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Populismo ortográfico e o "idioma popular"

O editorial do GLOBO de hoje fala sobre a discussão envolvendo a reforma ortográfica em pauta no Senado. Há uma turma que pretende manipular nossa língua como se fosse um artefato qualquer, uma tela em branco na qual se pode criar o que bem se entende. Por trás do movimento, a ideologia que enaltece a “língua das ruas” contra um suposto elitismo. Conclui o jornal:

Escrever como se fala, em última instância o propósito desse tipo de iniciativa, que não esconde seu viés populista, é um aviltamento da língua. De um lado, dá abrigo a sofismas como a adoção, pelo MEC, de um livro didático com erros de Português, em nome de um pretenso “idioma popular”, como ocorreu em 2011; de outro, a deterioração da norma culta mal disfarça uma discriminação contra aqueles a quem supostamente se pretende beneficiar: o pressuposto é de que tais pessoas não teriam condições de se educar para ascender a novo patamar cultural.

Menos mal que contra essa estapafúrdia ideia há vozes representativas. O filólogo e acadêmico Evanildo Bechara a bombardeou em artigo no “Estadão”. A escritora e também acadêmica Ana Maria Machado, no GLOBO, observou: “O remédio (contra dificuldades da língua e na alfabetização) é mais educação”. O Senado tem de se dar conta que, ao avalizar a ideia, dá abrigo ao que pode soar como brincadeira. De mau gosto.

O debate não ocorre num vácuo cultural. Ao contrário: é grave sintoma do nosso Zeitgeist, da mentalidade moderna e “igualitária”, em que é proibido ter “preconceitos”, que enaltece o que vem de baixo e cospe no que vem de cima. Tudo aquilo que é “popular” deve ser lindo, por tal ótica, enquanto o que é “elitista” merece condenação. Por que enaltecer o estilo de Machado de Assis quando se tem o rap, não é mesmo?

Sinto saudade dos tempos em que o popular olhava para cima como uma referência, como um exemplo a ser seguido. Hoje acontece o contrário: cada vez mais “mauricinho” e “patricinha” fazendo de tudo para copiar o estilo do gueto, inclusive na linguagem chula do funk.

Algumas pessoas podem não dar importância ao assunto, achar que é besteira. Discordo. Acho que é muito sério. Acho que é um dos melhores exemplos para ilustrar o estrago que nossa cultura sofreu nas últimas décadas, culminando inclusive na chegada do PT ao poder. Uma coisa tem tudo a ver com a outra.

Rodrigo Constantino

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