
Um casarão centenário localizado no centro de Florianópolis, que serviu de residência para três ex-governadores catarinenses, enfrenta um avançado estado de degradação. Mesmo tombado como patrimônio histórico e sendo alvo de decisões judiciais que exigem sua preservação, o imóvel de alto valor comercial continua abandonado, despertando preocupações sobre a perda definitiva de sua memória arquitetônica.
Qual é o valor histórico e arquitetônico desse casarão para Santa Catarina?
O casarão na Rua Frei Caneca é um símbolo raro da elite política catarinense, tendo abrigado os governadores Vidal Ramos, Celso Ramos e Nereu Ramos — este último o único catarinense a ocupar a presidência da República. Construída nos anos 1920 com projeto de Augusto Huebel, a edificação é um exemplar da arquitetura eclética, que mistura estilos diferentes. O imóvel também segue princípios higienistas da época, com porão alto e varandas para melhorar a ventilação e evitar a umidade, além de estar em um terreno que preserva um dos últimos remanescentes de Mata Atlântica na ilha.
Quais medidas a Justiça tomou para tentar salvar a edificação do abandono?
Desde 2018, o Ministério Público atua para evitar que o patrimônio se perca. Em 2023, a Justiça concedeu uma liminar obrigando a instalação de cobertura provisória e isolamento contra invasões, sob pena de multa de R$ 1 milhão. Existe ainda o risco de uma indenização de R$ 9,7 milhões caso a estrutura desabe. Recentemente, uma nova decisão transferiu a responsabilidade dessas medidas emergenciais para uma construtora, enquanto um projeto de restauro protocolado em junho deste ano segue sob análise técnica dos órgãos municipais de patrimônio histórico da prefeitura de Florianópolis.
Como a especulação imobiliária se relaciona com a situação atual do imóvel?
O terreno de 23 mil m², avaliado em R$ 107,5 milhões, é visto por especialistas como um ativo de mercado. Há um projeto de impacto de vizinhança protocolado por uma construtora que prevê a construção de duas grandes torres no local, uma delas com 39 andares, para uso residencial e comercial. O restauro do casarão histórico estaria incluído na proposta como uma contrapartida para que a empresa obtenha benefícios de construção previstos no Plano Diretor. Essa dinâmica de mercado pode explicar por que o imóvel permanece sem uso e em deterioração enquanto aguarda valorização.
Qual é o principal risco que o casarão enfrenta se o restauro demorar?
O tempo é o maior inimigo da estrutura. O Instituto de Arquitetos do Brasil em Santa Catarina alerta que, se a degradação continuar no ritmo atual, o imóvel pode se transformar em uma ruína irreversível. Quando o material original se perde de forma severa, o processo de restauro torna-se tecnicamente inviável. A situação expõe uma falha nas políticas de preservação, onde bens culturais privados são tratados apenas como mercadoria, colocando em risco a memória urbana de Florianópolis diante da urgência técnica e da demora na execução de obras de recuperação efetivas.
Conteúdo produzido a partir de informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo. Para acessar a informação na íntegra e se aprofundar sobre o tema leia a reportagem abaixo.





