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A polarização não é algo ruim em si. A esquerda sempre dominou a cena política brasileira, principalmente quando o eleitor era vítima do teatro das tesouras: votava em tucanos como se fossem de direita, sendo que são defensores da socialdemocracia, ou seja, centro-esquerda. Ter opções mais à direita de verdade, portanto, é algo desejável.
Mas não se trata apenas de uma bipolaridade entre esquerda e direita. Dentro da esquerda, há cada vez menos espaço para a socialdemocracia moderada, pois enquanto Lula estiver no jogo político, ele terá uma base consolidada de cerca de um quarto dos eleitores. E, do lado mais à direita, o bolsonarismo se consolidou como uma força política que tem, praticamente garantidos, entre um quarto e um terço dos eleitores.
Assim sendo, uma eleição que conta com Lula e algum Bolsonaro arrasta mais ou menos metade dos eleitores para esse embate, sobrando talvez a outra metade – ou menos – para dividir entre todos os demais candidatos e as abstenções e votos nulos. É por isso que o segundo turno deve ser mesmo disputado entre Lula e Flávio.
Não obstante, há uma parcela significativa em busca da tal terceira via. É uma multidão que rejeita o petismo, mas não se empolga com o bolsonarismo. Pode ter gente com perfil mais à esquerda nesse conjunto e gente mais à direita. E muitos nomes surgem para tentar ocupar essa demanda.
Cury, ao que tudo indica, foi quem melhor soube surfar essa onda da terceira via até aqui
Em 2014, quando a polarização ainda era entre PT e PSDB, que fazia o papel disfarçado de direita, Marina Silva apareceu em cena para tentar furar essa bolha. Dilma teve 41% dos votos, Aécio Neves 33%, e Marina ficou com 21%. Marina sempre foi de esquerda e do próprio PT, ou seja, era uma “terceira via” pero no mucho. Ainda assim teve votação expressiva por causa desse mutirão cansado da polarização típica.
Em 2018, a disputa se afunilou para Bolsonaro contra Fernando Haddad, já que Lula estava preso e inelegível. Quem surgiu para fazer o papel da terceira via foi Ciro Gomes, que ficou em terceiro com 12% dos votos. Ciro não quis apoiar Lula no segundo turno, mas sempre foi esquerdista e chegou a ser até ministro do governo petista. Ou seja, era uma “terceira via” entre aspas também. Marina Silva disputou a eleição e ficou com 1% apenas, mostrando que o fenômeno anterior era passageiro.
Nas últimas eleições, em 2022, inúmeros nomes surgiram como balões de ensaio para furar a polarização entre Lula e Bolsonaro, mas todos tiveram desempenho pífio. Simone Tebet ostentou 4% dos votos, Ciro Gomes 3% e o restante menos de 1%. Tebet, a “terceira via” que mais atraiu eleitores, virou ministra do governo Lula, mostrando que essa turma “em cima do muro” sempre cai para o lado esquerdo.
Eis que hoje temos Lula contra Flávio, e vários nomes tentando ocupar a terceira via. A diferença é que são todos com viés mais à direita dessa vez, e só Lula navegando com tranquilidade à esquerda. Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos estavam disputando esse perfil de eleitorado, mas nenhum deles despontou como nome viável. O que estava chegando mais perto disso era Renan Santos, do Missão/MBL, que tem a maior rejeição líquida de todas, ou seja, quem conhece não vota. E, então, surge em cena Augusto Cury.
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O psiquiatra e escritor foi bem no debate da Band, mostrando calma e civilidade, e essa postura é justamente o que muitos eleitores cansados do clima de guerra entre lulismo e bolsonarismo querem. A primeira pesquisa após o debate já o colocou com dois dígitos nas intenções de votos. Nas redes sociais, Cury disparou, com centenas de milhares de novas adesões. O fenômeno foi tema da coluna de Lauro Jardim no Globo hoje:
"As campanhas de Flávio, Renan e Ronaldo Caiado levantaram suspeitas nos últimos dias pelo fato de, por exemplo, Cury ter pulado de 8,3 milhões para mais de 10,5 milhões de seguidores nas redes sociais em menos de uma semana. Em conversas privadas, falam da possibilidade de robôs estarem inflando a popularidade de Cury. Pode ser. Mas o IPD da Quaest, que mede a influência, a relevância e a reputação de políticos no ambiente da internet, tem meios de visualizar robôs e excluí-los do cálculo".
Negar o fenômeno digital me parece um equívoco. Ele é real, como aconteceu com Pablo Marçal na disputa para a Prefeitura de SP antes. Cury, ao que tudo indica, foi quem melhor soube surfar essa onda da terceira via até aqui, e está colhendo os frutos. Mas, se o passado é bom guia, esse espaço tem um teto perto de 20%.
A estratégia da campanha de Flávio, portanto, não deveria ser a de bater no candidato e em seus eleitores, mas sim tentar atraí-los no segundo turno. E sua presença basicamente garante que Lula não vence no primeiro turno, mesmo “fazendo o diabo”, como ele prometeu.

Rodrigo Constantino é economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja, O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




