Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Ouça Essa

Vivendo pior crise da história, STF se derrete em pieguices e autoelogios

Para enfrentar a pior crise em 135 anos, e a desconfiança declarada de 60% dos brasileiros, o Supremo Tribunal Federal resolveu carregar as tintas nos elogios a si mesmo.

Em grande estilo, o presidente da Corte, Edson Fachin, disse se orgulhar de ter retomado o costume de homenagear cada ministro na data de aniversário de ingresso no Tribunal. Nesta semana, a efeméride foram os nove anos da nomeação de Alexandre de Moraes para a Corte.

É como se uma indústria parasse as máquinas, volta e meia, para reunir os funcionários e dar oportunidade de todos tecerem loas e rasgarem elogios aos seus gerentes de área.

Autoelogio de "fazer corar frade de pedra"

No caso do STF, o brinde é proposto por eles mesmos, os ministros, em autoelogios dignos de “fazer corar um frade de pedra” – tomando emprestada a analogia de Gilmar Mendes. Na língua portuguesa, isso se chama cabotinismo: “o comportamento pretensioso, afetado ou vaidoso de quem busca chamar a atenção para si, muitas vezes anunciando qualidades que não possui ou agindo de forma exagerada para obter reconhecimento. Originado no teatro (atores inexperientes ou exagerados), o termo descreve exibicionismo, arrogância e imodéstia”.

Já seria esquisito tanta cabotinice se os tempos fossem de normalidade institucional. Contudo, diante do contexto de ministros do STF envolvidos em contratos, negócios e consultorias milionárias e “ocultas” com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, a autolouvação fica pior na foto. Beira ao deboche dos brasileiros que exigem explicações e correção de rumo.

Para Edson Fachin, Alexandre de Moraes conduziu ações penais relacionadas aos atos de 8 de janeiro com “virtude intimorata”, dando fundamento para colegas decidirem dentro do devido processo legal.

Nada a declarar sobre os abusos de Moraes

Nenhuma palavra sobre as prisões preventivas em massa, sem individualização da conduta; ou sobre o uso irregular de dados biométricos do TSE para identificar rostos e associar perfis em redes sociais a serem bloqueadas; nada sobre condenar réus por supostos crimes de terceiros, alegando “crime multitudinário”; também nada sobre ele ser juiz, investigador, acusador e vítima dos inquéritos. Fachin fez questão de não lembrar ainda das ordens de buscas e apreensões e quebras de sigilo, além de bloqueios de redes sociais, de forma monocrática, em flagrante censura e violação à liberdade de expressão. Seria demais imaginar que ele, sequer, se atreveria a falar da crise atual dos ministros “masterizados” por Daniel Vorcaro.

Na celebração das bodas de cerâmica de Moraes, os 9 anos de “casamento com a Corte”, coube a Gilmar Mendes, o decano da Corte, e a Paulo Gonet, procurador-geral da República, as bajulações mais extravagantes. Gilmar declarou, como já fez em outras oportunidades, que o Brasil tem uma dívida histórica com Alexandre de Moraes. Não bastam os R$ 80 milhões pagos pelo Banco Master ao escritório da mulher dele – valor que virou prejuízo rateado por todo o sistema financeiro – os brasileiros ainda vão ter que pagar mais caro.

Mendes voltou a dizer que Moraes livrou o país do “assédio” de setores que buscavam desacreditar o sistema eleitoral, fazendo questionamentos às urnas eletrônicas. Com o inquérito das fake News, Moraes teria sido alçado por Dias Toffoli (logo ele) à posição de pivô de defesa da democracia brasileira.

Inquérito das fake news: STF vive realidade paralela e disfuncional

“Esse inquérito – das fake News – foi e tem sido grande instrumento, manejado de modo firme, corajoso e irretocável por seu relator, para proteção de nossas instituições contra uma operação sistemática de desinformação e intimidação, orquestrada com o propósito inicial de desacreditar a justiça, vergar o Supremo à vontade de um grupo político e minar as resistências institucionais ao projeto de poder então em marcha”, afirmou Mendes.

É tamanho o distanciamento do STF da realidade, que o ministro Gilmar Mendes chegou a dizer que “o tribunal se orgulha e o o povo brasileiro se tranquiliza por termos vossa excelência como ministro dessa Corte”.

“Vossa excelência com ânimo inquebrantável, já suportou nesses nove anos tantas tribulações em virtude de sua irretocável, proba e sacrificante atuação, terá forças para suportar tantas outras quantas surgirem. Seu espírito público, sua fortaleza moral, permitiram-lhe manter o curso em águas tempestuosas, de modo a não deixar nossa nau à deriva. Vossa Excelência evitou que caíssemos em um abismo autoritário, onde provavelmente ainda estaríamos vivendo tempos sombrios”, afirmou. Com a voz embargada, segurando o choro, Gilmar Mendes emendou: “O Brasil tem uma dívida para com Vossa Excelência, ministro Alexandre, as futuras gerações saberão reconhecê-lo”.

Paulo Gonet vê Moraes "desassombrado, brioso, intrêmulo"

Se alguém viu excesso de pieguice na fala do decano do STF, faltava ouvir as declarações de Paulo Gonet, o procurador-geral da República, a quem cabe zelar pelo cumprimento das leis. “A PGR gostaria de dizer que se associa com grande satisfação às homenagens prestadas por Vossa Excelência, pelo iminente decano, por todo o tribunal, ao iminente ministro Alexandre de Moraes, pelos nove anos de desassombrado, brioso, denodado, intrêmulo e eficiente período de jurisdição nessa Corte”, afirmou.

Obs: Horas antes de todos esses autoelogios e apologias, Daniel Vorcaro havia sido transferido de helicóptero para a Superintendência da Polícia Federal em Brasília, para dar início ao processo de delação premiada. O ministro André Mendonça, relator do caso, já sinalizou que não aceitará uma meia-delação, que eventualmente tente poupar políticos ou ministros do Supremo envolvidos em crimes.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.