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Entre os paredões da Serra Geral, uma abertura natural na rocha dá nome a um dos parques estaduais mais singulares de Santa Catarina. O Parque Estadual da Serra Furada, entre Grão-Pará e Orleans, reúne cânions, Mata Atlântica, trilhas e paisagens de montanha em uma região que ganha força com vinícolas, gastronomia, pousadas e turismo de inverno.
O cenário coloca a unidade em sintonia com um dos segmentos mais valorizados do turismo brasileiro do último ano: 175 unidades de conservação federais abertas à visitação receberam 28,5 milhões de visitas em 2025, o maior número desde o início da série histórica, em 2000. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), esse movimento acrescentou R$ 20,3 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
Após 46 anos, a Serra Furada segue na contramão desse avanço. O parque não possui estrutura turística planejada para receber um fluxo maior de visitantes, não tem estatística consolidada de público, depende de recursos de compensação ambiental para investimentos e ainda busca um modelo de operação para qualificar a visitação.
A dificuldade aparece na tentativa de levar o atrativo a outro patamar. Em 2023, o estado lançou uma licitação para entregar à iniciativa privada, por 30 anos, a operação dos serviços turísticos do parque, com previsão de centro de visitantes, restaurante, mirantes, melhorias nas trilhas e atividades de aventura.
Nenhuma empresa ou consórcio apresentou proposta. A concorrência foi declarada deserta; não há contrato vigente e o Instituto do Meio Ambiente (IMA) informou que a concessão está descartada.
O órgão afirma estudar alternativas como permissão e autorização de serviços, mas não divulgou cronograma nem detalhou como pretende financiar a estrutura necessária. A pergunta que fica é por que um patrimônio natural com potencial para fortalecer o turismo regional ainda não encontrou um caminho viável para sair da condição de atrativo pontual e se consolidar como destino.
Paisagem não basta para atrair investidor
Parte da resposta está no que existe em volta do parque. Criada em 1980, a unidade tem 1.330 hectares nas escarpas da Serra Geral e leva o nome de uma formação rochosa atravessada por uma abertura natural.
Chegar até ela exige trilha, agendamento prévio e condutor credenciado. “É um produto de turismo de natureza, e não de massa”, explica o professor e pesquisador em políticas públicas do turismo da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) Marcos Arnhold Júnior.
Eleconsidera que a ausência de propostas não deve ser lida como falta de potencial. Segundo ele, o investidor olha para a oferta regional, o fluxo provável de visitantes, o acesso, a estrutura existente e o prazo para recuperar o dinheiro aplicado.
"Quando o parque está isolado, ou em uma região que tem pousadas e outros equipamentos, mas ainda não possui um roteiro capaz de manter o visitante por três, quatro ou cinco dias, a atração de investidores se torna mais difícil", avaliou.
Esse cálculo pesa mais quando o próprio estado não sabe quantas pessoas visitam o parque. O IMA informou que a entrada de visitantes sem agendamento ou cadastro impede a formação de uma estatística oficial desde a abertura ao público, em 2021.
A empresa interessada teria de estimar a demanda no escuro. O problema, segundo o pesquisador, é que no estágio atual uma empresa pode não enxergar público suficiente para cobrir investimentos, custos de operação e as restrições próprias de uma unidade de proteção integral.
Sem orçamento próprio, parque tem estrutura enxuta
O parque conta com dois servidores, quatro terceirizados e 14 condutores de visitantes com cadastro ativo. Segundo o IMA, não há recursos específicos no orçamento estadual para infraestrutura. Quando há dinheiro, vem de compensação ambiental.
O órgão apontou que existem processos em andamento para implantar estruturas de recepção de visitantes, mas não detalhou objetos, valores, prazos nem fontes de recursos. A mudança de modelo é o que está de fato em discussão, e ela aproxima Santa Catarina de um caminho que o governo federal já usa em escala.
Em 2025, o ICMBio publicou 19 editais de delegação de serviços de apoio à visitação nas modalidades autorização e permissão, superando a meta de 18 prevista no Plano Plurianual, de acordo com o relatório de gestão do instituto. Os editais cobriram condução de visitantes, venda de alimentos e transporte em parques como Emas, Jericoacoara e Serra da Capivara.
São contratos menores e mais rápidos, que não exigem um único operador para todo o parque. As grandes concessões, porém, continuam no radar de outros estados.

Goiás, por exemplo, tem sessão pública marcada para 17 de novembro para conceder um pacote de parques estaduais, segundo o rol de projetos do BNDES. Arnhold Júnior vê a diferença entre um modelo e outro como condição para qualquer saída catarinense.
"Não basta lançar um edital para que uma empresa cuide do parque. Ela também precisa ter condições de gerar recursos para sustentar a operação, seja qual for o modelo adotado pelo governo", afirmou.
A Secretaria de Estado do Turismo foi procurada para informar se o Parque Estadual da Serra Furada integra as estratégias de promoção do turismo de natureza e quais ações ou investimentos são previstos para estruturar a visitação na região. Até a publicação desta reportagem, porém, não houve resposta.
Parque Serra Furada precisa entrar no roteiro regional
A viabilidade do parque depende de a região crescer junto com ele, acredita o pesquisador. Isso envolve sinalização turística, hospedagem, gastronomia, comércio, qualificação dos serviços e roteiros que segurem o visitante por mais de um dia em Grão-Pará, Orleans e nos municípios vizinhos.
A serra catarinense já caminha nessa direção, com vinícolas, pousadas e uma oferta impulsionada pelo turismo de inverno e pela vindima. O desafio, na avaliação de Arnhold Júnior, é fazer a Serra Furada deixar de ser uma parada pontual e virar parte indispensável desse circuito.
Antes de equipamentos mais complexos, como tirolesa e arvorismo, a prioridade seria o básico: controle de acesso, dados confiáveis sobre o público, manutenção de trilhas, segurança, sinalização e recepção. Segundo o pesquisador, também há espaço para experiências compatíveis com as regras de uso, como turismo acadêmico, observação de espécies e educação ambiental.










