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Rodrigo Constantino

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Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

Ideias

O mito do povo conservador

Datafolha mostra desempenho de Flávio Bolsonaro e Lula
Será que podemos afirmar os brasileiros são de fato um povo com valores conservadores sólidos, que entende os princípios morais em jogo e vota de acordo? (Foto: Fotomontagem Gazeta do Povo (Fotos: Edilson Rodrigues/Agência Senado e Ricardo Stuckert/PR))

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Gravei um vídeo nesta terça para os autointitulados “bolsonaristas raiz”, argumentando basicamente que Flávio Bolsonaro, para vencer, terá de costurar uma frente ampla, engolir muitos sapos e fazer concessões para atrair os votos mais ao centro. Tentei mostrar que a postura de “caçar traidores” na direita, apontando o dedo para todo lado, mostra-se contraproducente e prejudica o próprio Flávio. Ele vai precisar, num eventual segundo turno, de todos os votos que forem para Ronaldo Caiado ou Romeu Zema no primeiro turno, caso ambos sejam mesmo candidatos.

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O economista Marcelo Pessoa, bacharel em Relações Internacionais (UnB) e Doutor em Economia (EPGE-FGV), viu o vídeo e teceu críticas construtivas. Em sua avaliação, o povo brasileiro é conservador e isso faz com que baste o candidato à direita ser firme em suas posições que isso já garante a maioria. “Sei que não pensam assim, mas podemos vencer sozinhos. Frente ampla é desnecessária, dado que somos maioria. As pesquisas sobre conservadorismo mostram isso. Basta defender as pautas conservadoras com firmeza”, escreveu.

Paulo Moura, cientista político, comentou: “Apoio eleitoral não deve ser confundido com aliança. Atrair o voto dos anti-Lula que não gostam do Flávio no segundo turno é fundamental. Compor governo é outro assunto”. Pessoa concorda, mas insiste em seu ponto: “Certamente, Paulo. Agora, meu ponto é um só: atrair com o quê exatamente? Se conservadores têm a maioria dos votos como as pesquisas indicam, não devem sacrificar nada. Nem um milímetro”.

Um povo efetivamente conservador jamais teria elegido o PT por tantos mandatos ou esses parlamentares oportunistas. Se eu tiver que chutar, diria que 25% dos eleitores são de direita, 25% de esquerda (normalmente de olho em benefícios estatais), e a outra metade não quer saber de nada disso

E aqui entra o cerne da questão num ótimo e necessário debate: temos mesmo essa maioria? Eu concordo que é arriscado demais, além de prejudicial ao conservadorismo, ceder em pautas importantes. No limite, não dá para um candidato de direita abraçar a agenda esquerdista em nome do pragmatismo eleitoral. Ele não vai atrair os votos da esquerda e vai dar munição na guerra cultural para os adversários, jogando a janela de Overton ainda mais para a esquerda.

Mas o ponto central permanece: o povo brasileiro é mesmo conservador? Sim, pesquisas apontam que uma ampla maioria é contra o aborto, por exemplo, ou a legalização das drogas. Mas isso é suficiente para afirmarmos que se trata de um povo com valores conservadores sólidos, que entende os princípios morais em jogo e vota de acordo?

O liberal João Luiz Mauad escreveu um longo texto sobre isso num grupo em que todos os citados participam, e com sua autorização reproduzo aqui na íntegra:

Eu tenho sérias dúvidas sobre esse suposto caráter conservador do brasileiro. De fato, em alguns temas como aborto, drogas, maioridade penal e uns poucos outros, que costumam ser utilizados em pesquisas do tipo, ele tem se mostrado conservador, mas estes não são temas prioritários para a maioria do eleitorado. Por outro lado, o brasileiro médio é profundamente estatista, gosta de almoço grátis e assistencialismos infinitos, ao mesmo tempo em que não costuma dar muita bola para o caráter ou o passado dos candidatos. Ou alguém realmente acha que um país majoritariamente conservador, de verdade, elegeria Lula e o PT tantas vezes, principalmente depois de toda a roubalheira descoberta pela Lava Jato? Desculpem a sinceridade, mas o brasileiro tem votado em quem promete mais. Como dizia [Thomas] Sowell, “O fato de que muitos políticos de sucesso são mentirosos não é exclusivamente reflexo da classe política, é também do eleitorado. Quando as pessoas querem o impossível, só os mentirosos podem satisfazê-las". Em resumo, acho que o eleitor médio não dá a mínima bola para partidos e ideologias. A maioria vota mais com o bolso do que com qualquer outra coisa. Ademais, trata-se de um povo majoritariamente ignorante e mal-informado. Em síntese, o eleitor médio é um típico Macunaíma - e Lula tem a perfeita noção disso. O resto é whishful thinking…Esqueçam essa lengalenga de conservadorismo, liberalismo e socialismo. A meu ver, a campanha do candidato da direita deveria focar em carestia, impostos, segurança pública e, talvez prioritariamente, nos abusos do STF contra os manifestantes do 8/1 e demais injustiçados pelos donos do poder.

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Impossível não dar razão a ele quando lembramos que a maior bancada do Congresso é o “centrão”, ou seja, a turma dos fisiológicos sem qualquer ideologia. O “afegão médio” não quer saber de socialismo, liberalismo ou conservadorismo, mas sim de seu cotidiano, se vai conseguir emprego, se vai ser assaltado e morto no caminho etc. A discussão ideológica é muito importante, mas não é para todos.

Um povo efetivamente conservador jamais teria elegido o PT por tantos mandatos ou esses parlamentares oportunistas. Se eu tiver que chutar, diria que 25% dos eleitores são de direita, 25% de esquerda (normalmente de olho em benefícios estatais), e a outra metade não quer saber de nada disso e é um tanto alienada do ponto de vista político. É gente demais e que define o resultado da eleição. Por isso mesmo é preciso engolir sapos e ter uma frente ampla de apoio, fazendo algumas concessões, mas sem abrir mão dos valores principais que representam o conservadorismo.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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