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Mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) de celulares do empresário Daniel Vorcaro, obtidas no âmbito das investigações do banco Master, revelaram que o banqueiro fez críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) após uma publicação nas redes sociais relacionada à instituição financeira.
Em conversa privada com sua namorada, a influenciadora Martha Graeff, Vorcaro reagiu com irritação a uma publicação feita pelo ex-chefe do Executivo sobre suspeitas envolvendo o banco.
O diálogo ocorreu em julho de 2024, depois que Bolsonaro, já fora da Presidência, divulgou em sua conta uma reportagem jornalística que tratava de uma operação financeira considerada arriscada, envolvendo cerca de R$ 500 milhões em títulos ligados ao Banco Master. A reportagem citada mencionava que gerentes de uma área da Caixa já na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) haviam sido demitidos após impedirem a concretização do negócio, que foi classificado como “atípico e de alto risco”.
Na publicação, o ex-presidente afirmou que os funcionários teriam sido dispensados justamente por barrar a operação e sugeriu que haveria interesses por trás da situação. “Os senhores não leram errado. Impediram de acontecer e foram DEMITIDOS. Não é mais questão de todo dia, mas sim a cada hora. Por isso o sistema está agindo com tanto afinco em suas ações”, escreveu Bolsonaro na ocasião.
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Bolsonaro foi convencido de que o assunto envolveria interesses do PT, diz Vorcaro
A repercussão da postagem nas redes sociais provocou reação imediata de Vorcaro. Em mensagens enviadas à interlocutora, o empresário relatou que havia recebido um grande volume de críticas e questionamentos após a publicação. Segundo ele, mais de mil mensagens teriam chegado ao seu perfil no Instagram em poucas horas.
“O pior de ontem foi o Bolsonaro postando. Recebi mais de mil mensagens no Instagram”, afirmou Vorcaro em uma das mensagens no dia 13 de julho de 2024. Ao comentar o episódio, o ex-banqueiro utilizou termos ofensivos para se referir ao ex-presidente.
Quando a namorada perguntou onde a postagem havia sido feita, Vorcaro respondeu que havia sido publicada na rede social do ex-presidente. Em seguida, chamou Bolsonaro de “idiota”. Na sequência da conversa, o empresário também utilizou outro termo pejorativo, classificando o ex-presidente como “beócio” [ignorante; simplório].
No diálogo, Vorcaro ainda sugeriu que a publicação teria sido feita após alguém convencer Bolsonaro de que o assunto envolveria interesses do Partido dos Trabalhadores (PT). “Alguém falou que era coisa do PT e ele postou”, escreveu o então dono do banco.
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Ciro Nogueira teria tentado contornar situação, sugere Vorcaro
As mensagens entre Vorcaro e a influenciadora indicariam ainda que aliados políticos do ex-presidente teriam tentado contornar o desgaste provocado pela publicação. Vorcaro afirmou que “amigos” entraram em contato com Bolsonaro após o episódio, incluindo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do partido e ex-ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro.
Em nota, o senador Ciro Nogueira afirmou que é irresponsável associar seu nome às conversas. O parlamentar declarou que, embora conheça o empresário, assim como conhece muitos outros empresários, ele nunca fez parte de seu círculo de amizades próximas. Nogueira também disse estar tranquilo em relação às investigações da Polícia Federal e negou qualquer envolvimento com as denúncias relacionadas ao ex-banqueiro.
Porém, no celular de Vorcaro foram identificadas que pessoas próximas teriam tentado intervir para que a postagem fosse removida ou para amenizar seus efeitos. No entanto, de acordo com o relato feito por ele na conversa, não teria sido possível reverter a situação ou fazer Bolsonaro retirar o conteúdo publicado.
As mensagens em que Vorcaro critica Bolsonaro fazem parte de um conjunto mais amplo de conversas encontradas em seu celular e analisadas pelos investigadores. O material foi obtido durante as apurações da operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de irregularidades envolvendo o banco e seus dirigentes.
O ex-banqueiro voltou a ser preso na quarta-feira durante a terceira fase da operação, que aprofunda a apuração sobre um suposto esquema de fraudes financeiras. Entre os crimes investigados estão organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro.
A primeira etapa da operação foi deflagrada em novembro do ano passado e resultou na prisão inicial de Vorcaro. Na ocasião, ele permaneceu detido por onze dias antes de ser libertado por decisão judicial, passando a cumprir medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica.
Nas fases seguintes da investigação, a Polícia Federal ampliou o alcance das apurações e realizou novas buscas e apreensões envolvendo empresários, familiares e pessoas ligadas ao círculo do ex-controlador do banco. De acordo com os investigadores, o conteúdo encontrado em dispositivos eletrônicos do empresário inclui mensagens que mencionam autoridades e figuras relevantes do cenário político nacional.














