
Marcos Lisboa, que já presidiu o IRB no governo Lula e hoje é vice-presidente do Insper, sustenta em artigo publicado hoje na Folha que a discussão política sobre esquerda e direita acaba confusa no Brasil por conta do regime militar.
Segundo ele, o estereótipo habitual de retratar a direita como autoritária na política e liberal na economia, e a esquerda como democrática e desenvolvimentista (i.e., intervencionista), não faz muito sentido. A nossa ditadura, afinal, vista como de direita, era altamente desenvolvimentista.
Para Lisboa, ambos, esquerda e militares, compartilhavam o autoritarismo e o diagnóstico que enfatizava o papel estatal como locomotiva econômica. A disputa era apenas para ver quem iria liderar este processo. Quando pensamos que Geisel foi o criador de várias estatais, esta afinidade entre esquerda e militares fica mais evidente no campo econômico.
Os liberais, ao contrário dos esquerdistas, são céticos sobre visões de mundo mais ideológicas e demonstram mais apreço pelos dados empíricos. Os processos e procedimentos são muito caros aos liberais, enquanto a esquerda tende a focar mais nos supostos resultados, fruto de seus desejos mais do que de experiência.
Um exemplo citado por Lisboa é o setor de energia, vítima recentemente desta abordagem de esquerda. O governo adotou uma estratégia de forte intervenção no setor, por desconsiderar o mercado e desejar preços menores, independentemente de como isso se daria ou se seria sustentável.
Como resume Lisboa, “A realidade tem o mau hábito de decorrer de dificuldades técnicas, e não apenas da vontade ou da barganha política, e o resultado foi frustrante”. O custo será altíssimo, e possivelmente ainda teremos apagões. Lisboa conclui, apontando a diferença de postura dos liberais:
Para os liberais, o debate democrático deve ser resolvido por meio da transparência, para que a sociedade delibere sobre as políticas públicas e, à luz do sol, enfrente dilemas mais difíceis do que o proposto pela retórica da indignação.
Rodrigo Constantino



