
Se tudo é normal, então nada é normal. Se todos são especiais, então ninguém é especial. Se tudo é arte, então nada é arte. Elementar, meu caro Watson. Mas vivemos em um mundo que ignora a lógica, e que, em nome do combate politicamente correto ao “preconceito”, suspende qualquer tipo de julgamento de valores.
Pensei nisso quando vi mais um caso de “eyeball tattoo”, essa “modinha” bizarra de tatuar o branco dos olhos. Já comentei sobre a menina que saiu em enorme foto na Folha, e que, além dos olhos vermelhos e de “Demônio” tatuado na testa, acrescentou um soco inglês de silicone no punho. Ela me mandou uma mensagem reclamando do meu texto e desejando paz. Estranha forma de “body language” pacífico…
Dessa vez foi um casal, com três filhos pequenos, que resolveu ter olhos negros. A ideia era chocar mesmo: “Achei que iria ficar mais assustador, a minha intenção era chocar”. Se a intenção é chocar, então há o reconhecimento de que não se trata de algo, como dizer?, normal. Certo?
Mas se você expressar algum tipo de reação de repulsa a esta bizarrice, então você é um preconceituoso, reacionário, moralista. A própria moça diz que pretende combater exatamente isso:
Questionada sobre o impacto que a mudança visual tanto dela quanto do marido causa nas crianças, ela disse acreditar que está formando pessoas menos preconceituosas. Segundo Leticia, os filhos acharam normal, bem como a avó.
É qualquer coisa, menos normal. Como liberal que sou, jamais defenderia algum obstáculo legal a essas aventuras estéticas. Cada um é dono do seu nariz, e dos seus olhos. Meu ponto é outro, de caráter mais cultural mesmo: não quero viver em um mundo onde não possamos mais chamar maluquices de maluquices, pois tudo precisa ser visto como “normal” em nome do combate ao preconceito.
Tal postura tem graves consequências em diversas outras áreas mais importantes. Um mundo onde o julgamento de valores, morais e estéticos, está suspenso, é um mundo muito perigoso. Eu prefiro julgar, condenar, e me preparar para ser julgado também.
Sou moralista? Reacionário? Que seja! Como Nelson Rodrigues, eu reajo contra aquilo que não presta. E tenho preconceito contra quem diz não ter nenhum tipo de preconceito.



