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Rio Claro

Conflito entre PCC e CV na “Rota Caipira” deixa rastro de violência no interior de SP

O município de Rio Claro (SP) está no centro de uma disputa feroz por controle e hegemonia entre as facções criminosas PCC e CV.
O município de Rio Claro (SP) está no centro de uma disputa feroz por controle e hegemonia em um dos principais polos logísticos de distribuição de entorpecentes na região, situado no principal corredor de exportação dos ilícitos andinos via grandes portos do Sudeste. (Foto: Divulgação/Prefeitura de Rio Claro)

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Execuções cinematográficas no meio da rua, chacinas e mais violência explícita em plena luz do dia na frente de testemunhas, tudo com um saldo de dezenas de mortos. Nos últimos anos, uma disputa nada silenciosa em uma cidade considerada estratégica para o tráfico de drogas e até então relativamente pacata no interior de São Paulo ameaça a frágil paz que vigora entre as duas principais facções criminosas do país,ao paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) e a carioca Comando Vermelho (CV).

No coração daquilo que ficou conhecida como "Rota Caipira" — corredor estratégico para o escoamento de entorpecentes que atravessam a fronteira vindos principalmente de Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia — Rio Claro, cidade de 200 mil habitantes localizada a 177 quilômetros da capital São Paulo em um entroncamento rodoviário importante, vive dias de terror com a infiltração de integrantes do CV em uma área até então controlada pelo PCC.

O que começou como uma dissidência interna no “ecossistema” do PCC evoluiu para uma franquia do crime carioca, importando métodos de violência que antes eram raros no interior paulista.

Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, a cidade registrou 24 homicídios dolosos no último ano, sendo oito deles execuções — uma taxa de homicídios por 100 mil habitantes de 11,92, quase três vezes maior que média estadual. A cidade também teve assassinatos acima da média do estado em 2024. Foram 32 homicídios dolosos, com uma taxa de 13,85 homicídios por 100 mil habitantes — mais que o dobro da média paulista (6,1). Desde 2022, a tendência é de aumento.

Por trás dos números frios, acontece uma disputa feroz por controle e hegemonia em um dos principais polos logísticos de distribuição de entorpecentes na região, situado no principal corredor de exportação dos ilícitos andinos via grandes portos do Sudeste. De acordo com investigações do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil do estado, as desavenças começaram a se espalhar na região a partir de 2021. 

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Ascensão da facção local Bonde do Magrelo transformou Rio Claro em um laboratório de guerra para o CV

Uma facção local conhecida como Bonde do Magrelo, até então aliada do PCC, rompeu com o grupo hegemônico paulista e passou a atuar como uma espécie de filial do CV no interior de São Paulo. Em fevereiro, a Justiça decidiu levar a júri popular João Paulo Aparecido de Sá Gomes, integrante do CV do Rio de Janeiro, acusado de matar em Rio Claro o rival Cristiano Rodrigues da Conceição, o "Irmão Cigano", apontado pela polícia como membro do PCC.

"Irmão Cigano" foi assassinado com tiros de fuzil calibre 5,56 e de pistolas calibres 380 e 40 no dia 30 de dezembro de 2024. O crime aconteceu dentro de um supermercado, onde a vítima foi emboscada por três homens e fuzilada. A reportagem da Gazeta do Povo não conseguiu contato com a defesa do réu.

A ascensão do Bonde do Magrelo transformou Rio Claro em um laboratório de guerra para o CV. O que começou como uma dissidência interna no “ecossistema” do PCC evoluiu para uma franquia do crime carioca, importando métodos de violência que antes eram raros no interior paulista.

Investigações da Polícia Civil indicam que o Bonde do Magrelo passou a receber armamento pesado e suporte logístico do Rio de Janeiro em troca de garantir pontos de venda de drogas e, principalmente, rotas de passagem. O objetivo é furar o bloqueio logístico imposto pelo PCC, que há décadas controla a região.

Crime organizado usa vias secundárias que cortam plantações de cana-de-açúcar na chamada Rota Caipira

Essa aliança com uma facção local replica a forma de agir do CV em outras regiões do país, como no Nordeste e no Norte. A ”terceirização” da disputa entre facções permite que o CV avance sem precisar deslocar grandes contingentes de "soldados" cariocas, utilizando-se da mão de obra local que conhece os atalhos da Rota Caipira.

Em resposta, o PCC ativou seu "tribunal do crime" com rigor implacável. A execução de "Irmão Cigano" dentro de um supermercado foi apenas um lance em um tabuleiro de xadrez sangrento. Meses antes, outros integrantes considerados como de baixo clero na hierarquia de ambos os lados foram encontrados mortos em áreas rurais, muitas vezes com sinais de tortura.

O MP-SP aponta que a situação em Rio Claro não é isolada, e sim o sintoma de uma pressão maior nas divisas do estado. A região administrativa de Campinas e o eixo da Rodovia Washington Luís tornaram-se áreas de fricção.

Se antes o PCC mantinha a ordem através da "paz criminosa" — pela qual a hegemonia de uma única facção evitava confrontos diretos para não atrair a atenção da polícia e não prejudicar os lucros —, a chegada do CV quebra essa lógica.

Para tentar conter a crise, a Polícia Militar intensificou o patrulhamento em bairros como o Jardim Progresso e o Jardim Novo, mas o desafio é invisível: o monitoramento das estradas vicinais que cortam as plantações de cana-de-açúcar. É por essas vias secundárias que o crime organizado se movimenta pela região da Rota Caipira.

Oriunda das fronteiras com Bolívia e Paraguai, a Rota Caipira tem como principal destino as metrópoles, sobretudo as do Sudeste, e o maior porto do país, na cidade de Santos. É a rota de entrada de entorpecentes mais antiga do país.

Pousos em pistas clandestinas nos estados de São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná ocorrem diariamente. A ampla malha viária favorece a distribuição por cidades, portos e aeroportos brasileiros.

Até 2014, CV e PCC mantinham uma paz informal. O estopim do rompimento foi o assassinato do traficante Jorge Rafaat Toumani, o "rei da fronteira". Com a morte dele, o PCC assumiu o controle direto da Rota Caipira na fronteira com o Paraguai, dispensando intermediários e prejudicando o abastecimento do Comando Vermelho no Rio de Janeiro, o que gerou massacres no sistema prisional e guerra aberta entre as facções.

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