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O paradoxo da vieira

Por que o molusco mais caro de Santa Catarina está desaparecendo 

A vieira é um dos moluscos mais caros de Santa Catarina e tem demanda garantida em restaurantes. Mesmo assim, a produção encolheu e poucos produtores seguem ativos no estado
A vieira é um dos moluscos mais caros de Santa Catarina e tem demanda garantida em restaurantes. Mesmo assim, a produção encolheu e poucos produtores seguem ativos no estado (Foto: Rita de Cássia Rodrigues)

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Santa Catarina movimenta R$ 3,8 bilhões por ano com a indústria do pescado, concentra 61% de toda a atividade industrial da pesca do país e reúne 20,9% dos postos de trabalho do setor, o que representa uma produtividade média de R$ 184,5 mil por trabalhador. Os dados são do Observatório da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc).

O estado também aparece como primeiro colocado no ranking nacional de produção de ostras e vieiras, com 2.481 toneladas produzidas em 2024. É justamente nessa segunda liderança que aparece uma distorção.

A quantidade na produção esconde duas realidades opostas: a ostra se consolidou como produto de escala na maricultura catarinense, mas a vieira segue como fração mínima dentro desse total, hoje muito abaixo do próprio pico histórico da espécie, de 42 toneladas, registrado em 2021.

Guilherme Sabino Rupp, pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) que conduziu as primeiras pesquisas com a espécie no Brasil, na década de 1990, estima que restam menos de uma dúzia de produtores em atividade, todos em Florianópolis. Segundo ele, o cultivo já havia chegado a cinco ou seis municípios, entre eles Governador Celso Ramos, Porto Belo, Bombinhas e Penha.

A escassez de oferta elevou o valor do produto. Levantamento feito pela Epagri junto a maricultores em julho registrou a vieira a R$ 120 a dúzia, quase cinco vezes o preço da ostra, vendida a R$ 25.

Na ponta do consumo, a diferença é ainda maior: restaurantes especializados em frutos do mar, como o Empório Sul Floripa, no Ribeirão da Ilha, cobram R$ 215 pela dúzia de vieira flambada, enquanto a ostra mais elaborada do cardápio, a bulhão pato, sai por R$ 75, de acordo com a proprietária e maricultora Rita de Cássia Rodrigues.

No Empório Sul Floripa, no Ribeirão da Ilha, a dúzia de vieiras flambadas custa R$ 215, enquanto a ostra bulhão pato sai por R$ 75No Empório Sul Floripa, no Ribeirão da Ilha, a dúzia de vieiras flambadas custa R$ 215, enquanto a ostra bulhão pato sai por R$ 75. (Foto: Divulgação/Rita de Cássia Rodrigues)

Ela mesma cultiva a espécie que serve. A cada dois meses, promove no restaurante noites de degustação de vinhos com número limitado de vagas, e diz já saber o que acontece quando escolhe a vieira para abrir o menu. "Se tiver vieira, no mesmo dia já acabam as vagas", afirma a produtora, que começou a cultivar o molusco em 2008 e se apresenta como a única remanescente em atividade do grupo pioneiro formado naquele ano.

Se a demanda existe antes mesmo de o prato chegar à mesa e o preço confirma o valor do produto, por que o estado que lidera a indústria da pesca no Brasil não consegue transformar a vieira em um novo pilar dessa cadeia? A resposta não está na falta de conhecimento técnico.

Santa Catarina dominou a tecnologia da vieira, mas não sustentou a produção

A tecnologia para produzir vieira em cativeiro foi desenvolvida em Santa Catarina e é anterior ao próprio cultivo comercial no estado. Rupp conta que o trabalho começou na década de 1990, durante seu mestrado em aquicultura na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), quando o cultivo avançava em países como o Chile e nada semelhante havia sido feito no Brasil.

A equipe foi ao ambiente natural coletar exemplares de Nodipecten nodosus, maior espécie nativa do litoral brasileiro. "Nesse período, eu desenvolvi pela primeira vez a produção de larvas e juvenis em laboratório", afirma o pesquisador.

No início dos anos 2000, veio o cultivo experimental que testou os fatores que influenciam crescimento e sobrevivência da espécie. "Fechou-se todo o protocolo de cultivo, desde a produção da sementinha até a engorda e comercialização", explica o biólogo.

Com o protocolo pronto, a atividade se implantou comercialmente e chegou a existir em cinco ou seis municípios do litoral catarinense. Os registros do Observatório Agro Catarinense apontam que a produção chegou a 42 toneladas em 2021, depois de anos oscilando em patamar mais baixo. De lá para cá, a produção caiu — e caiu junto com o número de gente disposta a encarar o cultivo.

A tecnologia para o cultivo comercial da vieira foi desenvolvida em Santa Catarina a partir de pesquisas iniciadas nos anos 1990.A tecnologia para o cultivo comercial da vieira foi desenvolvida em Santa Catarina a partir de pesquisas iniciadas nos anos 1990. (Foto: Guilherme Rupp/Acervo pessoal)

O trabalho ajuda a explicar por quê. A produtora Rita de Cássia Rodrigues recebe da UFSC a pré-semente, ainda sem concha, acondicionada em telas que precisam ser escovadas no mar a cada dez ou quinze dias. Só depois de cerca de um mês e meio a vieira começa a formar a casca e pode ser destacada, passando primeiro para lanternas intermediárias e, quando atinge dois centímetros e meio a três, para as lanternas definitivas. A cada mês e meio, as conchas voltam à superfície para serem medidas e separadas por tamanho. Da pré-semente até a colheita, ela contabiliza um ano e meio de manejo.

Ao fim desse ciclo, sobra pouco. A maricultora relata que cerca de 10% e 15% das sementes colocadas na água chegam à colheita. Na ostra, ela compara, a perda esperada é de 30%. "Por isso que muita gente não se arrisca a cultivar vieira", avalia.

Rupp, porém, pondera que esse número não é uma característica da espécie. "A taxa de mortalidade depende do manejo adequado e das condições ambientais", afirma. Em áreas ambientalmente apropriadas e com manejo correto, ele explica que a sobrevivência pode alcançar de 70% a 80%. A diferença entre um cenário e outro cabe em um único indicador.

“Se a salinidade da água for abaixo de 23 partes por mil, o cultivo morre inteiro. Entre 23 e 29, a vieira sobrevive, mas fica fisiologicamente estressada e não cresce direito. Acima de 29, e idealmente perto da salinidade oceânica, de 36 a 37, o crescimento e sobrevivência melhoram”, aponta o pesquisador. Ele lembra que ainda somam-se a essa conta o excesso de matéria inorgânica em suspensão e a incrustação de cracas e algas nas estruturas, que encarecem a produção e travam o desenvolvimento do animal.

O grande problema para o cultivo, segundo as pesquisas de Rupp, é que essas condições quase não existem onde o estado permite cultivar. Santa Catarina é um dos poucos do país com áreas marinhas demarcadas para a maricultura, um processo longo que o pesquisador considera um trunfo — só que as áreas foram desenhadas para ostra e mexilhão e ficam majoritariamente dentro das baías, onde a chuva derruba a salinidade. "Muitas das áreas atualmente disponíveis para a maricultura não são adequadas para a vieira", resume.

A questão central é onde a vieira pode ser posta na água. E, nos últimos anos, essas mesmas áreas passaram a disputar espaço com outro cultivo.

A disputa por espaço no mar catarinense 

Rodrigues aponta o crescimento do cultivo de macroalga como o principal fator por trás dessa disputa. A atividade, que consiste no cultivo de algas marinhas em cordas submersas, se espalhou pelo litoral catarinense como alternativa mais simples e mais rentável no curto prazo do que qualquer molusco. "As macroalgas são muito mais fáceis de cultivar, os produtores estão tendo um retorno bom", observa Rupp.

Enquanto a vieira exige manejo constante, meses de espera e uma alta taxa de perda, a macroalga cresce mais rápido, dá menos trabalho e já garante retorno no primeiro ciclo. O pesquisador descreve o movimento como um efeito em cadeia: um produtor que antes dividia a área entre vieira e alga, ao ver resultado bom com a macroalga, tende a expandir essa produção no ano seguinte e reduzir, ou simplesmente abandonar, o espaço reservado à vieira.

A maricultora também sentiu esse deslocamento de perto. Neste ano, perdeu toda a safra de vieira e viu, ao redor da própria fazenda marinha, cada vez mais estruturas de cultivo de macroalga ocupando o lugar que antes era dividido com moluscos. Para ela, a atividade que antes convivia com o cultivo de vieira virou concorrência direta pelo mesmo pedaço de mar e, na prática, pela atenção e pelo tempo dos poucos produtores que ainda topam lidar com um bicho tão exigente quanto a vieira.

O resultado é o mesmo descrito por Rupp: menos gente disposta a colocar semente de vieira na água, em um momento em que a macroalga se tornou a opção mais fácil de explicar — e de vender — no mercado catarinense.

Um valor represado na maior economia do mar do país

Mesmo com a dúzia valendo mais de dez vezes o que valia há uma década, a vieira de Rodrigues não sai do Ribeirão da Ilha. Ela recebe pedidos frequentes para vender a restaurantes de Brasília e São Paulo, mas recusa todos, sem hesitar: "É arriscado demais, porque se chove 15, 20 dias e a salinidade da água cai, a gente perde tudo." 

Rupp concorda que a atividade é viável, mas discorda que o limite seja definitivo. Para ele, o crescimento da vieira depende de três condições que hoje faltam no estado: a demarcação de novas áreas de cultivo com salinidade e profundidade adequadas — cita a região de Bombinhas como exemplo de potencial ainda pouco explorado —, um fornecimento mais estável de sementes, hoje concentrado quase inteiramente no laboratório da UFSC, e um salto de profissionalização, com produtores dispostos a operar um cultivo mais tecnificado, capaz de justificar o custo mais alto da atividade. "Vai depender de investimentos a nível empresarial para desenvolver um novo produto e uma nova cadeia produtiva", afirma.

O biólogo acredita que a qualidade da vieira catarinense tem potencial para se tornar um produto de alta rentabilidade no futuro e a chave para isso está na política de uso do mar. Mas enquanto as áreas demarcadas para maricultura em Santa Catarina continuarem desenhadas para ostra e mexilhão, e enquanto a mão de obra disponível seguir migrando para atividades mais simples, como a macroalga, a vieira tende a permanecer no mesmo lugar em que está hoje: uma prova de conceito bem-sucedida, sustentada por pouquíssimas pessoas dispostas a arriscar.

Rodrigues já fez as contas para o próprio negócio e chegou a conclusão pessoal de que prefere manter o cultivo pequeno, vinculado ao restaurante, a apostar em uma escala que ela mesma considera arriscada demais. Mas reconhece que isso não fecha a porta para outros. Ela também acredita que a vieira poderia repetir, no turismo gastronômico, o papel que a ostra já ocupa na chamada Rota das Ostras, do Ribeirão da Ilha. "Se eu tivesse uns dez anos menos, eu investiria muito mais em vieira", acrescenta. 

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