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Frio em pleno verão

Enquanto Brasil “assa” no calor, cidade do Sul tem geada — e isso é bom para os negócios

Paisagem de São Joaquim amanheceu com geadas em janeiro, em contraste com o calor intenso registrado em grande parte do Brasil.
Paisagem de São Joaquim amanheceu com geada em janeiro, em contraste com o calor intenso registrado em grande parte do Brasil. (Foto: Mycchel Legnaghi/Acervo pessoal)

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Enquanto grande parte do Brasil enfrenta temperaturas elevadas em janeiro — próximo dos 40ºC no Rio de Janeiro, por exemplo — São Joaquim, na serra de Santa Catarina, viveu, nos primeiros dias do ano, um cenário oposto. No primeiro mês do ano, a cidade registrou geadas e temperaturas próximas de 0°C. O friozinho nos primeiros dias do ano ajudou a impulsionar o turismo e movimentar a economia local.

O frio fora de estação chamou atenção nacional e reforçou uma tendência observada nos últimos anos: São Joaquim vem deixando de ser apenas um destino de inverno e passa a atrair visitantes ao longo de todo o ano, especialmente aqueles que buscam clima ameno, experiências gastronômicas e tranquilidade.

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Geadas em janeiro são raras, mas estão dentro da climatologia da serra catarinense

De acordo com o meteorologista Ronaldo Coutinho, as geadas registradas nos dias 4 e 5 foram resultado de uma massa de ar frio ampla e intensa, associada ao fenômeno La Niña. De acordo com Coutinho, em São Joaquim a menor temperatura chegou a 0,9°C, enquanto grande parte da região serrana registrou mínimas entre 0°C e 4°C.

“Foi uma massa de ar frio grande e forte, que conseguiu manter a temperatura baixa desde sábado à noite, passando por domingo e segunda. Para a época do ano, é uma massa de respeito”, afirma Coutinho.

Segundo ele, não é comum que as temperaturas caiam tanto em janeiro, embora o fenômeno esteja dentro da variabilidade natural do clima da região. “Até 3 ou 4 graus é comum. O que foi incomum foi a ocorrência de duas geadas seguidas. Isso só aconteceu em poucos anos, como 2005, 2009 e agora”, explica.

Coutinho também ressalta que o episódio não tem relação com mudanças climáticas globais. “Isso faz parte da climatologia da região. O topo da serra catarinense é um Brasil dentro do Brasil”, diz.

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Geadas em janeiro atraem turistas

As imagens de geada em pleno verão rapidamente ganharam repercussão nacional e ajudaram a despertar o interesse de turistas. Para o presidente da Associação Empresarial de São Joaquim (Acisjo), Clóvis Francisco de Oliveira, esse tipo de visibilidade costuma ter reflexos diretos no setor turístico.

“As geadas em São Joaquim viram notícia nos principais meios de comunicação do Brasil, e o frio fora de época acaba aumentando a procura de última hora por turistas que apreciam uma noite mais fria, lareira e vinho”, afirma.

Segundo ele, mesmo quando não há geada, as temperaturas amenas funcionam como diferencial competitivo. “O clima mais fresco, principalmente à noite, proporciona uma experiência muito agradável, como dormir bem e aproveitar a cidade de outra forma”, avalia.

Geadas em janeiro na Serra Catarinense viram atração e impulsionam o turismo fora da temporada de inverno.Geadas em janeiro na serra catarinense viram atração e impulsionam o turismo fora da temporada de inverno. (Foto: Mycchel Legnaghi/Acervo pessoal)

Qual o perfil dos turistas e o que eles buscam no verão ameno de São Joaquim

O público que visita São Joaquim fora do inverno é formado, principalmente, por turistas das regiões Sul e Sudeste brasileiras. “Recebemos muitos visitantes do Paraná, do Rio Grande do Sul, de São Paulo e, especialmente, do litoral catarinense”, explica Oliveira.

Para a presidente do Conselho Municipal de Turismo e coordenadora do Núcleo de Hospedagem, Cibeli Rodrigues Maciel, as reservas não são tão programadas quanto no restante do ano, mas a procura vem aumentando a cada ano. De acordo com ela, muitas estadias acontecem de forma espontânea. “Recebi reservas agora que não estavam previstas. Pode ser reflexo do frio, de pessoas querendo fugir do calor excessivo”, relata.

De acordo com Cibeli, o principal atrativo de São Joaquim no verão é justamente aquilo que falta em grande parte do país nesta época: conforto térmico e tranquilidade. “As pessoas querem fugir do calor, da muvuca da praia, da correria. Aqui encontram noites frescas, silêncio, natureza e uma proposta de desaceleração”, comenta.

Ela destaca ainda o perfil das hospedagens voltadas ao turismo rural. “Cabanas em meio à natureza, contato com animais, dormir melhor, desconectar. Isso tudo tem sido cada vez mais buscado como qualidade de vida".

A média de permanência varia conforme o tipo de hospedagem. "Nas pousadas rurais, muitos hóspedes ficam no mínimo três noites. Enquanto nos hotéis de passagem costumam receber turistas por uma ou duas noites", explica.

Gastronomia serrana e produtos de identidade local movimentam a economia

Além da hotelaria, o impacto do turismo se espalha por outros setores. “O setor da gastronomia é amplamente procurado, assim como o comércio e os serviços ligados ao turismo e ao enoturismo”, afirma o presidente da Acisjo.

São Joaquim concentra produtos com forte identidade regional. “Temos o queijo serrano com indicação geográfica, a carne frescal com processo de salga diferenciado, produtos derivados da maçã, mel, embutidos, rosca de coalhada e um jeito serrano de preparar que é difícil de descrever”, diz.

Cibeli reforça que a gastronomia dialoga diretamente com as experiências oferecidas aos turistas. “Temos o vinho como indicação geográfica, o queijo serrano, o mel de bracatinga e, em breve, a carne frescal. Tudo isso fortalece as harmonizações e complementa a experiência turística”, afirma.

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Vinícolas ajudam a consolidar São Joaquim como destino o ano inteiro

As vinícolas de altitude são um dos pilares desse movimento. Pioneira na região, a Vinícola Suzin surgiu a partir da diversificação de uma empresa familiar ligada ao agronegócio. “Nossa origem foi a produção agrícola, com batata e maçã. A uva entrou em 2001 como alternativa de renda”, explica o sócio-diretor Everson Fernando Suzin.

De acordo com ele, a altitude é determinante para o perfil dos vinhos produzidos. “Quanto maior a altitude, mais frio e maior a amplitude térmica. Isso faz com que a uva mantenha acidez e resulte em vinhos mais encorpados, mais potentes, com alta concentração de taninos”, afirma.

A vinícola aposta em experiências tanto no inverno quanto no verão. “Temos wine bar, pôr do sol, degustações, petiscos e um ambiente mais intimista. No verão, o diferencial é justamente o clima. Dormir com coberta em janeiro é algo inimaginável para quem mora no litoral”, diz.

Para Suzin, o enoturismo tem efeito multiplicador. “Nenhum turista vem para ver só uma vinícola. Ele vai ao restaurante, à pousada, a outros atrativos. Uma coisa puxa a outra”, afirma. O empresário acredita que o turismo de verão é uma realidade que tende a crescer. “É dinheiro novo circulando na região. O turismo é essa fábrica sem chaminé que movimenta a economia”, diz.

Embora o inverno ainda concentre o maior fluxo turístico, São Joaquim não depende exclusivamente da estação fria. “Temos vinhos premiados, experiências gastronômicas autênticas, paisagens únicas, clima ameno e uma cidade acolhedora”, resume Oliveira.

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