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Mercoagro em Chapecó

As tecnologias que estão sendo apresentadas em feira do agro em Santa Catarina

Salão da Inovação da Mercoagro 2025 em Chapecó
As soluções tecnológicas na feira envolvem rastreabilidade, eficiência energética, biossegurança, automação industrial, inteligência artificial, gestão estratégica e sustentabilidade. (Foto: Adelino Maliska/Sebrae-SC)

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Nos pavilhões do Parque de Exposições Tancredo Neves, em Chapecó (SC), a projeção de R$ 1 bilhão em negócios para a Mercoagro 2026 não se sustenta apenas na venda de grandes máquinas de processamento ou plantas frigoríficas. O volume financeiro, que consolida a feira como uma das maiores do setor na América Latina, encontra suporte em um espaço de densidade técnica elevada, que é novidade desta edição.

O "Salão de Inovação" reúne 20 startups com estandes próprios entre esta terça (17) e a próxima sexta-feira (20). No portfólio estão soluções que buscam resolver gargalos operacionais, sanitários e energéticos, evitando prejuízos ao setor.

De acordo com a gerente regional do Sebrae-SC, Marieli Aline Musskopf, a ideia é criar uma conexão direta entre quem detém o problema, que é a grande indústria, e quem desenvolve a solução, no caso do empreendedor de base tecnológica. "É uma conexão estratégica entre tecnologia, mercado e competitividade, que contribui para a modernização e o crescimento sustentável do setor".

As empresas selecionadas atuam em diferentes frentes da cadeia produtiva, com soluções que envolvem rastreabilidade, eficiência energética, biossegurança, automação industrial, inteligência artificial, gestão estratégica e sustentabilidade (veja lista abaixo).

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Visão computacional para identificar frangos vivos após o abate

Um dos pontos críticos da indústria de aves ocorre logo no início da linha de abate. O frango que chega vivo à etapa de escaldagem no tanque de água quente para remoção de penas pode gerar uma infração do Serviço de Inspeção Federal (SIF). Quando detectada, a irregularidade pode levar à paralisação total da planta até que a causa seja identificada e corrigida.

É neste gargalo que atua a Dimo Soluções em Tecnologia, de Chapecó, com o projeto Active Chicken. A ideia, que nasceu em uma pesquisa de mestrado de Marcos Antônio Moretto, hoje diretor-executivo da empresa e professor da Unochapecó, utiliza visão computacional e inteligência artificial para monitorar a linha pós-abate em tempo real.

O sistema opera de forma autônoma e offline, identificando aves que não foram devidamente sangradas antes de entrarem nos tanques. Os testes realizados em unidades da JBS em Itapiranga (SC) apontaram uma assertividade de 90%, segundo Moretto.

O desafio técnico atual reside no refinamento dos algoritmos para eliminar o que os desenvolvedores chamam de "falso positivo". Isso quer dizer que, em alguns casos, espasmos musculares pós-morte das aves levaram o sistema a identificar movimento onde não há vida.

O empreendedor por trás da empresa, que até o momento operou com recursos próprios, busca a Mercoagro como vitrine para atrair parceiros comerciais que viabilizem a entrada definitiva no mercado. "O network gerado na feira vai ser fundamental para mostrarmos que a visão computacional pode atuar em outros segmentos dentro do frigorífico", explicou Moretto.

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Startup que transforma granja em central de dados já captou R$ 4,5 milhões

Se na linha de abate o foco é a imagem, no campo o foco se desloca para o dado invisível. A PecSmart, startup com sede em Florianópolis e atuação nacional, apresenta um portfólio que transforma a granja em uma central de dados. A empresa, que já captou aproximadamente R$ 4,5 milhões entre fundos privados e subvenções econômicas, monitora cerca de 200 lotes de suínos e mais de 400 silos de ração em todo o país.

O monitoramento zootécnico da startup utiliza bioacústica para identificar problemas respiratórios em suínos através do som da tosse dos animais. Com isso, antecipa surtos de doenças antes que os sinais clínicos sejam visíveis ao olho humano.

Complementarmente, sensores de visão computacional fazem o controle de peso e a contagem dos animais sem a necessidade de manejo físico, reduzindo o estresse. No armazenamento, o sistema SmartFeed monitora o estoque de ração em tempo real, evitando interrupções no ciclo de engorda. Para Diego Jacob Kurtz, sócio-fundador da PecSmart, a Mercoagro é estratégica por estar no coração do polo produtivo catarinense.

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Tratores 100% elétricos eliminam ruído e emissão em aviários e galpões fechados

A tendência global de descarbonização e os critérios de ESG (ambiental, social e governança) vão ser representados na Mercoagro através da YAK Tratores, de Joinville. A empresa, que recebeu cerca de R$ 20 milhões em investimentos, aposta na eletrificação total de equipamentos de movimentação de carga e tratores agrícolas de baixa potência.

Diferente dos tratores movidos a combustão, as máquinas elétricas eliminam a emissão local de gases e reduzem drasticamente o ruído. No contexto da proteína animal, essa tecnologia resolve um problema de bem-estar: o uso de tratores a diesel dentro de aviários ou galpões fechados gera estresse térmico e acústico nas aves, além de comprometer a qualidade do ar para os trabalhadores.

Trator elétrico da YAK (Joinville) será apresentado na Mercoagro.Maquinário elétrico para uso no campo oferece vantagens como menor custo operacional, menos manutenção e redução de emissões. (Foto: YAK Tratores/Divulgação)

João André Ozório, fundador e diretor-executivo da YAK, destaca que o custo total de operação (TCO) é o principal argumento de venda para o produtor. "Motores elétricos possuem menos componentes sujeitos a desgaste, o que reduz a necessidade de manutenção. Além disso, o custo da energia tende a ser mais estável e menor do que o do diesel", afirma.

A aplicação em ambientes sensíveis, como estufas e pavilhões de processamento, abre um nicho onde o motor a combustão tornou-se um entrave técnico e ambiental.

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Chapecó tem nove entre as 20 startups na feira internacional

Das 20 startups selecionadas para a Mercoagro, nove são de Chapecó, com maturação no Pollen Parque Científico e Tecnológico, em parceria com a Unochapecó e o Sebrae-SC. As demais vêm de outros polos catarinenses, como Joinville e Florianópolis, e até de outros estados, como Paraná e Rio Grande do Sul. Além da diversidade de origem e diferentes realidades, a gerente regional do Sebrae-SC chama a atenção para a variedade de soluções para atender toda a cadeia produtiva.

Em segurança alimentar, a gaúcha DUO Phage Dx apresenta diagnósticos microbiológicos baseados em bacteriófagos para detecção rápida de patógenos como Salmonella e Listeria. Já a Myozone foca na desinfecção por ozônio para reduzir a carga microbiana sem o uso de resíduos químicos.

Exemplos de bioeconomia e sustentabilidade vêm da EEnex Food Ingredients e a Energia Boa. A primeira trabalha na extração de proteínas funcionais de subprodutos que antes seriam descartados, agregando valor à carcaça e reduzindo o impacto ambiental. Por outro lado, a A Energia Boa traz a automação para biodigestores, transformando dejetos em biogás e energia limpa.

Em relação a rastreabilidade e governança, o destaque é para a 4bases, que digitaliza a validação socioambiental de produtores rurais, propiciando que a carne processada venha de propriedades em conformidade com as leis fiscais e ambientais. Um requisito obrigatório para a exportação para o mercado europeu.

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O mapa das startups no Salão da Inovação da Mercoagro 2026

A Mercoagro 2026 reúne mais de 230 expositores, que representam cerca de 650 marcas. A expectativa é que 25 mil pessoas passem pelo Parque de Exposições Tancredo de Almeida Neves até a próxima sexta-feira (20).

O caráter global do evento é reforçado pela participação de marcas internacionais e pelo interesse de compradores de diversos países, reafirmando o Brasil como um polo de referência em tecnologia frigorífica e segurança alimentar.

Para startups em estágio inicial, é a chance de falar com diretores de grandes players. Para as consolidadas, é o momento de validar novas funcionalidades diante do feedback direto de quem opera as plantas industriais. Para facilitar a classificação no espaço da Mercoagro, as empresas podem ser agrupadas em cinco eixos fundamentais que integram a cadeia produtiva:

1. Indústria 4.0 e automação de fábrica - soluções que utilizam sensores, visão computacional e IoT para monitorar o "coração" do processamento em tempo real.

  • Dimo (Chapecó-SC): inteligência artificial para identificação automática de frangos na linha de abate.
  • Bit Energy (Jaraguá do Sul-SC): monitoramento inteligente e preditivo de sistemas de refrigeração industrial.
  • Dashzoom (Chapecó-SC): dashboards analíticos para controle de indicadores de desempenho (OEE).
  • Triefe (Joinville-SC): sensores ópticos de alta precisão para controle de processos líquidos.
  • Guia Lean (Chapecó-SC): digitalização de auditorias e processos baseados em Lean Manufacturing.

2. Sustentabilidade, bioeconomia e energia (ESG) - inovações voltadas para a descarbonização, eficiência energética e aproveitamento integral de resíduos.

  • YAK Tratores (Joinville-SC): tratores 100% elétricos projetados para operação silenciosa e zero emissão.
  • Eenex Food Ingredients (Chapecó-SC): geração de proteínas funcionais a partir de subprodutos da cadeia frigorífica.
  • Energia Boa (Chapecó-SC): sistema inteligente para automação de biodigestores e produção de biogás.
  • XGraphene (Chapecó-SC): aplicações industriais de grafeno em revestimentos e embalagens de alta resistência.
  • Cenion (Chapecó-SC): baterias de íons de lítio para otimização de equipamentos de movimentação de carga.

3. Segurança alimentar e biosseguridade - tecnologias que propiciam o controle microbiológico e a integridade física das unidades produtivas.

  • DUO Phage Dx (Porto Alegre-RS): diagnóstico microbiológico ultrarrápido para detecção de Salmonella e Listeria.
  • Myozone (Jaguariúna-SP): equipamentos de ozonização para desinfecção de ambientes e superfícies sem resíduos químicos.
  • Colbrantec / SMG Tec (Chapecó-SC): Sistema automatizado de monitoramento e bloqueio de vazamentos de gás GLP.

4. Rastreabilidade, dados e gestão - a camada de inteligência que conecta o campo, a indústria e as exigências do mercado externo.

  • PecSmart (Florianópolis-SC): monitoramento zootécnico e de estoques de ração via IoT e bioacústica.
  • 4bases (Curitiba-PR): plataforma para validação de documentação socioambiental e fundiária de produtores.
  • Grafos Tech (Joinville-SC): algoritmos de alta performance para gestão e otimização logística de transporte.
  • Mentor Tecnologia (Chapecó-SC): integração de planejamento estratégico e execução operacional orientada por dados.
  • Registro Digital (Chapecó/SC): monitoramento de vulnerabilidades digitais e proteção de dados estratégicos.

5. Mercado e ecossistema de inovação - ferramentas para potencializar as vendas e a cultura de inovação aberta nas empresas.

  • Hub89 (Chapecó-SC): software de gestão para estruturação de programas de inovação corporativa.
  • Redrive (Chapecó-SC): plataforma de CRM e automação comercial potencializada por inteligência artificial.

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