneo de Motta. O novo líder afirma que pretende manter a pressão política, mas aposta no diálogo com o presidente da Casa.
“Vamos trabalhar da mesma forma que temos trabalhado até agora. Houve um acordo lá atrás, mas também muita resistência. A oposição não tem maioria: somos cerca de 120 deputados e pouco mais de 20 senadores. Quem tem maioria são os partidos do Centrão”, disse Silva à Gazeta do Povo.
O novo líder da oposição diz ter um bom relacionamento com o presidente da Câmara. “Somos paraibanos e vamos dialogar para que as pautas sejam decididas no plenário”, acrescentou.
No PT, o deputado Lindbergh Farias (RJ), conhecido pelo perfil combativo, deixa a liderança e será substituído pelo catarinense Pedro Uczai, visto como mais conciliador e ligado às pautas da educação — tema de interesse do presidente da Câmara. Lindbergh protagonizou sucessivos embates com Motta ao longo de 2025, cujo ápice ocorreu em novembro, quando o chefe da Casa anunciou publicamente estar rompido com o petista.
Para a cientista política Letícia Mendes, especialista em Legislativo da BMJ Consultores Associados, a troca vai além da rotina anual das bancadas. “O líder é quem conversa com o presidente para negociar prioridades e votações. Ter uma relação mais leve ajuda não só a bancada, mas o funcionamento da Casa como um todo”, explicou.
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Motta tenta reorganizar a agenda e se reaproximar do Planalto
Em paralelo às mudanças nas lideranças, Motta busca reorganizar a pauta e sinalizar disposição para reduzir conflitos. Nesta semana, ele conduziu uma reunião com líderes partidários para definir a largada do ano legislativo e estabelecer um calendário mínimo de votações.
O principal encaminhamento foi priorizar a PEC da Segurança Pública após o carnaval, enquanto o projeto antifacção ficaria para um segundo momento. Na pauta imediata, ficaram duas medidas provisórias caras ao governo — a do programa Gás do Povo e a de renegociação de dívidas de produtores rurais — além da criação do Instituto Federal do Sertão Paraibano, tema de interesse direto do presidente da Casa.
A tentativa de pacificação ocorre num momento em que Motta também ensaia uma reaproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), após um ano em que impôs derrotas relevantes ao Planalto ao entregar relatorias estratégicas à oposição, deixar caducar a Medida Provisória (MP) do IOF e pautar o projeto da dosimetria das penas dos condenados pelos atos do 8 de janeiro de 2023.
A primeira sinalização de reaproximação com Lula foi dada por Motta ainda neste mês, ao afirmar que recebeu com “serenidade” a decisão do presidente de vetar o texto da dosimetria. “Vejo com muita tranquilidade. Esse é um assunto que acabou dividindo o Brasil durante todo o ano de 2025. Agora nós temos que, respeitando a prerrogativa do presidente de vetar, o Congresso também irá, na sua prerrogativa, analisar o veto”, declarou.
Letícia Mendes avalia que a aproximação tem cálculo eleitoral dos dois lados. “O governo precisa hoje mais de Motta para avançar sua agenda no Congresso do que Motta precisa do governo. Mas Motta sabe que estar próximo de Lula pode ajudá-lo na reeleição no estado e a fortalecer seu capital político na Paraíba”, disse.
Oposição vai pressionar por CPI do Banco Master e articulação para derrubar veto à dosimetria
Enquanto faz acenos ao governo, o presidente da Câmara já abre o ano legislativo sinalizando resistências aos pleitos da oposição. Na reunião de líderes, realizada na quarta-feira (28), Motta indicou que não deve instalar neste momento a CPI do Banco Master, apesar de já terem sido coletadas assinaturas suficientes. Também não deu previsão para discutir com o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), a votação do veto ao PL da dosimetria.
“O primeiro ponto é derrubar o veto da dosimetria. Estamos articulando para que, nas primeiras duas semanas, a gente já consiga derrubar o veto”, disse o deputado Gustavo Gayer (PL-GO). Apesar disso, ainda não há sessões do Congresso convocadas, tampouco uma pauta para votação.
Segundo a analista Letícia Mendes, esses assuntos devem se tornar os primeiros grandes testes de força do ano. “A CPI do Banco Master e o veto da dosimetria entram logo no início de 2026, além da negociação em torno das emendas orçamentárias vetadas. São matérias que podem ser articuladas em conjunto para pressionar o governo”, afirmou.
A cientista política também destaca que o calendário curto tende a favorecer pautas de forte apelo eleitoral. “Segurança pública, gás de cozinha e a discussão sobre a escala 6x1 devem ganhar prioridade. São temas que os parlamentares usam para dialogar com seus eleitorados em ano de campanha”, disse.
Para a especialista, Hugo Motta entra em 2026 mais pressionado do que no início da gestão. “É um ano eleitoral, com janela curta para aprovar projetos, e ele ainda não conseguiu deixar marcas fortes da sua presidência. Há uma cobrança para que ele consolide um legado”, avaliou.
Apesar disso, Letícia não vê risco imediato à permanência do deputado no comando da Câmara. “A chance de ele deixar o cargo é muito baixa. O desafio será equilibrar interesses de governo e oposição, alternando pautas e tentando recuperar um consenso que se perdeu em alguns momentos do ano passado”, disse.
A expectativa, segundo ela, é de que o ambiente permaneça polarizado, mas sem repetir a sequência de crises de 2025. “A polarização tende a crescer com a proximidade das eleições, mas não necessariamente no formato de grandes rupturas institucionais. Os parlamentares sabem que travar completamente o Congresso também cobra um preço eleitoral”, afirmou.






