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David Hume argumentou que a moralidade e as ações humanas são movidas por emoções ("paixões") e sentimentos, não pela razão. O filósofo afirmou que "a razão é, e só deve ser, a escrava das paixões", significando que a razão serve para direcionar como satisfazemos desejos, mas não define os desejos em si. Queremos crer numa razão “pura”, independente das emoções, mas isso não parece muito realista.
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Pensei nisso hoje ao decidir falar do show de horrores nos votos supremos desta quinta para barrar a CPMI do INSS. Podemos revestir o quanto for nossas análises de argumentos racionais, mas as emoções dominam a cena: sabemos se tratar de ministros sem qualquer resquício moral fazendo de tudo para abafar as investigações que se aproximam de Lulinha e do caso do Banco Master, que envolve inclusive ministros do STF.
Quando Gilmar Mendes fala em tom político contra a CPMI, resgatando seu ódio pela Lava Jato, sabemos que quer cavar a nulidade ali na frente, melar toda a investigação e garantir a impunidade dos corruptos. Quando ele volta a ser o garantista de ocasião e condena os “prazos indefinidos” ou “vazamentos criminosos”, sendo que nunca se importou com isso no inquérito do fim do mundo e quando Bolsonaro era réu, sabemos estar diante de um tremendo cara de pau.
Está tudo dominado. O STF virou um agrupamento mafioso para proteger bandidos. A revolta do povo é totalmente justificada, e muitos jogam a toalha, pois não conseguem ver escapatória
Dias Toffoli votar, por si só, já é um escárnio que dispensa comentários. Alexandre de Moraes idem, mas o ministro fez questão de condenar também os vazamentos e os prazos – o relator do inquérito das Fake News que completou sete anos! O comunista Flávio Dino foi na mesma linha de cinismo e reclamou do prazo indeterminado.
Cármen Lúcia tentou dar piruetas para apresentar um voto “técnico” sobre a discussão do foro adequado, se é questão constitucional ou “interna corporis” do Senado, mas acabou ignorando a jurisprudência recente da própria corte. E Kassio Nunes votou com a turma contra a prorrogação da CPMI, lembrando que notícia recente mostrou que o Master e a JBF pagaram R$ 18 milhões a consultoria envolvida com escritório do seu filho. Coincidência?
O povo ficou com nojo do que viu ali, e não por acaso 60% da população não tem respeito pelo STF. José Nêumanne Pinto desabafou: “Os ministros do STF Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Dias Toffoli, Cármen Lúcia, Nunes Marques e Gilmar Mendes contra André Mendonça e Luís Fux mostraram em votação no plenário do STF que o Judiciário deu golpe definitivo na frágil democracia tupiniquim. Nojo”. Eles, no fundo, vêm dando golpe em nossa "democracia" faz tempo...
Tento me guiar pela Oração da Paz de São Francisco de Assis: onde houver desespero, que eu leve a esperança. Mas confesso que está cada vez mais difícil alimentar qualquer esperança no Brasil. Está tudo dominado. O STF virou um agrupamento mafioso para proteger bandidos. A revolta do povo é totalmente justificada, e muitos jogam a toalha, pois não conseguem ver escapatória. Quem sou eu para julgá-los?
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Sei que é sexta-feira e que talvez possamos alimentar alguma esperança da oposição fazer maioria no Senado nas eleições deste ano. Mas serão senadores com coragem para enfrentar esse sistema mafioso? Se não conseguem sequer votar contra uma terrível lei de misoginia com medo dos ataques da esquerda? Peço desculpas pelo tom mais sombrio, mas é que estou resfriado (coronavírus), fui diagnosticado com catarata pelos esteroides no tratamento contra o câncer e vou perder o Miami Open de hoje cujo ingresso já tinha comprado. Ou seja, estou de mau humor! E Hume tinha um ponto: essas emoções influenciam em nossa análise racional.
Sei que acabei de lançar um livro chamado Não tema a tempestade, mas mesmo nesse relato de resiliência e fé eu revelo as inevitáveis noites escuras no processo de tratamento. Esse clima mais sombrio vai passar. Mas hoje vou me dar ao direito de só desabafar mesmo, sem alimentar qualquer esperança. O Brasil não é para amadores. O Brasil não é um país sério. O Brasil cansa. Cansa demais da conta!
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos









