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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

Artigos, Resenhas

Capitalistas financiando socialistas para criar a “Nova Ordem Mundial”: conspiração ou fato?

Não sou adepto de teorias conspiratórias. Elas são sedutoras, reconheço, e atraem justamente por seu simplismo, uma demanda natural que temos para explicar um mundo caótico e complexo. Os judeus são os responsáveis por todos os males do mundo, diriam os que acreditaram na farsa dos “Protocolos dos Sábios de Sião”. O capital sempre explorou o trabalhador na luta de classes, diriam os marxistas. Uma elite globalista controla todos os principais eventos no mundo, repetem os que denunciam a “Nova Ordem Mundial”.

Quando o escritor italiano Umberto Eco faleceu, publiquei um texto sobre teorias conspiratórias em sua homenagem, pois este era um tema presente em suas obras. Para Eco, o ressentimento estaria por trás de muitas teorias da conspiração, pois assim fica mais fácil explicar e suportar os próprios infortúnios: é tudo culpa “deles”, e aí basta selecionar quem são eles com base em algum critério coletivista qualquer e tudo certo: vida que segue, com meus problemas tendo agora um responsável bem definido, e que não é, logicamente, eu mesmo.

Nenhuma teoria da conspiração, ao menos entre as mais conhecidas, é totalmente desprovida de fundamento, caso contrário não seria sequer cogitada. Eis, aliás, seu segredo: contar uma grande mentira com meias verdades, usar alguns fatos para pintar um quadro bem diverso da realidade. A falácia mais comum aqui é post hoc ergo propter hoc, que quer dizer algo como “depois disso, logo por causa disso”. Ela confunde causalidade e efeito, e usa o benefício do retrospecto para encaixar acontecimentos dentro de sua narrativa, como se “provasse” a tese. O sol raiou porque o galo cantou.

Feita essa longa introdução, comprovando todo o meu ceticismo para com teses conspiratórias, podemos entrar agora no tema propriamente dito desse texto, uma resenha do livro None Dare Call It Conspiracy, escrito em 1971 por Gary Allen e Larry Abraham. Há uma versão recente em português com o título Política, Ideologia e Conspirações. O interessante é que os autores tentaram ridicularizar os conservadores que repetiam essas teorias, e acabaram tendo de concordar com eles. O livrinho já vendeu mais de 5 milhões de cópias. Toca em algum ponto sensível mesmo, e foi o tema também do meu vídeo desta semana.

A tese central é que os principais eventos que estão moldando os destinos do mundo ocorrem porque algumas pessoas poderosas planejaram as coisas desse jeito. Lembremos que era a época da revolução de 1968, dos hippies, dos pacifistas, do Vietnã e das mudanças alucinantes no ambiente universitário. Os autores tentam provar que não estamos lidando com coincidências ou com a estupidez, mas sim com planejamento e brilhantismo: o desenrolar dos fatos foi exatamente de acordo com o que essas cabeças pensantes por trás do poder desejavam.

Existem, na verdade, basicamente duas grandes teorias para a História: ou ela é um amontoado de acontecimentos ao acaso, algo caótico, ou há ordem e intenção naqueles fatos. Os autores estavam convencidos de que se tratava da segunda alternativa. E apresentam algumas “coincidências” terríveis para provar isso, como as impressões digitais dos mesmos capitalistas magnatas por trás de todas as cenas do “crime”.

O objetivo desses magnatas seria um só: controlar o mundo, seus recursos, o dinheiro, tudo. Para tanto, os conspiradores não mediriam esforços, incluindo a criação de guerras, de depressões econômicas ou a disseminação de ódio. Eles querem o monopólio que eliminaria todos os competidores e destruiria o sistema de livre mercado. E o segredo de toda boa conspiração, evidentemente, é convencer os outros de que não existe conspiração alguma.

Por que aceitamos naturalmente a existência de gente ambiciosa e amoral como Hitler e Stalin, ou como Alexandre, Júlio César e Napoleão, mas não podemos acreditar que bilionários em suas coberturas de Manhattan, educados e influentes, planejam da mesma forma um imenso poder sobre o mundo todo ou parte dele? E, se essa premissa é razoável, então também parece razoável que esses magnatas usem todos os recursos ao seu alcance para influenciar os acontecimentos na direção que desejam. A mídia, as universidades, tudo será colocado a serviço da mesma meta ambiciosa: concentrar ainda mais poder em suas mãos. Por que não?

Para os autores, então, o socialismo não passa de um pretexto para este fim, e seu discurso de dividir de forma igualitária as riquezas não passa de um engodo que os conspiradores exploram. Até porque o comunismo, o estágio final do socialismo, não passa de uma utopia, e o que tivemos na prática, sempre, foi o “socialismo real”, ou seja, um modelo de “capitalismo de estado” em que a casta poderosa controlou quase tudo. Não seria exatamente esse o intuito dos magnatas?

Isso explicaria, segundo os autores, o motivo pelo qual ricaços como Rockefeller e Ford, por meio de suas fundações, ou banqueiros como J.P. Morgan e Warburg financiaram movimentos socialistas revolucionários. Hoje, essas fundações ainda bancam inúmeras iniciativas “progressistas” radicais, e o especulador bilionário George Soros é um dos maiores filantropos de causas socialistas. Ingenuidade? Masoquismo? Culpa? Ou talvez estratégia?

O comunismo seria uma conspiração internacional para concentrar poder em homens em posições elevadas dispostos a usar quaisquer meios para essa meta desejada: a conquista global. E os principais meios utilizados seriam a eliminação total ou parcial do direito de propriedade privada, a dissolução da família tradicional como unidade de resistência ao totalitarismo estatal, e a destruição do que Marx chamou de “ópio do povo”, a religião. Ao observar o ataque sistemático que a esquerda faz a esses três pilares há décadas, e com fartos recursos de magnatas capitalistas por trás, não parece tão absurdo assim a tese dos autores, não é mesmo?

Não é estranho que ricaços que pregam o socialismo tenham suas fortunas protegidas em “trusts”? Não desperta suspeita o fato de que tantos magnatas que pedem mais impostos façam de tudo para pagar menos na prática? Será que somente a culpa da elite explicaria essa incoerência e hipocrisia ou há algo mais por trás aqui? Se fosse apenas culpa, não seria mais fácil abrir mão da riqueza pessoal e se juntar aos reles mortais? Mas pelas medidas que eles defendem, o resultado acaba sendo justamente uma maior concentração de riqueza em suas mãos: coincidência?

Os autores não ficam apenas em suposições; eles apresentam diversas evidências ou documentação que comprovam o elo direto entre magnatas e socialistas. Marx mesmo foi financiado por alguns, e entre suas medidas propostas no Manifesto Comunista consta a concentração de crédito no estado, um objetivo que interessa aos grandes capitalistas. A própria criação do Federal Reserve, o banco central americano, foi envolta em mistério e conspiração, numa ilha particular de J.P. Morgan, com banqueiros que foram depois trabalhar na instituição usando nomes falsos. O Fed, que controla a emissão de moeda e crédito no país.

O livro segue com outros casos, como o financiamento capitalista a Lenin e Trotsky, que estavam exilados no exterior e contaram com recursos de ricos da elite mundial para derrubar o regime Kerensky e tomar o poder na Rússia, lembrando que o czar já tinha saído do poder. Ou ainda a Nova Política Econômica, de Lenin, que favoreceu diretamente a Standard Oil, de ninguém menos do que Rockefeller. Mas como a resenha já está longa demais, vou pular essa parte. Basta o leitor entender que há, de fato, ligações entre capitalistas e socialistas revolucionários, até porque não se faz uma revolução sem dinheiro. As armas não brotam nas mãos de proletários pobretões, que, aliás, nunca estiveram por trás de revoluções socialistas: elas sempre partiram da elite.

Que uma elite capitalista tem total interesse em concentrar poder, e que o discurso esquerdista parece ajudá-la muito nesse sentido, criando o “capitalismo de estado”, isso parece ponto pacífico. Onde dá para discordar dos autores é justamente no poder de controle que essa turma de “insiders” teria. Até que ponto o establishment que controla o “sistema” consegue, mesmo, proteger seu feudo de ataques externos, do próprio mercado, do acaso? A mobilidade social mostra que novos bilionários surgem, rupturas tecnológicas destroem impérios estabelecidos, Mark Zuckerberg, um dos maiores bilionários de hoje e com incrível poder por meio do seu Facebook, era uma criança nerd até “ontem”.

Claro, os que ascendem à riqueza podem sempre ser cooptados, seduzidos, trazidos para o “ladro negro da força”. Mas fica claro que não é tão simples assim imaginar que a elite globalista determina com precisão o destino da humanidade. Imaginar que causaram o crash de 1929 exatamente quando foi de seu interesse, e depois novas bolhas especulativas, como sugerem os autores, é realmente não entender bem o funcionamento dos mercados financeiros. Que há manipulação, isso há; mas daí a concluir que tudo é manipulado vai uma longa distância…

Pare para pensar, caro leitor, nas suas próprias decisões ao longo da vida. Não foram vários fatores exercendo influência? Não existiram momentos de dilemas morais, de conflito de interesses e princípios? O interesse da família não apontou para um lado, e o senso de dever cívico para outro? Não foi necessário contemporizar no trabalho às vezes? Fatos relevantes em sua vida, como o casamento ou a carreira, não dependeram do acaso muitas vezes? É assim que costuma acontecer para os outros também, ainda que a ambição dessa turma de “insiders” seja mesmo desmedida e não possa ser comparada com a de pessoas normais.

Ainda assim, apenas os fanáticos, os monotemáticos e obcecados acham que uma única causa explica tudo no mundo, seja o sexo, seja o poder ou o dinheiro. Apenas os muito obsessivos querem ignorar o enorme espaço de contingências inesperadas em nossas vidas, o que chamamos de caos, justamente porque não se deu de forma ordenada, planejada. E por que seria diferente na política, que é a interação de milhares, milhões de indivíduos com seus objetivos e interesses conflitantes? Não parece razoável pensá-la como um grande teatro orquestrado, como um show de marionetes em que os poucos poderosos controlam as cordas de trás do palco, coordenando cada passo de acordo com suas intenções. Isso dá um bom filme de 007, mas não condiz muito com a realidade.

O que não quer dizer, claro, que os poderosos não tentam agir assim. Seria muita ingenuidade achar que não. E o próprio autor de James Bond, Ian Fleming, conheceu de perto esse mundo obscuro do poder na Inglaterra. Pode ter extrapolado um pouco na ficção, mas não fugiu completamente da verdade.

O que tirar disso tudo? Creio que há, sim, grupos de conspiradores, de ricaços poderosos, magnatas da mídia e outros setores que sabem muito bem o que estão fazendo quando bancam movimentos esquerdistas, quando dão dinheiro para o Black Lives Matter, para o Mídia Ninja, para socialistas. Acho que alguns sonham com uma “Nova Ordem Mundial”, que teria um governo mundial controlando tudo, como Bruxelas já tenta fazer na União Europeia. Muitas vezes o “sistema” parece mesmo um jogo de cartas marcadas. Não é tudo fantasia de reacionário paranoico e maluco.

Mas não é tão simples quanto os mais vidrados no assunto dão a entender. O poder dessa turma, ainda que gigantesco, não é total, e entre eles há muita disputa também, interesses conflitantes e traições. Como numa máfia, aliás. Seria cômodo pensar que todo o crime é articulado de cima para baixo, mas não é assim na prática. E o mesmo vale para a política. Mesmo os caciques devem aceitar suas limitações, e de vez em quando surge um “outsider” para colocar o sistema todo em xeque. Não vai ser nada fácil criar o tal “governo mundial”, e a decadência da ONU ou a eleição de Trump e o Brexit demonstram isso. O mundo é, afinal, mais complexo e caótico do que os adeptos da “teoria da conspiração” pensam. Ainda bem!

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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