
Ouça este conteúdo
As eleições de meio de mandato costumam punir o partido do presidente, e qualquer conservador minimamente informado esperava perdas nesse 3 de novembro de 2026. O que poucos imaginavam era a dimensão do castigo. Os democratas retomaram as duas casas do Congresso com ampla vantagem. No Senado, viraram sete cadeiras republicanas (Texas, Ohio, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Kansas, Iowa e Maine) e chegaram a 54 assentos contra 44, contando dois independentes. Na Câmara os democratas ficam com 228 cadeiras contra 139 republicanas, uma virada de 25 cadeiras.
Whatsapp: entre no grupo e receba as colunas de Rodrigo Constantino
O peso histórico salta aos olhos. Kansas não elegia um senador democrata desde 1932, e o Texas não dava uma vitória estadual a um democrata desde 1994. A palavra "tsunami" apareceu até na manchete da Fox News. Não há como dourar a pílula. Foi um massacre!
Nenhum resultado carrega tanto simbolismo quanto o de Michigan. Abdul El-Sayed, médico epidemiologista de 42 anos, ex-diretor de saúde do condado de Wayne e filho de imigrantes egípcios, derrotou o ex-deputado republicano Mike Rogers e será o primeiro muçulmano no Senado americano. Um candidato da ala mais à esquerda do Partido Democrata, defensor do Medicare for All e do fim da ajuda militar a Israel, que derrotou na primária a favorita do establishment, Haley Stevens, ganhou com folga um estado-pêndulo do Meio-Oeste. El-Sayed mobilizou jovens e eleitores pouco assíduos falando de custo de vida e corrupção. Quando o mercado está caro, o rótulo de "radical" deixa de assustar.
Os dois anos restantes de Trump serão de governo dividido, vetos e investigações nas duas casas, e a pauta legislativa conservadora está, na prática, encerrada. Para 2028, o recado é mais sério: Texas, Ohio, Iowa e Geórgia deixaram de ser apostas seguras, e a coalizão de trabalhadores e latinos que devolveu Trump à Casa Branca mostrou que pode se desfazer em dois anos
O padrão se repete. No Texas, James Talarico venceu Ken Paxton para o Senado e Gina Hinojosa derrotou o governador Greg Abbott. Na Carolina do Sul, Annie Andrews derrubou o senador republicano. Candidatos apoiados pelos Democratic Socialists of America venceram sete das dez disputas para a Câmara em que concorreram. Os dados demográficos incomodam ainda mais. Pela boca de urna da NBC, 62% dos latinos votaram nos democratas para a Câmara, contra 51% que haviam votado em Kamala Harris em 2024; os republicanos caíram de 46% para 35% nesse grupo. Os ganhos de 2024, que pareciam um realinhamento duradouro, mostraram-se reversíveis.
Na noite da apuração, Donald Trump falou ao New York Times, à CBS e a Bret Baier, da Fox News. O tom oscilou entre uma conciliação inesperada e a velha transferência de culpa. "Acho que os democratas fizeram um bom trabalho, de verdade. Eles lutaram muito", disse à Fox. "Estavam atrás disso havia 11 anos e finalmente conseguiram." Ao Times, disse estar "absolutamente disposto" a aceitar o resultado. À CBS, avisou que, se os democratas não quiserem trabalhar com ele, vai "simplesmente vetar tudo".
As culpas foram distribuídas longe do Salão Oval. "Eu não estava na cédula. Se estivesse, teríamos vencido", disse. Atribuiu derrotas a candidatos que "não inspiraram" ou "não eram meus amigos" e, na Truth Social, chamou Abbott de "RINO" – quem parece republicano, mas no fundo é democrata. No ponto mais revelador, admitiu à Fox que "parte disso foi o Irã": os eleitores concordam com ele, disse, mas não estavam dispostos a pagar mais caro pela gasolina no curto prazo.
Poucos anteciparam esse diagnóstico com tanta insistência quanto Matt Walsh, do Daily Wire. A guerra começou com ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã em 28 de fevereiro, e já em abril Walsh pedia seu fim: "Os americanos estão sofrendo. Está caro demais simplesmente viver", disse. Em agosto, ligou os preços dos alimentos às "guerras estrangeiras estúpidas". Em outubro, apontou o Irã e a gasolina cara como os dois motivos para candidatos que ele considerava "não sérios", como Talarico e El-Sayed, liderarem as pesquisas. Na noite da eleição, foi direto: "Trump lançou uma guerra impopular e sem sentido. A gasolina está cara demais. As pessoas não conseguem pagar o mercado. Trump abandonou a mensagem America First".
Se a guerra foi o gatilho, a economia foi o terreno da derrota. No papel, não há crise: o PIB cresceu 3,4% anualizados no terceiro trimestre. Mas o eleitor não vive de PIB. A inflação ao consumidor chegou a 3,7% em doze meses até setembro, e Mark Zandi, da Moody's, disse que as "digitais da guerra" estavam por todo o relatório. O galão de gasolina custava US$ 4,33 em meados de outubro, contra US$ 2,98 antes da guerra; o diesel, que encarece frete e comida, saltou de US$ 3,76 para cerca de US$ 6,30.
O emprego perdeu fôlego: em setembro, foram criadas apenas 29 mil vagas, e o desemprego subiu para 4,2%. O Federal Reserve manteve os juros entre 3,75% e 4% em 28 de outubro, com dois votos por alta, enquanto a subida dos rendimentos do Tesouro encarecia hipotecas e financiamentos. A confiança do consumidor medida pela Universidade de Michigan teve em setembro a segunda pior leitura da história.
Nas urnas, isso virou voto. Pela NBC, 75% disseram que a economia vai mal, 44% se disseram financeiramente pior do que há dois anos (só 18% melhor) e quase oito em cada dez relataram dificuldades causadas pela inflação. Para 65%, as políticas de Trump pioraram a economia; 62% o culparam pelos preços altos. Foi a mesma arma que derrubou Joe Biden, agora apontada para o outro lado.
Os dois anos restantes de Trump serão de governo dividido, vetos e investigações nas duas casas, e a pauta legislativa conservadora está, na prática, encerrada. Para 2028, o recado é mais sério: Texas, Ohio, Iowa e Geórgia deixaram de ser apostas seguras, e a coalizão de trabalhadores e latinos que devolveu Trump à Casa Branca mostrou que pode se desfazer em dois anos. Quem disputar a sucessão republicana terá de dizer se o movimento pertence a uma pessoa ou a um conjunto de ideias.
A lição não é confortável, mas é clara. Não se vence atacando a fé do adversário enquanto o diesel custa 68% mais caro. Não se pede ao eleitor sacrifício por uma guerra que o próprio America First prometia evitar. E não se terceiriza a culpa para candidatos "desleais" quando foi o líder quem os escolheu. A direita americana já se reergueu de 2006 e de 2018. Para fazer isso de novo, precisará primeiro admitir que perdeu por causa dos próprios erros.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Rodrigo Constantino é economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja, O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




