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Com a aliança entre Flávio Bolsonaro e Sergio Moro, que lidera nas pesquisas a corrida para o governo do Paraná, Ratinho Junior acabou desistindo de disputar a Presidência e permanece como governador do estado, para tentar controlar a disputa por sua sucessão. Parece que até o presidente do PSD, Gilberto Kassab, foi pego de surpresa com a decisão. E o nome mais provável para se lançar candidato pelo partido agora é o de Ronaldo Caiado.
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Kassab está cismado de que chegou a hora para uma “terceira via”, fora da polarização entre o lulismo e o bolsonarismo. Eu já acredito que, enquanto houver Lula na disputa, aquele que for visto como seu antípoda terá muito mais chances, já que o antipetismo é um sentimento forte e crescente na sociedade brasileira. O sobrenome Bolsonaro pesa muito nessa hora.
Caiado é um governador bem avaliado, associado ao agronegócio, experiente, defensor de pautas mais conservadoras como na área de segurança pública. Mas o PSD é um verdadeiro “saco de gatos” – ou ratos. Governadores, prefeitos e parlamentares do partido chegam a apoiar abertamente o governo Lula. É o caso de muitos no Nordeste e de Eduardo Paes no Rio.
Ronaldo Caiado tem todo direito, claro, de almejar o cargo de presidente. Tem histórico político, experiência executiva e alguma coerência ideológica em sua vida política. Seria um passo natural para o governador. Mas o Brasil não vive um momento normal e a prioridade máxima deve ser derrotar o lulismo
Eduardo Leite seria a escolha pela esquerda, mas de quem ele tiraria votos? Quem é de esquerda vota no Lula mesmo. Daí a expectativa de que seja Caiado o nome escolhido, e ele terá de mirar em Flávio Bolsonaro para se colocar como uma direita mais palatável para a turma de centro, com maior rejeição ao bolsonarismo. Só que isso traz alguns problemas, como aponta Malu Gaspar em sua coluna de hoje:
O primeiro é que, para tentar vingar como candidato competitivo, Caiado terá que atacar Flávio, com resultados incertos, uma vez que poderia parecer incoerente, uma vez que o governador de Goiás vem se alinhando com o bolsonarismo há anos. Além disso, há o risco de uma parte do eleitorado de centro que não quer votar em Flávio acabar escolhendo Lula ao invés de Caiado.
[...] Outra dificuldade será a de unificar o partido, já que muitas lideranças do PSD têm mais proximidade com a centro-esquerda – como Eduardo Paes, que já apoiou Lula e Dilma Rousseff em 2010, 2014 e 2022 e abrirá seu palanque na disputa pelo governo do Rio para o presidente.
Ou seja, Caiado estaria numa sinuca de bico. Vai ter que se colocar como alguém de centro, abandonando sua trajetória política, enquanto o próprio Flávio tem feito esforço para se apresentar como o “Bolsonaro moderado”, com sucesso. E vai enfrentar dentro do seu próprio partido gente que defende a reeleição de Lula, o que mina o discurso antipetista. Qual espaço resta, então, para Caiado?
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Jair Bolsonaro chegou a avaliar que não era ruim ter outros candidatos de direita, pois seriam todos contra Lula no primeiro turno. É o caso de Romeu Zema do Novo, que certamente vai concentrar sua energia em críticas ao atual governo e, no caso de um segundo turno entre Lula e Flávio, apoiará Flávio. Zema, portanto, ajuda Flávio na disputa. Mas se Caiado partir para cima do Flávio de olho nos votos do centro, isso pode produzir algum desgaste na candidatura bolsonarista.
Ronaldo Caiado tem todo direito, claro, de almejar o cargo de presidente. Tem histórico político, experiência executiva e alguma coerência ideológica em sua vida política. Seria um passo natural para o governador. Mas o Brasil não vive um momento normal e a prioridade máxima deve ser derrotar o lulismo. Com apenas 4% das intenções de voto nas pesquisas, será que Caiado aceita esse papel de agir basicamente como linha auxiliar do PT? Vai bater no Flávio e ajudar Lula, apenas para ser derrotado depois? Seria um desfecho um tanto lamentável em sua longa carreira política...
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos









