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Dança das cadeiras

Tarcísio muda cúpula da segurança pública de olho na área estratégica para a campanha

Tarcísio promove trocas na cúpula da Segurança Pública e na polícia e reposiciona área estratégica para a disputa nas eleições em 2026 em São Paulo.
O secretário paulista da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. (Foto: Paulo Guereta/Governo de SP)

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Desde que Guilherme Derrite (PP-SP) deixou o cargo de secretário da Segurança Pública no estado de São Paulo para retomar o mandato de deputado federal e se dedicar à pré-campanha ao Senado, a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) iniciou uma nova fase na condução da pasta.

A saída do aliado político após quase três anos à frente da secretaria abriu espaço para a nomeação do delegado Osvaldo Nico Gonçalves e para uma reorganização interna nas polícias Civil e Militar. O movimento é considerado natural em transições de comando, mas reposiciona forças dentro da estrutura da segurança pública estadual de Tarcísio.

Nas últimas semanas, a nova gestão promoveu uma série de mudanças nos primeiros escalões das polícias. Apuração da Gazeta do Povo, confirmada no Diário Oficial do Estado, indica que as alterações atingiram cargos estratégicos da Secretaria da Segurança Pública e setores sensíveis das corporações. Essas substituições ocorrem concomitantemente a alterações na cúpula de outras pastas, como Casa Civil, Justiça e Políticas para a Mulher.

Mudanças atingem área da Inteligência e Corregedoria

Na Polícia Civil, a delegada Fernanda Herbella deixou a Deatur (Delegacia de Atendimento ao Turista) e assumiu a direção da Acadepol (Academia de Polícia), responsável pela formação de delegados e investigadores. Já o delegado Fábio Pinheiro Lopes, conhecido como "Fábio Caipira", que estava afastado desde dezembro da direção do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), foi nomeado para a direção do Dope (Departamento de Operações Policiais Estratégicas), encarregado de operações especiais e do combate ao crime organizado.

Também foi oficializada a nomeação do delegado Oswaldo Diez Júnior para a diretoria do Deinter-2 (Departamento de Polícia Judiciária do Interior 2), com sede em Campinas, estrutura que coordena delegacias em uma das regiões mais relevantes do estado. No núcleo político da pasta, a principal mudança foi a substituição do secretário-executivo.

Paulo Maurício Maculevicius Ferreira deixou o posto no dia 2 de fevereiro e foi sucedido pelo coronel Henguel Ricardo Pereira, que até então chefiava a Casa Militar do governo. A movimentação reposiciona Henguel como número dois da secretaria, com influência direta sobre a Polícia Militar.

No mesmo pacote de alterações, o coronel Cássio Araújo de Freitas foi exonerado do cargo de chefe de gabinete da secretaria — no lugar dele assumiu Luís Fernando de Camargo da Cunha Lima. Freitas foi comandante-geral da PM até abril de 2025, quando foi substituído por um nome de confiança de Derrite, o coronel José Augusto Coutinho.

As mudanças alcançaram áreas estratégicas da PM. O coronel Pedro Luís de Souza Lopes deixou o comando do Centro de Inteligência da corporação para assumir o Comando de Policiamento Metropolitano (CPM).

Já o corregedor da PM, coronel Fábio Sérgio do Amaral, foi transferido para o CPI-7 (Comando de Policiamento do Interior-7) e, em substituição, assumiu o coronel Alex dos Reis Asaka, que chefiava o CPA/M-11 (Comando de Policiamento de Área Metropolitana 11).

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Segurança pública é área prioritária para Tarcísio na busca pela reeleição

As mudanças ocorrem em um momento politicamente sensível. Em ano eleitoral, Tarcísio buscará a reeleição estadual tendo a segurança pública como uma das principais vitrines de sua gestão.

Levantamento nacional do instituto Paraná Pesquisas divulgado em janeiro mostra que a segurança pública é apontada por 22,2% dos entrevistados como o principal problema do país, à frente da saúde (20,1%) e da inflação (15,9%). No recorte da região Sudeste, onde está São Paulo, o índice é de 23,7%, enquanto saúde e inflação ficam, respectivamente, com 18,9% e 15,7% na opinião popular.

São percepções do eleitor que vão impactar tanto o voto de presidente da República quanto de governador. De acordo com especialistas em segurança pública, as mudanças em São Paulo dão fôlego ao governo estadual em um momento estratégico.

”O Nico tem um perfil pacificador, diferente do Derrite, que foi policial militar. Neste momento, é necessário um entrosamento maior entre as polícias Militar, Civil e Técnico-Científica”, opina Ronaldo Marzagão, especialista em segurança pública. Exemplo dessa integração ocorreu em uma operação pré-carnaval na última sexta-feira (13), quando a PM realizou ação conjunta com a Polícia Civil e apreendeu 63 adolescentes, além de recolher mais de 250 quilos de drogas, armas e dinheiro.

”Houve um desgaste da gestão do Derrite que, querendo ou não, puxava um pouco mais a sardinha para a PM”, diz Marzagão. ”Quando há interlocução entre as duas polícias, consegue-se evitar o crime lá na frente. Tenho a impressão de que o governador e o Nico promoveram uma mudança brusca de direção na segurança pública em São Paulo”, complementa.

A nomeação de Nico, um nome oriundo da Polícia Civil, teria vindo para equilibrar essa equação e anseios entre as corporações dentro da secretaria. ”Derrite tem o conhecimento da janela da viatura, da ponta da linha. Isso é importante, mas é diferente de quem passou por cursos estratégicos e tem uma visão mais ampla da segurança pública”, diz o coronel José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública.

  • Metodologia: 2.080 entrevistados pelo Paraná Pesquisas para resultados gerais e 878 para a região Sudeste, entre os dias 25 e 28 de janeiro de 2026. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2,2 pontos percentuais para resultados gerais e 3,4% para a Região Sudeste. Registro no TSE nº BR-08254/2026.

Foco está no combate aos crimes contra o patrimônio

Crítico da condução de Derrite à frente da pasta, José Vicente acha que as mudanças no Centro de Inteligência da PM foram direcionadas para retomar uma vocação mais ampla de análise criminal, e não apenas o foco no crime organizado. Dados compilados com base em informações da Secretaria de Segurança Pública apontam que, em 2025, foram registrados 2.878.944 crimes no estado.

Desses, 1.808.988 foram crimes contra o patrimônio. Considerando uma subnotificação estimada em 40% nesse tipo de ocorrência, o total estimado apenas de crimes patrimoniais pode ter chegado a cerca de 3,6 milhões no ano, aponta José Vicente.

A ida do coronel Henguel Ricardo Pereira para a secretaria-executiva, por sua vez, representaria uma tentativa de reorganizar a PM sob um comando mais alinhado à nova fase do governo. Em entrevista na última segunda-feira (16) ao Jornal CBN Vale, Henguel enalteceu a região estratégica do Vale do Paraíba, destacou o programa de videomonitoramento eletrônico, que integra câmeras, inteligência artificial e reconhecimento facial e de placas para combater a criminalidade, e reforçou o combate à violência contra a mulher, bandeiras que devem ser levantadas por Tarcísio na disputa à reeleição.

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Fôlego político diante de insatisfação salarial

As trocas também dialogam com um ambiente de insatisfação dentro da PM, que diz não ter recebido, nos últimos anos, uma melhoria salarial condizente com a promessa de campanha feita por Tarcísio em 2022. Na ocasião, o então candidato prometeu fazer de São Paulo o segundo maior salário aos agentes policiais do país, atrás apenas do Distrito Federal.

"A insatisfação sempre fez parte da categoria, mas como Tarcísio fez a promessa, estão cobrando o seu cumprimento", diz José Vicente. Em 2025, foram registrados 917 pedidos de exoneração voluntária da PM-SP, o maior número da série recente, de acordo com dados da Associação Nacional de Guardas Municipais do Brasil (AGM Brasil).

"Delegados e investigadores da Polícia Civil começam a deixar o governo. Prometeram o aumento, não veio; prometeram que iam trocar todas as viaturas, não veio; prometeram que iam dar dois helicópteros, só veio um. Existe um desgaste natural, em que o político começa a perder força", avalia Marzagão.

Para ele, a substituição de nomes nas cúpulas pode gerar um efeito político de renovação e dar novo ânimo à base em um ano estratégico para a administração estadual. "Quando você muda o comando, você ganha fôlego. É uma tentativa de reorganizar o ambiente e recuperar força".

Derrite destaca redução histórica no registro de crimes

Em nota à reportagem da Gazeta do Povo, a assessoria do deputado federal e ex-secretário da Segurança Pública de São Paulo Guilherme Derrite afirmou que considera naturais as trocas promovidas na Secretaria após sua saída. "Mudanças de equipe fazem parte da dinâmica administrativa e são prerrogativas legítimas do governador".

Sobre a opinião de que a gestão Derrite teria priorizado "excessivamente" o combate às facções criminosas em detrimento dos crimes patrimoniais, o ex-secretário evidencia que "os resultados demonstram exatamente o contrário" e acrescentou que "durante sua gestão, São Paulo registrou quedas históricas nos crimes patrimoniais, com reduções expressivas nos índices de roubo em geral, roubo de veículos e furtos — alcançando os menores patamares em décadas, segundo dados oficiais da própria Secretaria".

O ex-secretário pontuou ainda que "o enfrentamento ao crime organizado não excluiu o combate aos delitos do dia a dia; ao contrário, fortaleceu a capacidade do Estado de reduzir todas as modalidades criminais".

A assessoria do deputado complementou que "quanto às críticas relacionadas à formação, Derrite possui trajetória acadêmica sólida, incluindo mestrado, além de ampla experiência operacional e legislativa na área de segurança pública. Sua atuação sempre foi pautada por critérios técnicos, planejamento estratégico e metas objetivas, o que se refletiu nos indicadores criminais e no reconhecimento público do trabalho desenvolvido."

Já em relação à supostas tensões internas, a equipe de Derrite respondeu que "é natural que haja debates técnicos e divergências em uma estrutura complexa como a da Segurança Pública. No entanto, decisões administrativas sempre foram tomadas com base no interesse público e em critérios institucionais", concluiu.

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