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A vitória democrata nas urnas para a Câmara e o Senado dos Estados Unidos foi um revés político para o republicano Donald Trump e pode afetar indiretamente a direita brasileira. Apesar de o resultado ser ruim para Trump no plano interno, ele não muda a situação dos irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro nos EUA nem o acesso deles à Casa Branca.
A mudança institucional virá em janeiro, quando toma posse o novo Congresso americano. Mas analistas ouvidos pela Gazeta do Povo lembram que a reviravolta parlamentar não levará à extradição dos Bolsonaros. Flávio é senador até fevereiro e nem sequer tem condenação judicial no Brasil. Eduardo Bolsonaro, por sua vez, possui o Green Card, que lhe garante residência permanente nos Estados Unidos.
Diante disso, existe a possibilidade de que uma atuação externa mais intensa de Trump possa até ajudar os dois na disputa pela liderança da oposição a Lula e também a dar destaque para o que ocorre na política brasileira.
Por outro lado, há um efeito indireto sobre a direita brasileira. O resultado da eleição enfraquece o Maga, movimento de Trump resumido na sigla "Faça América Grande Novamente" ("Make America Great Again"), que vem alinhando forças de direita em diversos países. O pilar principal do movimento é Trump e a derrota republicana afeta negativamente todos os aliados internacionais.
O voto dos americanos expressou insatisfação com o custo de vida e a guerra contra o Irã. A derrota atingiu bastiões republicanos, indicando desgaste além da militância adversária. Aliados brasileiros avaliam que a esquerda reagiu nos EUA, se aproveitando do fato de a identidade ideológica da direita ter sido incapaz de barrar cobranças econômicas.
Para especialista, Trump se sentirá até mais à vontade para atuar no exterior
Elton Gomes, professor de Ciências Políticas da Universidade Federal do Piauí (UFPI), avalia que o custo de vida foi o fator mais importante para a derrota de Trump nas eleições de meio de mandato americanas. Ele associa o alto preço dos combustíveis à investida militar dos EUA no Oriente Médio e opina que as promessas frustradas de prosperidade afastaram os eleitores mais atentos ao bolso do que à ideologia.
Gomes entende que o rigor da política migratória também afastou latinos, embora parte desse eleitorado desejasse mais controle nas fronteiras. Sem a maioria na Câmara e Senado, Trump terá dificuldade para aprovar a sua agenda, mas conservará o poder de veto e até ampliará seu espaço na política externa.
Na leitura do professor, obstáculos internos podem levar Trump a uma diplomacia ainda mais assertiva e personalista. A América Latina ganharia atenção na tentativa de recuperar o voto latino em 2028, além do fato de a região ser prioridade do secretário de Estado Marco Rubio. “O apoio à direita brasileira continua, sem implicar intervenção”, diz.
Para Gomes, Flávio e Eduardo Bolsonaro, além do jornalista Paulo Figueiredo, poderão ser chamados a prestar esclarecimentos no Congresso americano dentro do novo contexto de maioria democrata. “Essas iniciativas ainda lhes dariam palco para reforçar denúncias de perseguição política. De todo jeito, o Brasil permanece secundário na pauta dos EUA”, afirma.
Congresso pode aliviar negociações com Lula, mas elimina afinidade de Trump com a direita brasileira
Para Márcio Coimbra, presidente do Instituto Monitor da Democracia, a maioria democrata oferece alívio diplomático ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao reduzir o espaço para iniciativas legislativas de retaliação ao Brasil. Ele entende que o novo Congresso dos EUA favorece negociações bilaterais pragmáticas, mas não elimina a afinidade ideológica entre Trump e aliados brasileiros da direita.
Já Marcus Deois, diretor da consultoria política Ética, evita atribuir o resultado apenas à rejeição às políticas de Trump e destaca o peso do custo de vida.
Na política externa, Trump mantém instrumentos diplomáticos e acordos executivos, mas depende do Congresso para financiar ações. O Senado pesa nos tratados. Assim, os limites podem ser relevantes, mesmo sem mudar o comando da diplomacia americana.
Movimento Maga enfrentará teste de sucessão com horizonte em 2028
O Maga, movimento de Trump resumido na sigla "Faça América Grande Novamente" ("Make America Great Again"), perde força eleitoral com o revés, mas não desaparece. A disputa agora será pela interpretação da derrota: insistir na mobilização da base ou ampliar o diálogo com eleitores afastados. Segundo especialistas, essa tensão poderá acelerar a competição pelo comando do Partido Republicano.
O horizonte decisivo é 2028. A Constituição impede uma terceira eleição de Trump à Presidência, tornando inevitável a disputa pela sucessão. O vice JD Vance terá de defender o legado do governo enquanto busca maioria própria. A derrota legislativa amplia o desafio, mas sem definir o resultado da eleição de dois anos à frente.
Para a direita brasileira, uma eventual vitória democrata em 2028 teria alcance maior, já que mudaria também o comando da diplomacia e das agências federais em 2029. Até lá, o apoio de Trump continua, embora submetido a prioridades americanas e à disputa entre seus potenciais sucessores.




