

Para ter algo entre 20 e 30% dos votos, a postura rebelde de quem condena “tudo isso que está aí” é válida. Mesmo sendo alguém do establishment que ficou 30 anos no PT e foi até ministra de Lula, essa imagem criada e vendida por Marina colou: os jovens dos protestos e os adultos mais românticos compraram a tese de que Marina é diferente dos demais, está acima da política.
No passado, tivemos essa mesma bandeira na figura de Collor, o “caçador de marajás”. Um voluntarismo que dispensava acordos com partidos tradicionais, pois Collor governaria com o apoio popular contra os políticos. Sabemos que não foi bem assim, e que ele logo teve seu tapete puxado quando surgiram escândalos – que perto dos petistas de hoje parecem roubo de galinha – e o apoio popular, bem trabalhado pela oposição, inverteu-se totalmente.
Merval Pereira, em sua coluna de hoje, traz essas reflexões, questionando com quem Marina governaria, se está contra o PMDB, o PSDB e o PT. Eduardo Campos, mesmo sem as mesmas chances de vitória, deixava portas abertas e selecionava mais seus alvos. Marina, com seu estilo mais rebelde e “independente”, acaba fechando muitas portas. Diz Merval:
Mesmo com a força do Plano Real, que o elegeria sem a necessidade de acordos, Fernando Henrique sabia que não poderia governar se não tivesse uma base política sólida. Ainda mais para fazer as reformas estruturais que pretendia. Marina está escolhendo o caminho mais áspero, que pode até mesmo levá-la a uma derrota ainda na eleição que ela começa a disputar a partir de hoje, referendada como a candidata do PSB.
Na verdade, é a candidata da Rede que está assumindo o posto e dando as cartas na coligação, e que passa a existir de fato mesmo sem o registro oficial do partido de Marina. Ao não abrir mão de continuar criando seu partido mesmo se for eleita como candidata do PSB, Marina já deixou claro que seu projeto não mudou, e que o PSB continua sendo só um pouso provisório.
Mudou toda a construção da candidatura, e todo esse tempo ao lado de Eduardo Campos não serviu para que PSB e Rede firmassem acordos mínimos de convivência. O vice Beto Albuquerque vai ter o papel de algodão entre cristais, e já será um vitorioso se conseguir evitar muitas perdas ao longo da campanha. Essas idiossincrasias de Marina serão toleradas enquanto sua expectativa de poder persistir.
Se o “fenômeno” Marina se confirmar, teremos no Palácio do Planalto uma presidente voluntarista acostumada a impor sua vontade. Se as dificuldades de crescimento de sua candidatura aparecerem pelo meio do caminho, dificilmente a parceria Rede-PSB resistirá às crises políticas que virão.
Acredito que o colunista tocou num ponto certo: Marina, agora com pretensão e viabilidade majoritária, não poderá mais bancar a solução messiânica acima do bem e do mal, como se fosse uma salvadora da Pátria contra a democracia representativa. Tal postura serve para conquistar corações idealistas e a juventude rebelde, não para governar um país democrático, por mais falha que seja tal democracia.
Fora a questão da governabilidade, há vários pontos que Marina ainda terá de responder. A ameaça ao agronegócio, por exemplo, que tem sido a locomotiva de nosso pífio crescimento e que não encontra nos “marineiros” uma voz de apoio. Ou a questão da gestão macroeconômica: será respeitado o tripé, visto por muitos como uma herança “neoliberal”? Ao que tudo indica, sim. Mas é preciso convencer todos os investidores. Marina vai assinar sua “Carta ao Povo Brasileiro”, para deixar claro que não se trata de uma aventureira?
“Meu precioso!”Eis o dilema real de Marina: há muito charme em ser contra os partidos tradicionais, mas não se governa sem ao menos uma parte deles. Pragmatismo é isso: reconhecer as limitações em um país democrático e com muito eleitor ignorante. De alguma forma será preciso contemporizar e negociar, abrir mão de um lado mais “sonhático” (ou “pesadélico”, como diria Reinaldo Azevedo).
Resta saber se Marina está disposta a abandonar um pouco sua imagem tão bem construída de alguém que paira acima “disso tudo que está aí”. Tendo a crer que sim. Primeiro, pois como espero ter deixado claro, não acredito muito nessa imagem. Segundo, porque o poder corrompe, como dizia Lord Acton.
O “precioso” de Gollum, em “O Senhor dos Anéis”, exerce forte atração nas pessoas, especialmente nos políticos profissionais. Vendo uma chance real de colocar as mãos no “anel”, será que Marina sacrificaria tal prêmio apenas para preservar sua “pureza” na mente dos mais utópicos e ingênuos?
Rodrigo Constantino



