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Uma cerveja artesanal produzida com água que, em algum momento do processo, teve origem nos dejetos de suínos. A proposta pode soar estranha, mas foi precisamente esse impacto inicial que ajudou pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) a levar um debate técnico para fora dos laboratórios e alcançar o público em geral.
O experimento foi desenvolvido por pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves, em Concórdia, região oeste de Santa Catarina, após mais de 10 anos de estudos sobre tratamento de efluentes da suinocultura. A iniciativa demonstrou que resíduos da produção de suínos podem ser transformados em água potável, atendendo aos padrões exigidos para consumo humano.
Os pesquisadores utilizaram a água potabilizada, de forma experimental, na produção de 40 litros de cerveja artesanal. Eles não colocaram a bebida à venda: o produto ficou disponível para degustação em eventos científicos ao longo de 2024 e 2025, acompanhada de explicações técnicas e análises laboratoriais.
Segundo os pesquisadores, a cerveja não é o objetivo final do projeto, e sim uma ferramenta de comunicação. A proposta foi mostrar, de maneira prática e acessível, que o reúso da água é tecnicamente viável e pode fazer parte das soluções para a crescente pressão sobre os recursos hídricos.
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Sistema de tratamento permite recuperar energia, nutrientes e água de alta qualidade
O ponto de partida do experimento não foi a cerveja, e sim um sistema de tratamento de dejetos de suínos desenvolvido por pesquisadores da Embrapa em parceria com universidades. A tecnologia, conhecida como Sistrates, teve a patente concedida em 2015 e é licenciada para comercialização.
O sistema reúne várias etapas integradas de tratamento. Inicialmente, o efluente bruto da granja passa por biodigestores, onde ocorre a produção de biogás e a recuperação de energia a partir da matéria orgânica presente nos dejetos. Em seguida, processos físico-químicos e biológicos permitem a remoção de nitrogênio e a recuperação de fósforo.
Ao longo dessas etapas, a água vai sendo progressivamente limpa até atingir um padrão conhecido como de reúso, padrão que segundo os pesquisadores atende às exigências ambientais para lançamento em corpos hídricos, conforme a resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), e permite diferentes formas de reaproveitamento.
“Essa água pode ser usada para irrigação, piscicultura ou para retornar à própria granja, em atividades como a lavagem das instalações”, explica o analista da Embrapa Ricardo Steinmetz.

Tecnologia opera em granja comercial
Desde 2014, o sistema Sistrates está em operação em uma granja comercial de grande porte no município de Videira (SC). Steinmetz explica que a propriedade abriga cerca de 10 mil matrizes suínas e não dispõe de área agrícola suficiente para a aplicação dos dejetos como fertilizante, o que torna o tratamento essencial para a continuidade da atividade.
A adoção da tecnologia permite que a granja mantenha a produção em funcionamento. A propriedade reutiliza o efluente tratado em diferentes processos internos, o que reduz a necessidade de captação de água nova.
De acordo com o professor Marcelo Bortoli, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), a qualidade da água gerada pelo sistema chama atenção. “Em muitos momentos, essa água apresenta padrão superior à água captada diretamente do rio”, afirma.
Apesar disso, os pesquisadores destacam que água de reúso não é automaticamente água potável. Mesmo com boa qualidade, ela ainda precisa passar por tratamentos adicionais para atender às normas estabelecidas pela Portaria de Potabilidade do Ministério da Saúde.
Etapas adicionais propiciam que água alcance padrão de potabilidade
Para transformar a água de reúso em água potável, os pesquisadores aplicaram um tratamento complementar em laboratório, semelhante ao realizado em estações de tratamento de água de municípios. O processo envolveu coagulação, filtração, cloração e monitoramento rigoroso de parâmetros físico-químicos e microbiológicos.
Além das análises exigidas pela legislação, o grupo fez testes adicionais, incluindo a busca por vírus e microrganismos específicos da suinocultura, utilizados como marcadores biológicos. Esses controles superam o que as normas brasileiras exigem, dizem os pesquisadores.
“O objetivo era eliminar qualquer dúvida sobre segurança. Queríamos garantir que a água fosse segura para consumo humano antes de utilizá-la na produção da cerveja", explica Steinmetz. Após cumprir todas essas etapas e atender aos padrões de potabilidade estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os pesquisadores destinaram a água à produção da bebida artesanal.
Produção de cerveja com dejetos de suínos como estratégia para quebrar resistência cultural
A ideia de produzir cerveja surgiu em meio à dificuldade de convencer gestores de granjas sobre a segurança da água tratada, mesmo para usos menos nobres, como a lavagem das instalações. A resistência persistia apesar de análises técnicas e resultados laboratoriais positivos.
Foi então que Steinmetz, que é cervejeiro caseiro, sugeriu potabilizar a água e utilizá-la para produzir cerveja. O que começou como uma provocação acabou sendo incorporado como uma estratégia de comunicação.
“Foram produzidos 40 litros, um volume típico de produção caseira”, relata o analista. “Em nenhum momento a intenção foi comercializar. A ideia era provocar reflexão.” A cerveja passou por análises adicionais, inclusive em laboratório do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-SC), antes de ser apresentada ao público.

Degustações da cerveja feita com dejetos de suínos mostraram curiosidade
A bebida foi apresentada em eventos científicos e em ações de divulgação, como o Pint of Science, festival internacional que leva pesquisadores a bares para conversar com o público. Em Francisco Beltrão (PR), cerca de 200 pessoas participaram da atividade.
Durante o evento, os pesquisadores convidaram os participantes a degustar pequenas amostras da cerveja e a responder a um questionário sobre percepção, curiosidade e aceitação. Eles também ofereceram a possibilidade de responder mesmo sem provar a bebida.
Segundo Bortoli, a reação inicial foi de surpresa, mas a curiosidade prevaleceu. “Muita gente esperava um gosto diferente, algo estranho. Quando provavam, percebiam que era uma cerveja normal”, afirma. Os pesquisadores observaram que houve tanto aceitação quanto rejeição — e ambos os grupos trouxeram informações para compreender as barreiras culturais relacionadas ao reúso da água.
Para os pesquisadores, o experimento evidenciou que o principal obstáculo ao reúso potável da água não é técnico, mas cultural. “É uma questão muito mais social do que científica”, avalia Steinmetz.
Em outros países, como Alemanha e Singapura, o reúso potável é realidade, inclusive com água proveniente de estações de tratamento de esgoto urbano como fonte para produzir bebidas comerciais. “A cerveja foi uma forma de romper o muro: ajuda a mostrar que o reúso pode ser seguro e que o debate precisa avançar”, resume Steinmetz.
A próxima etapa do trabalho é captar recursos para desenvolver um novo projeto, com foco na ampliação dos estudos sobre percepção social e possíveis aplicações em maior escala. O grupo também atua em outras frentes relacionadas ao reaproveitamento de resíduos.
É o caso da recuperação de nutrientes para produção de fertilizantes e parcerias com instituições nacionais e internacionais, incluindo grupos da União Europeia. “Nosso foco não é criar um produto para prateleira. O custo seria elevado, e buscamos promover sustentabilidade e mudança de mentalidade”, reforça Steinmetz.









