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Bebida experimental

Como pesquisadores brasileiros criaram cerveja a partir de dejetos de suínos

cerveja feita a partir de dejetos de suínos
Pesquisadores não colocaram a bebida à venda: produto ficou disponível para degustação em eventos científicos, acompanhada de explicações técnicas e análises laboratoriais. (Foto: Marcelo Bortoli/Acervo pessoal)

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Uma cerveja artesanal produzida com água que, em algum momento do processo, teve origem nos dejetos de suínos. A proposta pode soar estranha, mas foi precisamente esse impacto inicial que ajudou pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) a levar um debate técnico para fora dos laboratórios e alcançar o público em geral.

O experimento foi desenvolvido por pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves, em Concórdia, região oeste de Santa Catarina, após mais de 10 anos de estudos sobre tratamento de efluentes da suinocultura. A iniciativa demonstrou que resíduos da produção de suínos podem ser transformados em água potável, atendendo aos padrões exigidos para consumo humano.

Os pesquisadores utilizaram a água potabilizada, de forma experimental, na produção de 40 litros de cerveja artesanal. Eles não colocaram a bebida à venda: o produto ficou disponível para degustação em eventos científicos ao longo de 2024 e 2025, acompanhada de explicações técnicas e análises laboratoriais.

Segundo os pesquisadores, a cerveja não é o objetivo final do projeto, e sim uma ferramenta de comunicação. A proposta foi mostrar, de maneira prática e acessível, que o reúso da água é tecnicamente viável e pode fazer parte das soluções para a crescente pressão sobre os recursos hídricos.

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Sistema de tratamento permite recuperar energia, nutrientes e água de alta qualidade

O ponto de partida do experimento não foi a cerveja, e sim um sistema de tratamento de dejetos de suínos desenvolvido por pesquisadores da Embrapa em parceria com universidades. A tecnologia, conhecida como Sistrates, teve a patente concedida em 2015 e é licenciada para comercialização.

O sistema reúne várias etapas integradas de tratamento. Inicialmente, o efluente bruto da granja passa por biodigestores, onde ocorre a produção de biogás e a recuperação de energia a partir da matéria orgânica presente nos dejetos. Em seguida, processos físico-químicos e biológicos permitem a remoção de nitrogênio e a recuperação de fósforo.

Ao longo dessas etapas, a água vai sendo progressivamente limpa até atingir um padrão conhecido como de reúso, padrão que segundo os pesquisadores atende às exigências ambientais para lançamento em corpos hídricos, conforme a resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), e permite diferentes formas de reaproveitamento.

“Essa água pode ser usada para irrigação, piscicultura ou para retornar à própria granja, em atividades como a lavagem das instalações”, explica o analista da Embrapa Ricardo Steinmetz.

cerveja feita a partir de dejetos de suínosA garrafa da esquerda contém água saída do sistema de tratamento na granja, enquanto o recipiente da direita, com água potável, mostra a que passou por tratamento adicional, produzida a partir da primeira garrafa. (Foto: Ricardo Steinmetz/Acervo pessoal)

Tecnologia opera em granja comercial

Desde 2014, o sistema Sistrates está em operação em uma granja comercial de grande porte no município de Videira (SC). Steinmetz explica que a propriedade abriga cerca de 10 mil matrizes suínas e não dispõe de área agrícola suficiente para a aplicação dos dejetos como fertilizante, o que torna o tratamento essencial para a continuidade da atividade.

A adoção da tecnologia permite que a granja mantenha a produção em funcionamento. A propriedade reutiliza o efluente tratado em diferentes processos internos, o que reduz a necessidade de captação de água nova.

De acordo com o professor Marcelo Bortoli, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), a qualidade da água gerada pelo sistema chama atenção. “Em muitos momentos, essa água apresenta padrão superior à água captada diretamente do rio”, afirma.

Apesar disso, os pesquisadores destacam que água de reúso não é automaticamente água potável. Mesmo com boa qualidade, ela ainda precisa passar por tratamentos adicionais para atender às normas estabelecidas pela Portaria de Potabilidade do Ministério da Saúde.

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Etapas adicionais propiciam que água alcance padrão de potabilidade

Para transformar a água de reúso em água potável, os pesquisadores aplicaram um tratamento complementar em laboratório, semelhante ao realizado em estações de tratamento de água de municípios. O processo envolveu coagulação, filtração, cloração e monitoramento rigoroso de parâmetros físico-químicos e microbiológicos.

Além das análises exigidas pela legislação, o grupo fez testes adicionais, incluindo a busca por vírus e microrganismos específicos da suinocultura, utilizados como marcadores biológicos. Esses controles superam o que as normas brasileiras exigem, dizem os pesquisadores.

“O objetivo era eliminar qualquer dúvida sobre segurança. Queríamos garantir que a água fosse segura para consumo humano antes de utilizá-la na produção da cerveja", explica Steinmetz. Após cumprir todas essas etapas e atender aos padrões de potabilidade estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os pesquisadores destinaram a água à produção da bebida artesanal.

Produção de cerveja com dejetos de suínos como estratégia para quebrar resistência cultural

A ideia de produzir cerveja surgiu em meio à dificuldade de convencer gestores de granjas sobre a segurança da água tratada, mesmo para usos menos nobres, como a lavagem das instalações. A resistência persistia apesar de análises técnicas e resultados laboratoriais positivos.

Foi então que Steinmetz, que é cervejeiro caseiro, sugeriu potabilizar a água e utilizá-la para produzir cerveja. O que começou como uma provocação acabou sendo incorporado como uma estratégia de comunicação.

“Foram produzidos 40 litros, um volume típico de produção caseira”, relata o analista. “Em nenhum momento a intenção foi comercializar. A ideia era provocar reflexão.” A cerveja passou por análises adicionais, inclusive em laboratório do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-SC), antes de ser apresentada ao público.

cerveja feita a partir de dejetos de suínosProcesso de mistura que ocorre depois de adicionar a cevada. (Foto: Ricardo Steinmetz/Acervo pessoal)

Degustações da cerveja feita com dejetos de suínos mostraram curiosidade

A bebida foi apresentada em eventos científicos e em ações de divulgação, como o Pint of Science, festival internacional que leva pesquisadores a bares para conversar com o público. Em Francisco Beltrão (PR), cerca de 200 pessoas participaram da atividade.

Durante o evento, os pesquisadores convidaram os participantes a degustar pequenas amostras da cerveja e a responder a um questionário sobre percepção, curiosidade e aceitação. Eles também ofereceram a possibilidade de responder mesmo sem provar a bebida.

Segundo Bortoli, a reação inicial foi de surpresa, mas a curiosidade prevaleceu. “Muita gente esperava um gosto diferente, algo estranho. Quando provavam, percebiam que era uma cerveja normal”, afirma. Os pesquisadores observaram que houve tanto aceitação quanto rejeição — e ambos os grupos trouxeram informações para compreender as barreiras culturais relacionadas ao reúso da água.

Para os pesquisadores, o experimento evidenciou que o principal obstáculo ao reúso potável da água não é técnico, mas cultural. “É uma questão muito mais social do que científica”, avalia Steinmetz.

Em outros países, como Alemanha e Singapura, o reúso potável é realidade, inclusive com água proveniente de estações de tratamento de esgoto urbano como fonte para produzir bebidas comerciais. “A cerveja foi uma forma de romper o muro: ajuda a mostrar que o reúso pode ser seguro e que o debate precisa avançar”, resume Steinmetz.

A próxima etapa do trabalho é captar recursos para desenvolver um novo projeto, com foco na ampliação dos estudos sobre percepção social e possíveis aplicações em maior escala. O grupo também atua em outras frentes relacionadas ao reaproveitamento de resíduos.

É o caso da recuperação de nutrientes para produção de fertilizantes e parcerias com instituições nacionais e internacionais, incluindo grupos da União Europeia. “Nosso foco não é criar um produto para prateleira. O custo seria elevado, e buscamos promover sustentabilidade e mudança de mentalidade”, reforça Steinmetz.

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